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PME têm de pensar no fim do mês... e no futuro

Especialistas defendem que as pequenas empresas devem olhar para a sustentabilidade como uma forma de reduzir riscos, ganhar competitividade e preparar o futuro.

22 de junho de 2026 às 10:32

Quando uma pequena empresa abre as portas de manhã, as preocupações dos seus gestores raramente passam pelas metas climáticas de 2050 ou pelos relatórios de sustentabilidade exigidos pelos governos. As prioridades normalmente passam por pagar salários, garantir encomendas, controlar custos e manter clientes. Mas é precisamente nesta realidade do dia a dia das PME que a sustentabilidade está a ganhar importância. Não como um conceito abstrato ou uma obrigação burocrática, mas como uma estratégia para tornar os negócios mais resistentes, mais eficientes e mais preparados para o futuro. Esta foi uma das principais mensagens deixadas por Gonçalo Salazar Leite, gestor, empresário e professor convidado da Católica Lisbon SBE, e por Joana Pina Pereira, administradora da Generali Tranquilidade. Os dois responsáveis foram os convidados do primeiro videocast organizado pela Sábado e pelo Correio da Manhã no âmbito do SME EnterPRIZE – Prémio Europeu de Sustentabilidade para PME, uma iniciativa da Generali Tranquilidade.

Mais do que ambiente, competitividade

Ao longo da conversa, moderada por João Maia Abreu, os dois gestores procuraram desmontar uma ideia ainda muito presente no tecido empresarial: a de que a sustentabilidade é sobretudo uma questão ambiental. Para Gonçalo Salazar Leite, essa visão é demasiado limitada: “Temos tido muito uso e abuso da palavra sustentabilidade, e uma associação excessiva do conceito a gases com efeito de estufa, a relatórios e ao cumprimento de normas. Mas sustentabilidade é muito mais do que isso. É trazer fatores de competitividade, de capacidade de adaptação futura, e de mitigação de risco, para dentro das empresas”, afirma.

Na prática, explica o gestor, uma empresa sustentável é uma empresa que conseguirá responder melhor às mudanças do mercado, às crises económicas, à evolução tecnológica ou às exigências dos consumidores. Por isso, considera que o tema deve ser encarado como uma oportunidade e não como um custo. Na verdade, “sustentabilidade é competitividade”, afirma.

Temos tido muito uso e abuso da palavra sustentabilidade    
Gonçalo Salazar Leite

Gestor, empresário e professor convidado da Católica Lisbon SBE

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PME entre o fim do mês e o futuro

Pelo seu lado, Joana Pina Pereira recordou que as PME, que representam a esmagadora maioria das empresas portuguesas, e europeias, enfrentam diariamente desafios muito concretos e necessidades muito prementes. “Muitas vivem numa lógica de sobrevivência”, observou a responsável da Generali Tranquilidade. Ainda assim, considera, as empresas não se podem limitar a resolver os problemas imediatos. Para Joana Pina Pereira, a sustentabilidade está diretamente ligada à capacidade de antecipação, prevenção e adaptação. Uma empresa que se preparou para responder a uma crise energética, a um fenómeno climático extremo ou a uma revolução tecnológica será sempre mais resiliente e terá sempre mais armas para se proteger. “A sustentabilidade só faz sentido quando inclui esta capacidade de adaptação e de preparação para o futuro”, explicou, o que passa por antecipar os desafios e implementar ações de proteção – um exemplo, são os seguros, que permitem proteger os negócios, as pessoas, a propriedade e, deste modo, a atividade económica das empresas.

Sustentabilidade é também prevenção

Nesta linha, outro dos temas centrais da conversa foi a ligação entre sustentabilidade e gestão do risco. Gonçalo Salazar Leite defendeu que ambas caminham lado a lado. “Ganhar sustentabilidade, nas suas várias dimensões, é a melhor forma de prevenção e preparação do futuro”, afirmou. Segundo o especialista, quanto melhor uma empresa antecipar os riscos, mais capacitada estará para enfrentar situações inesperadas num contexto cada vez mais volátil e exigente. O gestor considera que esta lógica se aplica a praticamente todas as áreas de um negócio, desde a utilização eficiente dos recursos até à preparação para novas exigências regulamentares ou para as alterações do mercado.

Inteligência artificial traz oportunidades e desafios

A inteligência artificial foi outro dos temas em destaque. Joana Pina Pereira mostrou-se otimista em relação ao impacto da tecnologia: “Sou uma fã incondicional do progresso tecnológico.” No entanto, e embora a gestora reconheça que algumas funções poderão desaparecer, também acredita que surgirão muitas novas oportunidades. “Vai haver um período de adaptação, mas também uma enorme capacidade de reinvenção”, afirma.

Por sua vez, Gonçalo Salazar Leite revelou maior prudência: “Não nos podemos sentir assim tão confortáveis com o que se está a passar porque é muito difícil antecipar quais as consequências e o seu alcance”, admitiu. Ainda assim, acredita que o principal desafio não será a destruição líquida de empregos, mas que a sociedade consiga ganhar em tempo útil capacidade para preparar as pessoas para novas funções e novas vivências.

Menos burocracia, mais ação

Um ponto em que os dois responsáveis estiveram plenamente de acordo foi em apontar a crescente complexidade regulatória como um problema no caminho das PME para a sustentabilidade. Para Gonçalo Salazar Leite, existe o risco de transformar a sustentabilidade em apenas mais um exercício burocrático. “É difícil cumprir com tudo o que é exigido em termos de informação, reporte e sistemas”, alertou. Na sua opinião, estaremos noutro patamar quando a sustentabilidade deixar de ser tratada como um tema separado da gestão empresarial. “O futuro ideal da sustentabilidade será o seu desaparecimento, porque estará já integrada naturalmente na forma como as empresas trabalham”, afirmou o responsável.

                 A sustentabilidade está diretamente ligada à capacidade de adaptação
Joana Pina Pereira

Administradora da Generali Tranquilidade

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Preparar hoje o negócio de amanhã

Apesar dos desafios, a mensagem final saída desta conversa foi de confiança. Os dois intervenientes destacaram a capacidade de adaptação dos empresários portugueses e defenderam que a sustentabilidade deve ser vista como uma estratégia para as empresas crescerem, inovarem e reduzirem riscos. Porque, como resumiu Gonçalo Salazar Leite, “se uma pequena empresa tem de se preocupar com o fim do mundo, também tem de se preocupar com o fim do mês”. O desafio está precisamente em conseguir fazer as duas coisas ao mesmo tempo, crescendo e inovando.

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