O comprador português está a redefinir o conceito de localização.
09 de junho de 2026 às 10:40Durante décadas, viver perto do centro da cidade foi encarado como um objetivo quase absoluto. "Hoje, o mercado mostra uma mudança clara de prioridades: as famílias continuam a valorizar a proximidade aos grandes centros urbanos, mas passaram a procurar sobretudo equilíbrio entre espaço, conforto, mobilidade e qualidade de vida", diz Júlio Quintela, COO da Zome.
Os dados oficiais mostram bem essa pressão. Em Portugal, os preços da habitação subiram 11,6% em 2024 e aceleraram para 16,3% no primeiro trimestre de 2025 em termos homólogos. No arrendamento, a renda mediana dos novos contratos também aumentou 10% em 2024, refletindo uma pressão crescente sobre o acesso à habitação nas principais áreas metropolitanas.
Esta realidade está a acelerar um movimento cada vez mais visível: a deslocação da procura para zonas periféricas e novas centralidades urbanas.
Concelhos como Amadora, Odivelas, Loures, Montijo, Maia, Valongo, Gondomar ou Santa Maria da Feira estão a ganhar protagonismo no mercado residencial português, impulsionados pela combinação entre acessibilidade, qualidade habitacional e ligação eficiente aos principais centros económicos.
De acordo com Júlio Quintela: "Na Área Metropolitana do Porto, por exemplo, Valongo consolidou-se como um dos polos residenciais com maior dinamismo, muito suportado pela proximidade ferroviária ao Porto e pela possibilidade de acesso a habitação mais espaçosa e financeiramente mais equilibrada. Em Lisboa, a Margem Sul continua a afirmar-se como uma alternativa cada vez mais procurada por famílias que privilegiam espaço e estabilidade financeira sem perder ligação à capital".
Mas esta mudança não é apenas geográfica. É também comportamental.
Os dados internos da Zome mostram que os apartamentos continuam a representar cerca de 67% das transações realizadas, mas as moradias já representam aproximadamente 22% do mercado, um peso cada vez mais relevante num país historicamente dominado por apartamentos urbanos.
Ao nível das tipologias, os T2 e T3 representam mais de 60% da procura total, refletindo a forte predominância de famílias que procuram habitações adaptadas a projetos de vida de médio e longo prazo.
Depois da pandemia e da consolidação do trabalho híbrido, o conceito de casa mudou profundamente. O espaço exterior deixou de ser um detalhe. O escritório passou a ser uma necessidade. A eficiência energética, o isolamento acústico e a funcionalidade dos espaços ganharam um peso muito superior na decisão de compra.
Hoje, muitas famílias preferem viver a 30 ou 40 minutos do centro urbano se isso lhes permitir ganhar uma divisão extra, um jardim, uma varanda ou simplesmente melhores condições para viver o dia a dia.
Existe também uma mudança relevante no tipo de cedências que os compradores estão dispostos a fazer.
Historicamente, quando o orçamento apertava, a prioridade era manter a localização, mesmo que isso implicasse reduzir significativamente a área da habitação. Hoje acontece precisamente o contrário: os compradores recusam abdicar do espaço e demonstram maior disponibilidade para viver mais longe, assumir obras de remodelação ou aumentar o tempo de deslocação diária para garantir melhores condições habitacionais.
No terreno, esta realidade é evidente.
A Zome acompanhou recentemente o caso de uma família da região de Lisboa que trocou um apartamento T2 antigo na capital por uma moradia T3 na Margem Sul. O tempo de deslocação aumentou, mas a família ganhou espaço exterior, escritório e maior equilíbrio financeiro.
No Norte do país, observa-se um movimento semelhante. Famílias que antes procuravam exclusivamente Porto cidade estão hoje mais disponíveis para considerar concelhos como Valongo, Maia, Paredes ou Santa Maria da Feira, onde conseguem adquirir imóveis mais recentes, maiores e mais adequados às necessidades familiares.
O mercado está, no fundo, a entrar numa nova fase.
As pessoas continuam ligadas às grandes cidades. Continuam a trabalhar nelas, a depender delas economicamente e a valorizá-las como centros de oportunidade. Mas já não aceitam viver de qualquer forma apenas para estar perto do centro.
"O comprador português está hoje mais racional, mais exigente e muito mais consciente do impacto que a habitação tem na sua qualidade de vida", conclui Júlio Quintela.
Este conteúdo foi escrito integralmente por Zome.