Na Unidade W+, da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, o apoio psicológico e psicoterapêutico passa também pela prática do teatro. Pessoas vulneráveis encontram aqui várias respostas à sua medida. O projeto tem o financiamento dos Jogos Santa Casa.
10 de agosto de 2026 às 09:00Acolher é, talvez, o verbo que melhor descreve a Unidade W+, da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Aqui, a resposta à saúde mental chega a crianças, jovens e adultos através de consultas, mas também de um palco, de um cavalo ou de uma câmara fotográfica. O décimo primeiro episódio da iniciativa Boas Causas leva-nos a conhecer esta casa e as dinâmicas inovadoras que encontrou para chegar a quem mais precisa.
Em funcionamento desde 2003, “a unidade W+ tem como foco principal a intervenção psicológica e a psicoterapia para as pessoas com maior vulnerabilidade psicossocial da cidade de Lisboa”, explica Sónia Santos, diretora da unidade, apostando na prevenção de comportamentos de risco e na promoção de estilos de vida saudáveis. “O que tentamos fazer na unidade é construir uma casa.”
Essa ideia de casa não é apenas figurativa. “Para nós, saúde mental é sinónimo de ter um lugar seguro. Tentamos convidar as pessoas para que, quando chegam até nós, se sintam confortáveis, se sintam seguras e, acima de tudo, entendidas”, resume Sónia Santos.
O acesso começa por uma triagem biopsicossocial, feita por um psicólogo, uma enfermeira e uma assistente social, que avalia o grau de risco e as necessidades de cada pessoa. A partir daí, é definido um plano terapêutico individual: uma porta de entrada giratória, onde tanto cabem consultas convencionais como outros caminhos, tais como equitação terapêutica, yoga, fotografia, dança ou até um cão que serve de mediador de relações. O serviço é gratuito e, em 2019, este trabalho foi reconhecido com o Prémio de Boas Práticas em Psicologia da Ordem dos Psicólogos Portugueses.
“A forma como as convidamos a vir até cá é utilizando não só aquilo que é a psicoterapia mais tradicional, face a face, que é verdadeiramente importante”, sublinha a diretora. “No entanto, para algumas pessoas é uma linguagem que pode ser mais difícil. Portanto, utilizamos outras metodologias, como, por exemplo, o teatro terapêutico.” Assim nasceu o Grupo de Teatro Terapêutico W+, que leva jovens entre os 12 e os 24 anos com percursos de vida difíceis a lidarem com as suas fragilidades em palco. “Levamos a palco peças construídas com a emergente grupal das dificuldades destes miúdos e eles transformam- -nas e arranjam-lhes, digamos, finais felizes”, conta a diretora.
O propósito descrito no programa da própria unidade ajuda a entender o que está em jogo: promover a coesão de identidade e a integração dos vários papéis, desconstruindo e flexibilizando defesas rígidas a partir das temáticas que emergem do próprio grupo. Este trabalho já chegou a outros palcos, como o Teatro Armando Cortez e o Cinema São Jorge, no âmbito do Festival Mental, que promove o combate à estigmatização da saúde mental através da arte.
A equipa da W+ vai além da psicologia e da psicoterapia, reunindo também psiquiatria, medicina geral e familiar, enfermagem, serviço social, terapia ocupacional e atividade desportiva, o que garante, nas palavras de Sónia Santos, “uma visão muito mais completa dos nossos utentes”.
“Sempre nos acolheram muito bem, sempre estivemos aqui todos juntos, foi sempre tudo muito engraçado e muito divertido”, diz Zuzimo, com 20 anos, sobre o dia em que chegou à W+ através de um protocolo com a sua escola. A peça que ajudou a construir nasceu do grupo: “Cada um deu a sua ideia, no final chegámos todos a um consenso.” Com colegas que já conhecia, tudo fluiu com naturalidade. Matias tem 14 anos e resume o que aqui encontrou numa palavra: liberdade. “Acho que me dá um espaço para eu poder ter uma segunda vida, uma vida com menos pressões, e acho que ninguém me julga pelo que sou, pelo que sou ao longo dos dias, pelo que sou nas peças.”
Nas consultas, encontra o mesmo à-vontade: “Ajudam-me a ter um espaço seguro e a conseguir falar com alguém sem ter um julgamento por trás disso.” Mariana, de 17 anos, encontra no teatro e nas consultas duas formas complementares de lidar com o que sente. “No teatro, pelo facto de eu me abstrair de tudo o que se está a passar, ajuda-me a sair dos problemas, e a outra parte ajuda- me a resolvê-los.” A frase que usa para descrever a W+ resume os três testemunhos: “É um porto seguro e quase como uma luz ao fundo do túnel.”
A equipa fixa da W+ é composta por 15 psicólogos, duas enfermeiras, duas médicas, uma assistente social e uma terapeuta ocupacional. Juntos, sustentam uma escala de trabalho considerável. “Temos mais ou menos cerca de 18.800 consultas por ano, sendo que cerca de 12.000, 13.000 consultas são só da área da Psicologia, e depois as restantes são divididas pelas restantes áreas da Terapia Ocupacional, da Medicina, da Enfermagem e dos Animadores de Atividades Desportivas”, detalha Sónia Santos. Cada uma dessas consultas é uma pessoa, uma história, um percurso diferente rumo ao bem-estar mental.
A unidade funciona num edifício da Rua Duque de Palmela, em Lisboa, distribuído por vários pisos. Além do trabalho clínico, colabora com a Faculdade de Ciências Médicas da Universidade NOVA, recebendo estudantes de Medicina em aulas práticas que promovem competências de escuta ativa e comunicação em saúde. Integra-se, assim, numa rede mais vasta: na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa trabalham cerca de 270 psicólogos, distribuídos por cerca de 20 equipamentos diferentes, entre ação social, saúde e recursos humanos.
JOGOS SANTA CASA (2025)
870
milhões de eurosApostar na Saúde Mental: A Unidade W+ é uma das respostas de saúde financiadas pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que recebe 26,52% dos resultados dos Jogos Sociais do Estado. Em 2025, a saúde recebeu 15,7% das receitas distribuídas pelos Jogos Santa Casa, uma fatia que sustenta unidades como esta. Em 2025, os Jogos Santa Casa entregaram ao Estado 870 milhões de euros e 97,3% do valor gerado retornou à sociedade. Para o Provedor da SCML, Paulo Sousa, o alcance desta iniciativa vai além dos números: “Esta iniciativa pode impactar muito as comunidades, envolvê-las naquilo que é o fenómeno de partilha, mas também são muito relevantes em termos numéricos.” É essa verba que garante que a W+ continue gratuita, e que Zuzimo, Matias e Mariana possam continuar a encontrar o seu porto seguro.
97,3%
Boas Causas: Poucos pensam em saúde mental quando se fala em Jogos Santa Casa. E, no entanto, está presente em cada consulta de psicologia e em cada peça de teatro que mudam vidas na W+. É a essa realidade que a iniciativa Boas Causas, ao longo de 13 episódios, pretende dar visibilidade. A Unidade W+ foi o décimo primeiro destino do Correio da Manhã e da CMTV. Há mais dois por desvendar.
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