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Sustentabilidade é teste de competitividade para as PME portuguesas

PME nacionais estão mais conscientes da necessidade de serem sustentáveis, mas continuam expostas a riscos. O aviso marcou o encontro dos Heróis da Sustentabilidade.

28 de junho de 2026 às 12:09

Num dia em que muitos portugueses já estavam com a atenção voltada para o jogo da Seleção Nacional dessa noite, na Universidade de Aveiro reuniram-se outros “heróis”. Estes não vestem camisolas nem entram em campo, mas partilham uma missão comum: tornar as suas empresas mais sustentáveis e preparadas para os desafios do futuro.

Este encontro juntou os vencedores das quatro edições do S, para uma manhã de debate e apresentações, e que ficou marcada por um aviso repetido por todos os intervenientes: a sustentabilidade está a deixar de ser uma escolha e está a passar a ser uma condição para competir.

Na abertura do evento, Nuno Megre, responsável pela Sustentabilidade na Generali Tranquilidade, sublinhou que esta iniciativa pretende ir muito além do reconhecimento público das empresas distinguidas: “Queremos muito dar reconhecimento às PME que já têm práticas de sustentabilidade consolidadas, mas sobretudo para trazer para a sustentabilidade outras PME que não estão tão avançadas neste caminho”, afirmou. Porque, mais do que reconhecer e dar visibilidade, o SME EnterPRIZE – Prémio Europeu de Sustentabilidade para PME “quer estimular o interesse e o debate sobre estas matérias”.

Na sua intervenção, o responsável destacou os resultados do estudo realizado neste âmbito pela Universidade Bocconi e que incidiu sobre mais de 1.100 PME em 11 países europeus. Segundo o estudo, 41% das PME europeias já possuem um plano de sustentabilidade, valor que sobe para 49% em Portugal. “As nossas PME estão um bocadinho à frente da média europeia”, referiu Nuno Megre. O mesmo estudo revelou que as empresas reconhecem a sustentabilidade como fator de eficiênca, gestão de risco e acesso ao financiamento, mas revelou igualmente uma fragilidade importante: apesar de 70% das PME admitirem estar expostas a riscos climáticos, apenas 35% têm cobertura para eventos catastróficos. Ou seja: “Há aqui aquilo a que chamamos um protection gap, uma lacuna de proteção.”

Queremos (…) sobretudo trazer para a sustentabilidade outras PME que não estão tão avançadas neste caminho.
Nuno Megre

Responsável pela Sustentabilidade na Generali Tranquilidade

Uma iniciativa que é um sucesso

Neste evento, coube a Norma Franco, da EY Portugal, knowledge partner da iniciativa, fazer o balanço de quatro edições do prémio. Para a responsável, a palavra que melhor define esta jornada é “sucesso”. Segundo a consultora, nos últimos quatro anos foram recebidas “mais de 1.900 candidaturas”. “É de facto uma adesão extraordinária quando sabemos das dificuldades e problemas que existem no ecossistema das PME nacionais”, sublinhou.

Neste contexto, e embora a maioria dos projetos apresentados continue centrada na dimensão ambiental, está a crescer o número de iniciativas que combinam preocupações ambientais e sociais. No entanto, para a responsável, mais importante do que os números é a transformação que estes projetos revelam. “Falar de sustentabilidade dentro das organizações é cada vez mais falar de criação de valor e resiliência do negócio. Traduzindo por uma única palavra, é falar de competitividade”, concluiu a responsável da EY Portugal.

Sustentabilidade é negócio

Todavia, a intervenção mais marcante da manhã coube a Alberto Castro, economista e professor da Católica Porto Business School, que desmontou a ideia de que a sustentabilidade é apenas uma obrigação. Para o economista, “a sustentabilidade é uma questão de negócio. Não é uma conversa lírica. É uma conversa que se pode traduzir em números”, garantiu.

O professor universitário recordou que os custos das alterações climáticas já se sentem nas empresas, através de danos, paragens, seguros, perdas de produtividade e pressão sobre margens. Para Alberto Castro, num contexto de alterações climáticas, eventos extremos, aperto regulamentar e transformação dos mercados, o maior risco é adiar decisões. “Muitas empresas têm a tentação de procrastinar sobre estes temas. O problema é que o mercado vai tratar do assunto. E quando o mercado trata do assunto, trata de uma forma bruta”, avisou.

Sustentabilidade no centro

Na sua visão, a sustentabilidade deve passar para o centro da estratégia das PME. Para Alberto Castro “a sustentabilidade não é um nice to have. É preciso torná-la num projeto central”. Neste contexto, o académico reconheceu que a transição exige investimento e competências e recusou ilusões: “Não vale a pena contar histórias de fadas. Isto dá trabalho.” Ainda assim, defendeu que os benefícios compensam e a sustentabilidade gera redução de custos, melhor acesso a financiamento, talento e novos mercados, e maior resiliência.

As três intervenções que abriram caminho às apresentações dos vencedores desta edição do SME EnterPRIZE convergiram numa ideia central: a sustentabilidade está a tornar-se determinante para a competitividade. Se as PME portuguesas já estão acima da média europeia na adoção de planos de sustentabilidade, continuam desprotegidas face aos riscos climáticos. E se a adesão crescente a esta iniciativa da Generali Tranquilidade, em parceria com o Correio da Manhã, a Sábado e a EY, mostra que muitas PME estão a receber a mensagem, para as restantes ficou um aviso: quem esperar demasiado poderá esperar perder clientes, competitividade e capacidade de crescimento.

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Norma Franco, partner da EY Portugal FOTO: DR

A aposta que deu frutos

A Get2C, o Projeto TREVO e a Periplus. Estas são as empresas e projetos que se destacaram este ano na edição do SME EnterPRIZE – Prémio Europeu de Sustentabilidade para PME, promovido pela Generali Tranquilidade. Vamos conhecer um pouco melhor cada um deste projetos e produtos.

Viagem pelo Clima

Viajar pelo país de forma sustentável, a medir o impacto ambiental das escolhas no dia a dia, e a mobilizar comunidades para a ação climática. Foi desta ideia que nasceu a Viagem pelo Clima, o projeto da consultora de sustentabilidade Get2C que venceu a quarta edição do SME EnterPRIZE, pela sua abordagem inovadora à sensibilização ambiental.

Apresentado neste evento por Maria João Ramos, people partner da Get2C, o projeto integra o movimento Cooler World, criado pela empresa para promover a neutralidade carbónica e aproximar cidadãos, empresas e municípios dos desafios da sustentabilidade. Conforme explicou a consultora: “Acreditamos que a ação climática coletiva é fundamental, mas a ação climática individual também é.”

A Viagem pelo Clima assume a forma de uma competição entre três equipas que, durante 12 dias, percorrem vários municípios parceiros da iniciativa, procurando realizar a viagem da forma mais sustentável possível. O desempenho é avaliado através de uma “moeda clima”, que tem em conta as emissões de CO2, o consumo de água, o tempo, os custos e o impacto social. Porém, a Viagem pelo Clima vai além da competição entre as equipas. Ao longo do percurso estas pessoas desenvolvem ações com as comunidades locais, visitam pequenos negócios sustentáveis e identificam os chamados “heróis do clima”. Segundo Maria João Ramos, “estas são pessoas anónimas que normalmente não têm palco, mas que são responsáveis por projetos baseados na sustentabilidade, nas suas comunidades”.

Ao longo da Viagem pelo Clima são utilizadas ferramentas desenvolvidas pela Get2C que permitem a empresas e cidadãos calcular a sua pegada carbónica, aproximando a sustentabilidade do dia a dia das pessoas. A equipa vencedora ganha ainda a oportunidade de participar na Conferência das Nações Unidas para as Alterações Climáticas (COP), na qual apresenta o projeto e conhece de perto o funcionamento daquele que é o principal encontro mundial dedicado à ação climática.

Para Maria João Ramos, o objetivo final da viagem é garantir que a sustentabilidade sai da teoria e passa à prática. Ou seja: “O objetivo é que possamos ter mais viagens pelo clima e mais projetos de ação.”

Projeto TREVO

Como transformar décadas de experiência na agricultura numa oportunidade para pessoas mais vulneráveis? Foi esse o desafio que inspirou o Projeto TREVO – Tratar, Revitalizar, Empoderar e Viver Origens, do Centro Social Vale do Homem, distinguido no SME EnterPRIZE.

Desenvolvido em Vila Verde, no Minho, o projeto junta idosos, pessoas com deficiência e outros públicos vulneráveis em atividades ligadas à agricultura sustentável e à valorização do mundo rural. A iniciativa aproveita os conhecimentos dos seniores, muitos deles com uma vida inteira dedicada à agricultura, para transmitir competências a quem procura novas oportunidades de integração. Segundo Marta Soares, gestora de projetos da instituição, os seniores do projeto TREVO “têm o saber da prática e paciência da experiência”, explicou.

O objetivo passa por preservar conhecimentos tradicionais, promover a inclusão social e capacitar pessoas com deficiência para uma participação mais ativa na comunidade, mostrando que a sustentabilidade não se faz apenas de preocupações ambientais, mas também de oportunidades para as pessoas.

Periplus

Uma fuga de água escondida pode significar o desperdício de milhares de litros, contas muito elevadas e obras inesperadas. Foi para evitar esse cenário que nasceu a Periplus, empresa distinguida com uma menção honrosa no SME EnterPRIZE. Especializada na deteção de roturas e fugas de água, a empresa utiliza tecnologias que permitem localizar o problema sem destruir pavimentos ou paredes. Segundo Mariana Bandeira, responsável de qualidade da empresa, “enquanto o método tradicional obriga muitas vezes a partir para descobrir onde está a fuga, a Periplus recorre “à tecnologia para localizar o problema com precisão e evitar obras desnecessárias”, explica.

Recorrendo a ferramentas como termografia, eletroacústica e gás traçador, a Periplus identifica com precisão o local da fuga, reduzindo custos, resíduos e tempo de intervenção. O impacto é significativo numa realidade em que cerca de 27% da água distribuída em Portugal é desperdiçada antes de chegar ao consumidor. “Cada fuga que localizamos representa mais do que uma reparação. É água preservada, resíduos evitados, custos reduzidos e qualidade de vida protegida”, conclui Mariana Bandeira.

Alberto Castro, economista e professor da Católica Porto Business School
Alberto Castro, economista e professor da Católica Porto Business School FOTO: DR

Candidaturas para a próxima edição estão abertas

Já estão abertas as candidaturas à 5.ª edição do SME EnterPRIZE – Prémio Europeu de Sustentabilidade para PME, promovido pela Generali Tranquilidade. A iniciativa distingue pequenas e médias empresas que conciliam competitividade e sustentabilidade, dando visibilidade a projetos com impacto ambiental e social positivo.

Podem candidatar-se PME a operar em Portugal que desenvolvam iniciativas ligadas à redução de emissões, eficiência de recursos, reciclagem, economia circular ou promoção do bem-estar dos colaboradores e das comunidades onde atuam.

Além de um conjunto de produtos e serviços avaliados em mais de 20 mil euros, as PME selecionadas beneficiarão de um plano de visibilidade mediática promovido pelo Grupo Medialivre. Mais informações, regulamento e formulário de candidatura estão disponíveis aqui.

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