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100 anos de identidade entre a Ria e o futuro

Murtosa: um concelho que honra as suas raízes e constrói, com confiança, o próximo século

03 de novembro de 2026 às 10:34

Há cem anos, a 29 de outubro de 1926, nascia oficialmente o Concelho da Murtosa. A emancipação administrativa, formalizada através do decreto assinado pelo então Ministro do Interior, Almirante Jaime Afreixo, e alcançada pela separação do concelho de Estarreja, marcou o início de um novo capítulo para uma comunidade que há muito se distinguia pelas suas características próprias, moldadas pela proximidade da água, pelo espírito empreendedor das suas gentes e por uma ligação singular à Ria de Aveiro.

Mas a história da começou muito antes da assinatura do decreto emancipador. As origens do território remontam a vários séculos, num espaço onde a ria definiu modos de vida, atividades económicas e relações humanas. A pesca, a apanha do moliço, a construção naval tradicional e a agricultura constituíram durante gerações a base da economia local e ajudaram a construir o caráter resiliente de uma população habituada a viver em estreita relação com a natureza.

Não por acaso, a autarquia adotou a expressão “Coração da Ria de Aveiro” como uma das suas marcas identitárias. A ria foi sustento, estrada, local de encontro e motor de desenvolvimento. Foi também o berço daquele que continua a ser o mais reconhecido símbolo do concelho: . Durante décadas utilizado na recolha do moliço, transformou-se numa das imagens mais emblemáticas da cultura lagunar portuguesa. A valorização desta embarcação tradicional e da sua herança cultural foi uma preocupação constante do Município, que desempenhou um papel ativo na sua preservação e promoção. Hoje, o moliceiro integra o património cultural imaterial reconhecido pela UNESCO, constituindo um dos maiores embaixadores da Murtosa e da Ria de Aveiro.

Ao lado da ria e dos moliceiros existe outro elemento profundamente enraizado na identidade local: a bicicleta. Muito antes de se falar em mobilidade sustentável, já a bicicleta fazia parte do quotidiano da Murtosa. Era o principal meio de transporte de trabalhadores, pescadores e estudantes, atravessando ruas e caminhos de um território plano e intimamente ligado à natureza. Hoje, continua presente no dia a dia da população, agora reforçada por uma rede de percursos e ciclovias que ajudam a afirmar o concelho como um território amigo da mobilidade suave e sustentável.

O moliceiro integra o património cultural imaterial reconhecido pela UNESCO
O moliceiro integra o património cultural imaterial reconhecido pela UNESCO FOTO: DR

Uma identidade sem fronteiras

A história da Murtosa não se escreve apenas dentro dos seus limites geográficos. Ao longo do século XX, milhares de murtoseiros partiram em busca de melhores condições de vida, levando consigo os costumes, os valores e a identidade da sua terra natal. Os Estados Unidos da América tornaram-se um dos principais destinos dessa diáspora, particularmente o estado de New Jersey e a cidade de Newark, onde se consolidou uma das maiores comunidades murtoseiras fora de Portugal.

Apesar da distância, a ligação à terra de origem nunca se perdeu. Ao longo das décadas, sucessivas gerações mantiveram viva essa relação através de associações culturais, festividades, iniciativas solidárias e visitas regulares ao concelho. Um dos exemplos mais emblemáticos dessa ligação é o Sport Marítimo Murtoense de Newark, instituição centenária que continua a desempenhar um papel determinante na preservação da identidade murtoseira junto da comunidade emigrante. O clube foi justamente homenageado durante as comemorações do centenário do concelho.

A força dessa ligação ficou igualmente evidente na presença de Michael Silva, vereador do Bairro Leste no Conselho Municipal de Newark e figura destacada da comunidade luso-americana. No seu discurso, marcado por um forte simbolismo emocional, recordou os laços que unem as duas margens do Atlântico e o orgulho sentido pelos descendentes de emigrantes que continuam a olhar para a Murtosa como parte da sua identidade. “É um privilégio extraordinário estar aqui hoje a celebrar os 100 anos desta terra que corre no sangue de tantos luso-americanos”, afirmou, acrescentando que o centenário constitui “uma prova viva de uma autonomia que orgulha tanto os residentes locais como a nossa Murtosa de lá”.

Um concelho que soube reinventar-se

Com cerca de dez mil habitantes distribuídos por quatro freguesias, a Murtosa apresenta-se hoje como um território que conseguiu preservar as suas raízes sem deixar de acompanhar os desafios da modernidade.

A transformação aconteceu sem ruturas. Muitas das atividades tradicionais deram lugar a novas dinâmicas económicas, mas a relação com a ria e com o património local permaneceu no centro da identidade do território.

A valorização da ria, a aposta no turismo de natureza, a náutica, os percursos cicláveis e pedestres, a recuperação do património e a promoção da qualidade de vida têm contribuído para posicionar o concelho como um destino cada vez mais procurado por visitantes e por quem procura uma relação mais próxima com o ambiente natural.

Ao mesmo tempo, o associativismo continua a desempenhar um papel central na vida comunitária, enquanto equipamentos culturais e iniciativas de valorização da memória coletiva procuram garantir que o desenvolvimento não acontece à custa da identidade. É neste equilíbrio entre tradição e inovação que a Murtosa procura construir o seu futuro.

O barco moliceiro é um símbolo do concelho
A Ria de Aveiro sempre foi essencial no desenvolvimento da Murtosa. FOTO: DR

O segundo século começa agora

A sessão solene evocativa do centenário, realizada nos Paços do Município, constituiu um dos momentos mais marcantes das celebrações. Perante uma sala repleta de convidados, representantes da comunidade e diversas entidades civis e militares, a cerimónia contou, entre outras personalidades, com a presença de Silvério Regalado, Secretário de Estado da Administração Local e Ordenamento do Território, sublinhando a importância institucional da efeméride.

Entre homenagens, distinções e momentos de evocação histórica, a cerimónia prestou tributo às pessoas e instituições que ajudaram a construir a Murtosa ao longo do último século.

Um dos momentos mais simbólicos foi a homenagem prestada aos antigos presidentes da Câmara ainda vivos: Domingos Lopes, Augusto Santos Leite, António Santos Sousa e Joaquim Baptista. Os antigos autarcas receberam uma peça comemorativa concebida pelo arquiteto João Ruela, uma obra que reúne três dos elementos mais representativos da identidade local: o moliceiro, a Ria de Aveiro e a bicicleta.

Particularmente emotiva foi também a distinção atribuída à jovem Mariana Reis, vencedora do Prémio Escolar Fonseca-Burke, entregue na presença da sua instituidora, Rosália Fonseca-Burke, médica de ascendência murtoseira radicada no Texas. Mais do que um reconhecimento académico, o momento simbolizou a ligação entre gerações e a forma como a diáspora continua a investir no futuro da sua terra de origem.

Mais do que um momento de celebração, o centenário representa uma oportunidade para refletir sobre o caminho percorrido e sobre aquele que ainda continua por fazer. Se o primeiro século foi o da afirmação de uma identidade própria, o segundo será seguramente o da capacidade de preservar esse património humano, cultural e natural, enquanto se constroem respostas para desafios como a demografia, a sustentabilidade e a criação de oportunidades para as novas gerações.

Entre os moliceiros que continuam a percorrer os canais da ria, as bicicletas que fazem parte da paisagem quotidiana e as comunidades emigrantes que levaram o nome da Murtosa para além do Atlântico, o concelho entra no seu segundo século de vida fiel às suas raízes. É nessa capacidade de valorizar a memória sem perder de vista o futuro que a Murtosa procura escrever as próximas páginas da sua história.

Januário Vieira da Cunha, Presidente da Câmara Municipal da Murtosa
Januário Vieira da Cunha, Presidente da Câmara Municipal da Murtosa FOTO: DR

“A Murtosa que queremos para os próximos 100 anos será aquela que soubermos construir em conjunto”

Januário Vieira da Cunha, presidente da Câmara Municipal da Murtosa, fala do centenário da autonomia administrativa da Murtosa, faz um balanço do passado e do presente, aponta a importância da Ria do Aveiro e projeta o futuro.

 Cem anos depois da emancipação administrativa, o que representa para si celebrar esta data enquanto presidente da Câmara da Murtosa?

Confesso que jamais me passava pelo pensamento que me caberia o privilégio de presidir aos destinos da Murtosa precisamente na celebração do Centenário da sua autonomia administrativa. É um momento de enorme orgulho, mas também de grande responsabilidade. Acima de tudo, é o momento de homenagear todos os que, ao longo de décadas, acreditaram que a Murtosa merecia um destino próprio e lutaram para que esse objetivo se tornasse realidade. O decreto de 29 de outubro de 1926 materializou uma legítima reivindicação das gentes murtoseiras e abriu o caminho para um século de desenvolvimento, progresso e afirmação da nossa identidade.

Ao olhar para o último século, quais foram os momentos que mais marcaram a transformação do concelho?

Naturalmente, o momento mais determinante foi a criação do concelho. Mas houve muitos outros desafios que moldaram a Murtosa que hoje conhecemos. O desaparecimento gradual da apanha do moliço, as transformações da Ria de Aveiro, os movimentos migratórios que levaram milhares de murtoseiros para outros países, a evolução das acessibilidades, o crescimento da Torreira e a melhoria das condições de vida da população foram momentos marcantes deste percurso. Apesar das dificuldades, a Murtosa soube sempre reinventar-se sem perder a sua identidade.

A Ria de Aveiro continua a ser a grande marca identitária da Murtosa. Que papel deve desempenhar no desenvolvimento do concelho nas próximas décadas?

A Ria de Aveiro é a nossa seiva vital. Foi caminho, fonte de sustento e elemento estruturante da nossa economia e da nossa cultura. Continua a ser um dos nossos maiores ativos e uma das nossas maiores responsabilidades. O futuro da Murtosa está profundamente ligado à preservação e valorização da ria, à defesa da sua navegabilidade, à proteção ambiental dos seus ecossistemas e à promoção de atividades ligadas ao turismo sustentável e à náutica. Não é por acaso que nos afirmamos como o Coração da Ria de Aveiro.

Fixar jovens, atrair investimento e criar emprego continuam a ser desafios para muitos territórios. Que prioridades define para a Murtosa do futuro?

O principal desafio passa por criar condições para que os jovens possam continuar a escolher a Murtosa para viver, trabalhar e constituir família. Precisamos de atrair investimento, criar emprego qualificado, aumentar a oferta de habitação e continuar a qualificar os serviços públicos. Temos igualmente de ultrapassar alguns constrangimentos que limitam o crescimento do território e reforçar a nossa capacidade de atrair novas empresas e novos residentes. A qualidade de vida que hoje oferecemos é um dos nossos maiores trunfos e queremos continuar a valorizá-la.

No seu discurso afirmou que “o mundo está cheio de pequenas Murtosas”. Que mensagem gostaria de deixar aos murtoseiros, dentro e fora do concelho, neste ano de centenário?

Quero deixar uma palavra de agradecimento a todos os murtoseiros. Aos que vivem cá, aos que um dia partiram e aos seus descendentes que continuam a manter uma ligação profunda à sua terra de origem. O mundo está, de facto, cheio de pequenas Murtosas. Vemos isso de forma muito especial nas comunidades emigrantes dos Estados Unidos, particularmente em Newark e em New Jersey. A todos eles devemos reconhecimento, porque ajudaram a projetar o nome da Murtosa muito para além das nossas fronteiras. Este centenário não pertence apenas a quem vive no concelho. Pertence a toda uma comunidade espalhada pelo mundo que continua a trazer a Murtosa no coração. E é com todos eles que queremos construir os próximos 100 anos.

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