Os mitos sobre o VIH são o principal inimigo de um rastreio e tratamento precoce e eficaz. A campanha “Ter VIH não é ser VIH” pretende alertar para uma doença controlável.
09 de fevereiro de 2022 às 17:20“A maioria das pessoas sabe o que é a infeção por VIH, como se transmite e até como se evita, mas persiste ainda alguma desinformação sobre aspetos relacionados com o risco efetivo de cada um e sobre aspetos relacionados com a evolução natural da doença, os tratamentos atualmente disponíveis e o seu impacto na vida destes doentes.” A afirmação é de Hélder Pinheiro, médico especialista que integrou a campanha “Ter VIH não é ser VIH", desenvolvida pela MSD Portugal. O objetivo principal da campanha é precisamente desmistificar a infeção, quer nos riscos, quer no diagnóstico e tratamento. A falta de informação leva à conceção errada de que esta é uma infeção exclusivamente de alguns grupos de risco, como homens que têm sexo com homens ou utilizadores de drogas endovenosas - e a vulgarizada partilha de agulhas. Segundo o especialista, 24% dos diagnósticos no nosso país são de homens, heterossexuais, com mais de 50 anos. O estigma e a falta de informação fazem com que, muitas vezes, o diagnóstico possa ser tardio e numa fase já mais avançada da patologia.
• Risco muito baixo: exposição de pele intacta a sangue ou outro fluido infetante.
Ao contrário do que muitos pensam, todas as pessoas correm algum risco de infeção. Para o Dr. Hélder Pinheiro, “basta que em algum momento adotemos um comportamento considerado de risco”. O especialista destaca que o risco é tanto maior quanto mais repetido seja o comportamento, nomeadamente o número de relações e parceiros sexuais sem proteção, bem como a partilha de seringas e agulhas no consumo de drogas.
O especialista esclarece ainda que no nosso país, graças aos cuidados de saúde e à vigilância, “é extremamente improvável” que haja transmissão através de transfusões sanguíneas, bem como de mãe para filho - na gestação.
A história do Fernando é a história de muitos doentes com VIH: com 52 anos e uma vida estável, nunca pensou que uma relação desprotegida pudesse significar um diagnóstico positivo.
Por não estar consciente do risco, o resultado foi surpreendente, mas o testemunho de Fernando é de coragem: agora, que está já a ser devidamente acompanhado, o vírus não o define, não o condiciona, e a sua vida é igual a qualquer outra pessoa.
A campanha Ter VIH não é ser VIH traz-nos testemunhos de força e superação, da importância de um diagnóstico e de terapêutica, mas leva-nos também a perceber, de forma clara, que a informação e a aceitação são passos importantes tanto para os doentes como para toda a população. Em vídeos emotivos, onde os testemunhos de doentes se cruzam com a opinião imprescindível de especialistas, percebemos a necessidade de normalização, mas também a necessidade de se ir mais além. Os testemunhos reais, do Fernando e de outros entrevistados, são interpretados por atores: porque o estigma de se ser diagnosticado é ainda grande, não é possível ver os rostos reais das histórias que os vivem.
A fórmula é clara: com a terapêutica e o acompanhamento certos, o VIH torna-se indetetável na corrente sanguínea, uma vez que suprimem a multiplicação do vírus no corpo. Isto significa que um doente com VIH consegue viver livre da doença, se cumprir com a medicação, como nos explica o especialista Hélder Pinheiro. E prossegue: as evidências científicas mais recentes mostram inequivocamente que um doente que esteja consistentemente indetetável também não transmite a infeção a outros. Esta fórmula torna-se então relevante não apenas para quem vive com VIH, mas também para quem se relaciona com as pessoas, uma vez que deixam de correr o risco de transmissão.
Este é um avanço significativo na forma de transmissão da doença, ainda que não haja, para já, uma cura. O vírus não é, de forma definitiva, eliminado do organismo.
“A iliteracia em saúde é um problema muito grave em Portugal. A noção de que o VIH é um assunto que pode tocar qualquer um de nós pode ajudar”
Hélder Pinheiro, médico especialista
O médico especialista prossegue na importância da informação e na adesão à terapêutica, confirmando que são dois pilares basilares para que os infetados por VIH possam levar uma vida normal. Hélder Pinheiro afirma que “nos países desenvolvidos a esperança de vida de uma pessoa com VIH é sobreponível à da população geral. Com os cuidados de saúde adequados, não é de todo uma sentença de morte.” O especialista defende a normalização da vida, a nível pessoal e profissional, e afirma que “nem sequer é uma condição que deva pôr em causa os projetos profissionais e pessoais de cada um, como por exemplo a paternidade ou a maternidade”.
Para isto, é imperativo que as comunicações sobre a doença, quer pelos canais de saúde, meios de comunicação, ou mesmo de pessoas infetadas com os seus círculos, sejam comunicações informadas, que não deixem margem para reações ou medos desajustados. O especialista vai mais longe e alerta para o impacto psicológico que as doenças crónicas, nomeadamente o VIH, causam nos doentes, criando ansiedade, depressão, medo de não aceitação e rejeição social, sentimento de culpa, autorrejeição. Com o apoio das várias estruturas, combate-se também o impacto psicológico da doença.
“Se alguém nos transmitir a informação que tem VIH, é também fundamental permitir que este expresse as suas emoções e identifique os seus receios e, se não souber como lidar com essa informação, é importante saber que existem vários locais onde pode procurar ajuda”
Hélder Pinheiro, médico especialista
PT-NON-01518 01/2022