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Depois da tempestade: proteger, recuperar e preparar

Oito meses depois da tempestade Kristin, a Marinha Grande continua a reconstruir vidas, casas e serviços. A resposta alia emergência, recuperação e preparação para futuros fenómenos extremos. Cruz Vermelha Portuguesa e a Fundação Galp estão ao lado da comunidade desde a primeira hora.

06 de novembro de 2026 às 10:08

Na Marinha Grande, oito meses depois da passagem da tempestade Kristin, ainda há vidas em suspenso devido à devastação. A recuperação continua a mobilizar famílias, autarquia e entidades. No terreno, a resposta é centrada na estabilidade, no regresso às rotinas e na proteção dos mais vulneráveis perante a perspetiva de novos episódios extremos.

Nesta região do distrito de Leiria, a tempestade Kristin deixou um rasto de violência. Uma vítima mortal, milhares de habitantes afetados, famílias desalojadas, escolas danificadas, empresas paralisadas e localidades isoladas durante dias foram a imagem do terror sentido pela população. Embora a destruição acontecesse em poucas horas, a recuperação poderá prolongar- se durante meses ou mesmo anos, com o apoio da Fundação Galp e da Cruz Vermelha Portuguesa, que estão no terreno a acompanhar a comunidade desde a primeira hora. O compromisso está escrito nas casas modulares disponibilizadas aos desalojados: “Consigo. Todos os dias”.

Danos da tempestade Kristin na mata de Leiria
Danos da tempestade Kristin na mata de Leiria FOTO: CStudio

A gravidade do problema obrigou à mobilização de respostas imediatas. A autarquia distribuiu 18.183 cabazes de bens essenciais e 7.680 senhas de material, além de garantir refeições diárias a famílias isoladas e desalojadas. Em várias localidades, a falta de eletricidade e de água potável prolongou-se por dias, motivando a criação urgente de uma nova linha subterrânea com 1,6 quilómetros.

Osvaldo Tavares, Coordenador da Resposta a Emergência da Cruz Vermelha Portuguesa
Osvaldo Tavares, Coordenador da Resposta a Emergência da Cruz Vermelha Portuguesa FOTO: CStudio

No primeiro mês após a passagem do temporal, o município recebeu cerca de dois mil pedidos de avaliação de estragos. Ao fim de oito meses, as candidaturas a apoios relacionados com danos em habitações foram superiores a 25 mil. As escolas também foram afetadas pelo temporal. Ao todo, 29 estabelecimentos de ensino do concelho sofreram danos severos e necessitaram de intervenções urgentes. No tecido económico, os números revelam a escala do abalo. Num município fortemente ligado à indústria, cerca de 90 por cento das empresas locais registaram prejuízos. No total, os estragos estimados ascendem a 143 milhões de euros.

Este é o contexto do episódio “Depois da tempestade: proteger, recuperar e preparar”, o nono da série “Humanidade em Ação”, uma iniciativa da Cruz Vermelha Portuguesa que, com empresas parceiras que, em divulgação conjunta com a Media- Livre, foram ao terreno mostrar o que está a ser feito em diversas causas sociais, deu origem a episódios exibidos nos canais CMTV e NOW.

Resposta imediata

A Galp e a sua fundação mobilizaram 6,5 milhões de euros para um projeto de apoio às vítimas da intempérie, estruturado em três momentos: resposta imediata, recuperação e preparação das comunidades para futuros fenómenos extremos. Em paralelo, a Fundação Galp e a Cruz Vermelha Portuguesa lançaram o Programa Galp | Resiliência Comunitária 2026, dotado de um milhão de euros e já em execução no terreno.

A iniciativa pretende apoiar comunidades afetadas pelas tempestades e inundações recentes em Portugal, conjugando ajuda de emergência, recuperação económica e social e reforço da capacidade de resposta local.

Sandra Aparício, diretora executiva da Fundação Galp, explica que o crescente fenómeno de intempéries exige respostas mais completas e duradouras: “Infelizmente, eventos extremos como os que vivemos repetem-se com maior frequência. A Fundação Galp sentiu esta importância de trabalharmos em conjunto para prepararmos uma resposta à emergência, que também permitisse recuperação e resiliência no futuro”.

Na Marinha Grande, a cooperação no terreno permitiu identificar famílias em maior risco e acudir aos casos mais urgentes. A emergência procurou chegar a pessoas isoladas, desalojadas ou sem capacidade para pedir ajuda pelos canais habituais. “Usámos uma perspetiva de radar social para irmos à procura de casos de pessoas que precisassem de ajuda. A Cruz Vermelha Portuguesa esteve sempre connosco”, conta Ana Laura Baridó, chefe da Divisão de Ação Social e Saúde da Câmara Municipal da Marinha Grande.

Ana Laura Baridó, chefe de Divisão da Ação Social e Saúde da Camara Municipal da Marinha Grande
Ana Laura Baridó, chefe de Divisão da Ação Social e Saúde da Camara Municipal da Marinha Grande FOTO: CStudio

Esta cooperação manteve-se depois da fase crítica. Cruz Vermelha Portuguesa e Galp “desempenham um papel importante no projeto de resiliência subsequente, que visa a capacitação da população para situações que venham a ocorrer”, como reforça a responsável.

Famílias sem casa

Por detrás dos dados estão histórias de perda, medo e sobrevivência. Joaquim Silva e Vera Roque recordam a violência da tempestade e os minutos em que perceberam que a casa já não era um lugar seguro. “Voou tudo: vigas, telhado...”, conta Joaquim Silva. Vera Roque lembra o momento em que a família teve de agir sem tempo para pensar: “O pai puxou pelo filho e só tivemos tempo de resguardar-nos no rés do chão”.

Joaquim Silva e Vera Roque, vítimas da tempestade Kristin
Joaquim Silva e Vera Roque, vítimas da tempestade Kristin FOTO: CStudio

A força do vento arrancou estruturas, deixou habitações expostas e obrigou muitas famílias a procurar abrigo. Na Marinha Grande, a tempestade deixou 1.150 famílias com necessidades sociais e de saúde identificadas, muitas das quais confrontadas com a necessidade de realojamento.

Para quem ficou sem condições mínimas em casa, a resposta passou pela instalação de casas modulares de emergência. Foram colocados 11 módulos habitacionais e dois módulos sanitários autónomos, que garantem alojamento temporário a nove agregados familiares, num total de 36 pessoas, cujas habitações ficaram inutilizadas.

As estruturas foram pensadas para assegurar mais do que um teto. Garantem privacidade, segurança, saneamento e condições dignas para as famílias desalojadas. Flávia Silva, mãe de três crianças, descreve a importância de ter uma resposta concreta depois do caos: “Como estou sozinha, o apoio da Cruz Vermelha Portuguesa com a Fundação Galp é uma ajuda valiosa, porque conseguirei proporcionar um pouco mais de tranquilidade e conforto aos meus filhos”.

Segundo explica Osvaldo Tavares, coordenador da resposta à emergência da Cruz Vermelha Portuguesa, “a primeira fase é o apoio direto às populações, com serviço pré-hospitalar, apoio psicossocial, abrigos de emergência e águas e saneamento, quando necessário”.

Apoio depois do perigo

A segunda fase do programa da Fundação Galp e da Cruz Vermelha Portuguesa é dedicada à recuperação social e económica. Ajudar as famílias a restabelecer rendimentos, assegurar as necessidades básicas e evitar que pequenos negócios encerrem definitivamente após os prejuízos são os objetivos da iniciativa. “A fase de recuperação contempla apoio monetário em espécie, apoio psicossocial e acompanhamento das famílias na recuperação do dia a dia”, explica Osvaldo Tavares.

O programa prevê acompanhamento social e psicossocial de proximidade quando a perda de bens materiais, a insegurança habitacional e as dificuldades económicas se cruzam com sofrimento emocional, ansiedade ou isolamento.

Procurar minimizar o impacto nas populações de futuros episódios de vento extremo, cheias, incêndios ou falhas prolongadas de serviços essenciais é o propósito da terceira fase do apoio das duas entidades. “Trata-se da capacitação da comunidade para eventos futuros, aumentando a resiliência a situações extremas com o menor impacto possível”, resume Osvaldo Tavares.

O Programa Galp | Resiliência Comunitária 2026 complementa este plano de ação. Prevê a instalação de microhubs comunitários móveis, equipados com energia, iluminação e comunicações. Em caso de catástrofe, estes equipamentos poderão servir como pontos de apoio à população e às equipas no terreno.

A capacitação das comunidades inclui ainda reboques ZCAP, destinados a garantir resposta rápida em operações de evacuação, e unidades móveis de comunicações por satélite. Estas soluções tornam- -se especialmente importantes quando as infraestruturas convencionais falham, como aconteceu em várias zonas da Marinha Grande após a tempestade.

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