É mais uma revelação surpreendente no caso Rui Pedro. Manuel Pereira, um comerciante de Paços de Ferreira, garantiu ontem no Tribunal de Lousada que no dia do desaparecimento viu uma prostituta com uma criança na zona de Lustosa, na mesma cidade. O depoimento vem confirmar a versão apresentada por Alcina Dias, que na passada segunda-feira garantiu ter recebido dinheiro de Afonso, acusado de rapto, para ter sexo com a criança. <br/><br/>
"Vi um menino com uma prostituta na zona de Lustosa. Não lhes consegui ver a cara, porque entretanto caminharam em direcção a uns arbustos", contou o comerciante.
Manuel Pereira foi chamado ontem a depor na sequência do depoimento de Lúcia Mendonça, tia de Rui Pedro. A mulher, também ontem ouvida, explicou que Manuel Pereira lhe contou que tinha visto uma criança.
"Ele foi ao escritório de advocacia onde trabalho. O meu sobrinho tinha desaparecido apenas há alguns dias e eu contei-lhe que havia suspeitas de que o menino tinha sido levado para um encontro com prostitutas. De repente, o senhor Manuel ligou tudo. Contou-me que viu uma criança naquele dia com uma prostituta e que achou estranho", disse.
Ontem, Manuel Pereira não conseguiu adiantar ao tribunal a que horas viu a criança, nem descrever que roupa vestia. Também não se recorda se na altura estava algum carro parado na zona. "O que me chamou a atenção foi mesmo a criança. Não é normal um menor estar ali com uma prostituta", afirmou.
Manuel Pereira garante que dias após o desaparecimento da criança de 11 anos foi ouvido pelas autoridades no Tribunal de Lousada, onde contou o que tinha presenciado. Nos autos, porém, não constam as suas declarações. Tal facto causou enorme estranheza, quer à acusação, quer à defesa. "Sempre defendi o trabalho da Polícia Judiciária, mas cada vez mais acho que estava enganado. Não fizeram o que deviam", disse o pai do menino, Manuel Mendonça, que criticou o trabalho da primeira equipa que investigou o caso.
FOI FALAR COM TESTEMUNHA
Lúcia, tia de Rui Pedro, esteve até anteontem convencida de que Manuel Pereira tinha prestado declarações sobre o caso. Anteontem à noite, quando soube que a testemunha nunca tinha sido ouvida formalmente, ficou revoltada e foi com o irmão, pai do menino, a casa do comerciante. "Fomos lá porque não conseguia compreender isto. Ele disse que tinha falado uma vez", contou. Ontem, a testemunha foi ouvida.
FAMÍLIA DE AFONSO FICA EM SILÊNCIO
Ontem, na sétima sessão do julgamento, estavam também arroladas como testemunhas vários familiares de Afonso Dias, acusado do rapto de Rui Pedro. Mas todos eles recusaram prestar declarações, direito que lhes é concedido devido aos laços que têm com o arguido. Presentes estiveram a sogra, os pais, duas irmãs e dois cunhados. Um a um, todos disseram ao colectivo de juízes que a sua intenção era manterem-se em silêncio.
Já nas sessões anteriores, quer a mulher de Afonso quer um irmão tinham já optado por não falar. Paulo Gomes, advogado da família, acrescentou mesmo na altura que tal fazia parte da estratégia do arguido.
Os depoimentos dos familiares de Afonso seriam importantes para a acusação, essencialmente para perceber o que o arguido fez na tarde do desaparecimento. Afonso não tem álibis para a tarde de 4 de Março de 1998, quando o menino desapareceu.
Na sessão de ontem, ainda foi ouvida uma comerciante de Lousada que costumava ajudar Afonso. Olga Silva disse que, apesar de o arguido pertencer a uma família muito humilde, andava sempre com muito dinheiro, cuja proveniência era desconhecida. "Eu ajudava-o, mas não me parecia que ele tivesse falta de dinheiro", contou.
"PEDIU QUE ELE FICASSE CALADO"
Maria do Céu, uma outra tia de Rui Pedro, disse ontem que o filho João André, na altura também com 12 anos, foi intimidado por Afonso, após o desaparecimento, para ficar calado. O menor saberia que o primo tinha ido às prostitutas. "Pediu para que ficasse calado. Disse : ‘Se és meu amigo, diz o contrário'. Estava nervoso", contou a testemunha.
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