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Alcoitão: 60 anos a dar esperança de vida

Construído com as receitas do Totobola, o Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão, que celebrou 60 anos este ano, é a principal referência nacional na área da medicina física e de reabilitação, financiado pelos Jogos Santa Casa.

27 de julho de 2026 às 09:00

No concelho de Cascais, há um centro onde o ponto de partida é sempre o mais difícil. Chegam com grandes incapacidades, saem com uma vida muito próxima da autonomia. Em seis décadas, o Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão construiu um nome que ultrapassa fronteiras e o nono episódio da iniciativa Boas Causas leva-nos até lá.

O jogo que fez obra

O Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão (CMRA) tem uma origem única em Portugal. A sua construção começou em 1956, por iniciativa do provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, José Guilherme de Melo e Castro, mas foi o famoso Totobola que a tornou possível. Lançado em 1961 como o primeiro jogo de apostas desportivas do país, o Totobola gerou as receitas que financiaram a edificação do Centro de Alcoitão, o qual abriu as portas ao primeiro utente em 1966 e deu início ao percurso de uma instituição que ficaria para a história como a primeira em Portugal vocacionada para lesões medulares. Durante 40 anos, foi a única unidade do género no país.

Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão (CMRA), a celebrar 60 anos em 2026
Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão (CMRA), a celebrar 60 anos em 2026 FOTO: CStudio

Detido pela Santa Casa desde a sua origem, o CMRA viveu um interregno sob administração direta do Estado, regressando à Misericórdia de Lisboa em 1991, onde é uma das suas joias da coroa. Rodrigo Ramos, enfermeiro diretor do CMRA, sublinha a continuidade desta união: a Santa Casa e o CMRA partilham “esta ligação àquilo que é a missão da Santa Casa, que é dedicar-nos àqueles que, por alguma razão, estão mais vulneráveis, têm uma vida mais difícil e mais desfavorecida.”

Reabilitação para quem mais precisa Integrado num centro hospitalar que abrange também o Hospital Ortopédico de Santa Ana, cuidados de saúde primários e unidades de cuidados continuados integrados, o CMRA é uma unidade dedicada e especializada na reabilitação que, nas palavras de Rodrigo Ramos, complementa “todo este percurso e ciclo de vida das pessoas que servimos”. No cerne da sua ação estão as pessoas com incapacidade física, motora ou multideficiência, de origem congénita ou adquirida.

Como atesta o enfermeiro diretor, “está dedicado à reabilitação principalmente do grande incapacitado, das pessoas que ao longo do seu ciclo de vida, desde a nascença até à morte, possam ter tido uma circunstância que gerou uma grande incapacidade.”

A atividade assenta num modelo multidisciplinar altamente especializado, com 523 profissionais de saúde a trabalhar em planos terapêuticos individualizados, orientados para ganhos funcionais sustentáveis e promoção da autonomia.

A intervenção organiza-se em três níveis: o internamento, com 150 camas, para reabilitação intensiva diária ou várias vezes por semana; o ambulatório, para quem pode tratar-se com menos deslocações; e, por último, as unidades habitacionais de autonomização, que são “uma transição gradual” para quem já readquiriu competências para a vida independente, como descreve Rodrigo Ramos.

Treino dentro de água na piscina de Alcoitão
Treino dentro de água na piscina de Alcoitão FOTO: CStudio

No decorrer dos anos, a missão do CMRA foi-se alargando: às lesões vertebromedulares juntaram-se as sequelas de doenças neurológicas, como o AVC, acompanhando pessoas em qualquer momento da vida. O exoesqueleto para recuperação da marcha e treinos dentro de água completam uma oferta que o tornou um destino de investigação clínica de referência mundial.

A caminho da autonomia

Todos os anos, chegam pessoas a Alcoitão vindas de todo o país. O utente José Luís Valente vem de Beja encontrou no Centro uma segunda oportunidade. “Eu já tinha uma prótese interna, devido a um cancro que tive quando era miúdo. Essa prótese infetou e então pedi mesmo para fazer a amputação para voltar à minha vida, porque com aquela bactéria a dar cabo de mim não havia maneira de ter uma vida normal. Logo a partir daí falaram-me do centro em Alcoitão, que seria o melhor para eu fazer a minha recuperação”, conta.

José Luis Valente utente reaprendeu a caminhar com uma prótese e com o apoio dado em Alcoitão
José Luis Valente utente reaprendeu a caminhar com uma prótese e com o apoio dado em Alcoitão FOTO: CStudio

Hoje, os resultados confirmam a escolha. “As coisas têm ocorrido bem, tenho a minha prótese, estou-me a adaptar, temos sempre um acompanhamento a todos os níveis, desde os psicólogos, desde as terapias ocupacionais, desde a fisioterapia. Já depois das nossas terapias há mais atividades que nos permitem evoluir noutras áreas e fazer mais qualquer coisa, do que simplesmente estar aqui à espera do próximo dia. Tudo o que tinha para fazer foi aconselhado aqui pelo centro.”

O que distingue Alcoitão, para José Luís, vai além da competência técnica, porque “todo o seguimento feito pelo pessoal do centro é fantástico.”

Formar para cuidar

Além de tratar os utentes, o CMRA forma os profissionais que cuidam deles. Pioneiro em Portugal na formação de terapeutas ocupacionais, terapeutas da fala, fisioterapeutas, enfermeiros de reabilitação e ortoprotesistas, deu origem à Escola Superior de Saúde do Alcoitão, fundada também em 1966. “Formamos em Portugal os primeiros profissionais nestas áreas”, refere Rodrigo Ramos, e os seus diplomados trabalham hoje em hospitais, clínicas e centros de reabilitação por todo o país.

A escola é a única em Portugal a garantir o reconhecimento internacional aos seus licenciados em Terapia Ocupacional e a investigação científica completa esta identidade, com ligações a redes europeias de ensino e investigação.

O CMRA tem ao dispor bicicletas para reabilitação motora
O CMRA tem ao dispor bicicletas para reabilitação motora FOTO: CStudio

60 anos ao serviço

A ligação entre os jogos e o Centro de Alcoitão está na sua fundação. Em 1961, as primeiras apostas do Totobola ajudaram a construir um centro que não existia e, seis décadas depois, são os Jogos Santa Casa que continuam a financiar a missão da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

À SCML cabe 26,52% dos resultados dos Jogos Sociais do Estado, sendo a saúde uma das principais áreas de destino dessas verbas, com 15,7% das receitas canalizadas para este setor.

Uma parte dessa verba chegou a Alcoitão, chegou aos 523 profissionais que, todos os dias, ajudam quem vem com uma grande incapacidade a encontrar o caminho para a autonomia.

Em 2025, os Jogos Santa Casa entregaram ao Estado 870 milhões de euros e 97,3% do valor gerado retornou à sociedade.

“Celebrar este aniversário é também homenagear pessoas. Pessoas que cuidam, que investigam, que ensinam e que diariamente transformam desafios em oportunidades”, afirmou o Provedor da SCML, Paulo Sousa, nas comemorações do 60.º aniversário de Alcoitão.

ALCOITÃO EM NÚMEROS

Dados sobre o CMRA:

Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão

- Inaugurado em 20 de abril de 1966, regressou à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa em 1991 - Referência nacional e internacional na medicina física e de reabilitação - 150 camas de internamento - 523 profissionais de saúde - Primeiro centro de lesões medulares em Portugal

Receitas

Jogos Santa Casa (2025)

- 870 milhões de euros entregues ao Estado - 97,3% do valor gerado retornou à sociedade - 26,52% dos resultados destinados à SCML - 15,7% das receitas canalizadas para a saúde - Mais de 5.200 pontos de venda em todo o país - M ais de 20.000 postos diretos e indiretos de trabalho na rede de mediadores

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