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Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

Ministro do Ambiente surpreendido com decisão para Almaraz

João Matos Fernandes diz que legalidade não foi cumprida.

29 de dezembro de 2016 às 18:30

O ministro do Ambiente afirmou hoje estar surpreendido com a autorização de Espanha à construção do armazém de resíduos nucleares, em Almaraz, considerando haver incumprimento de legalidade e lealdade entre os dois países, e decorrem agora contactos diplomáticos.

"Temos três princípios muito claros, o primeiro é o da legalidade e ela não foi cumprida", disse à agência Lusa João Matos Fernandes, e explicou que, num projeto deste tipo, as leis comunitárias obrigam à existência de uma avaliação de impactos ambientais transfronteiriços e "isso não foi feito".

O Governo espanhol deu luz verde à construção do armazém para resíduos nucleares na central de Almaraz, localizada a cerca de 100 quilómetros da fronteira portuguesa, através de uma resolução da Direção-Geral de Política Energética e Minas do Ministério da Energia.

De acordo com o Boletim Oficial do Estado (BOE), divulgado na quarta-feira, que reporta a resolução de 14 de dezembro de 2016, da Direção-Geral de Política Energética e Minas, "autoriza a execução e montagem da modificação do desenho correspondente ao Armazém Temporário Individualizado da Central Nuclear Almaraz, Unidades I e II".

"Reajo com uma enorme surpresa a esta decisão por parte do Governo espanhol", transmitiu João Matos Fernandes.

Com base nos elementos fornecidos por Espanha e "mostrados pelos nossos colegas espanhóis é evidente que isso [a avaliação dos impactos transfronteiriços] não foi feito", realçou.

"Não deixaremos em situação alguma de recorrer à Comissão Europeia que é quem tem a responsabilidade máxima pelo cumprimento dessas diretivas para deixar claro que isso não foi cumprido", voltou a referir o ministro do Ambiente, que falava à Lusa depois da cerimónia de apresentação do Relatório do Estado do Ambiente (REA) 2016, em Lisboa.

Em segundo lugar, para o governante, está em causa "um princípio de lealdade na relação entre dois povos vizinhos" salientando que não sente que isso tenha acontecido.

Por isso, "estão a acontecer, neste momento, um conjunto de 'demarches' diplomáticas a tentar que essa mesma lealdade volte a estar em cima da mesa", especificou João Matos Fernandes.

"Em terceiro lugar [está] o princípio básico da defesa das condições ambientais no nosso país que, em situação alguma posso dizer que estão em risco, mas que têm de ser avaliadas e apreciadas", disse ainda o ministro.

"Existindo uma reunião marcada em que o primeiro ponto de agenda é discutir Almaraz, a 12 de janeiro, não posso deixar de me interrogar sobre a pertinência dessa mesma reunião e, com base nas 'demarches' diplomáticas a decorrer, vamos perceber se essa reunião faz ou não sentido", referiu.

João Matos Fernandes recordou que a 01 de dezembro foi enviada uma carta à ministra espanhola que tutela o Ambiente, com três parágrafos, um que remete para a apreciação da informação enviada a Portugal que, "não sendo completa, deixa claro que não foram avaliados os impactos transfronteiriços, isso é muito evidente".

No parágrafo, o ministro disponibilizava-se para que a reunião se realizasse rapidamente, tendo depois ficando agendada para 12 de janeiro, e em terceiro lugar solicitava que "não houvesse uma decisão formal sobre a possibilidade de construção do aterro para resíduos nucleares".

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