Num País onde a biodiversidade convive lado a lado com a produção florestal, a ciência mostra que o eucalipto, quando bem gerido, pode ser um aliado na proteção dos ecossistemas, na mitigação das alterações climáticas e na conservação de espécies raras.
07 de maio de 2026 às 12:15Durante décadas, a ideia de que as plantações de eucalipto eram “desertos verdes” marcou o imaginário coletivo. Mas a investigação científica e o trabalho de campo revelam uma realidade bem diferente. Para Paula Guimarães, diretora de Sustentabilidade da The Navigator Company, tudo começa na gestão: “O facto de termos um negócio integrado, cujo início da cadeia de valor começa na floresta, faz com que abordar a sustentabilidade passe necessariamente por abordar o modelo de gestão sustentável dessa floresta, que é daí que vem a nossa matéria-prima.”
Esse modelo começa com a leitura da paisagem. “Nós temos um modelo de gestão florestal que se baseia numa avaliação prévia de condicionantes, primeiro à escala da paisagem e depois à escala local. Temos uma matriz de avaliação de impactos ambientais e socioculturais. Em cada local em que atuamos, antes das operações potencialmente mais impactantes, fazemos esta avaliação para definir as medidas mitigadoras que integramos nas nossas práticas de gestão”, explica.
Os resultados falam por si: uma floresta plantada, quando certificada e monitorizada, torna-se um mosaico funcional. Corredores ecológicos, zonas de conservação, áreas de refúgio e habitats complementares permitem que fauna e flora se estabeleçam, se adaptem e prosperem, desmontando a ideia de paisagens homogéneas e sem vida.
João Ezequiel, curador da Quinta de São Francisco, desmonta outro mito frequente: “As monoculturas, de uma forma geral, são menos biodiversas do que florestas naturais. Mas é redutor vermos as monoculturas apenas como áreas só de monocultura. Elas não estão sozinhas, têm outras áreas associadas.”
Queremos uma floresta que gere valor no presente e preserve o futuro
Diretora de Sustentabilidade da The Navigator Company
A Navigator gere, em Portugal Continental, 108 mil hectares de floresta, pelo FSC® (FSC®–C010852) e pelo PEFC (PEFC/13-23-001). Nestes territórios, coexistem áreas de produção, matos autóctones, galerias ripícolas, pinhais, montados, clareiras naturais e zonas exclusivas de conservação. Essa diversidade traduz-se em números expressivos: “Temos 51 habitats naturais (…) mais de 1.183 espécies de flora e 268 espécies de fauna”, sublinha João Ezequiel.
Entre elas estão espécies protegidas e raras. “Destacaria a águia-de-bonelli, que chega a escolher o eucalipto como local para nidificar. E outra espécie que eu escolheria seria o carvalho-de-monchique, provavelmente o lince da floresta portuguesa. Temos um programa de recuperação desta espécie nos nossos viveiros.”
A gestão da paisagem, da manutenção de matos nativos à preservação de linhas de água e descontinuidade entre talhões, cria refúgios e alimento para aves, insetos, anfíbios e pequenos mamíferos. Em várias propriedades, os levantamentos de biodiversidade revelam mais espécies do que em áreas consideradas “naturais”, mas sem gestão ativa.
Além de apoiar a biodiversidade, a floresta de eucalipto desempenha um papel crescente na mitigação das alterações climáticas. De rápido crescimento, funciona como uma “biofábrica” eficiente na captura de carbono, estabilização de solos e proteção dos recursos hídricos, desde que gerida de forma adequada.
Daniela Ferreira, coordenadora de Investigação e Desenvolvimento florestal no RAIZ, reforça o que a ciência demonstra: “Mais do que a espécie, a gestão florestal assume um papel preponderante. É muito importante a forma como uma plantação é instalada, como é mantida e como é explorada.” E acrescenta que “as ferramentas de gestão florestal permitem-nos fazer perdurar essa gestão e melhorar os ecossistemas a longo prazo. Queremos que, passados 50 ou 100 anos, possamos ter um ecossistema mantido ou até melhorado, em termos de solo, água e biodiversidade”.
Nos territórios geridos pela Navigator, a prevenção de incêndios é central: faixas de gestão de combustíveis, limpezas regulares, equipas especializadas, drones, sensores e formação contínua para produtores. O controlo de espécies invasoras, a monitorização de pragas e o uso inteligente da água reforçam este modelo, hoje visto como referência no setor.
A investigação é decisiva para esta evolução. “No RAIZ, desenvolvemos investigação e temos como um dos pilares principais a transferência de conhecimento para terceiros. É uma oportunidade de equilibrarmos a vertente económica com a preservação do meio ambiente”, resume Daniela Ferreira.
A combinação de ciência, gestão ativa e conservação mostra que o eucalipto é parte da solução para os desafios ambientais atuais. A floresta de produção reduz a pressão sobre ecossistemas naturais, garante matéria-prima renovável e cria oportunidades económicas para comunidades e produtores.
Para Paula Guimarães, esta visão integrada é essencial: “Pensamos a sustentabilidade para além do conceito tradicional da silvicultura. Queremos uma floresta que gere valor no presente e preserve o futuro. Implementamos práticas de envolvimento dos nossos stakeholders locais (…), temos comissões de acompanhamento e um fórum de sustentabilidade no qual capturamos preocupações, expectativas e conhecimento, e partilhamos aquilo que fazemos.”
O resultado é uma floresta mais diversa, mais protegida e mais alinhada com as exigências climáticas do século XXI, e um setor que contribui ativamente para a descarbonização e a economia circular.
Num mundo confrontado com enormes desafios ambientais, o eucalipto mostra que o futuro da floresta não depende apenas da espécie, mas de como é planeada, cuidada e integrada no território. Tantas vezes visto como um vilão, afirma-se como aquilo que a ciência comprova: um aliado do futuro.