Mais de um quarto da população adulta portuguesa vive com obesidade, uma doença crónica que continua a ser tratada como falta de vontade. No MAAT Central, reuniram-se histórias, na primeira pessoa, para combater o estigma e dar visibilidade ao que muitos ainda insistem em não ver.
29 de maio de 2026 às 10:48Marisa M. queria andar no carrossel com o filho, mas não coube. Foi nesse momento que percebeu que a sua realidade tinha de mudar. "Viver com obesidade não é viver", declarou. Hoje tem a doença controlada e ajuda outras pessoas a percorrer o mesmo caminho. A história de Marisa é uma das dez, até agora invisíveis, que integram a iniciativa “Stories Can't Wait”, da Lilly Portugal.
Patente até 4 de junho no MAAT Central, em Lisboa, a iniciativa foi inaugurada no encerramento do evento promovido pela Associação Portuguesa de Pessoas que Vivem com Obesidade (ADEXO), no âmbito do Dia Nacional da Luta Contra a Obesidade.
Com o objetivo de promover a compreensão e a empatia, a iniciativa dá voz a pessoas que vivem com a doença. A peça central da “Stories Can’t Wait”, que representa a fragilidade emocional da obesidade, é a Torre dos Desequilíbrios, uma estrutura de blocos verdes empilhados em desequilíbrio, com sentimentos gravados em letras amarelas: frustração, ansiedade, julgamento, insegurança, preconceito, rejeição.
Maria Rita Dionísio, diretora médica da Lilly Portugal, afirmou que a ideia para a iniciativa nasceu de um “grande desejo de trazer uma visão humanizada” para a obesidade. “Combinando ciência e emoção, pretendemos ir além dos dados já conhecidos e verdadeiramente humanizar esta doença, ligando a esfera científica à sociopolítica. Acima de tudo, queremos que esta iniciativa seja suficientemente impactante para que alguém que ainda não procurou ajuda sinta esse apelo e dê o primeiro passo”, acrescentou.
Em Portugal, 28,7% dos adultos vivem com obesidade, uma doença crónica reconhecida há mais de 20 anos pela Direção-Geral da Saúde, associada a mais de 200 doenças, e ainda assim subdiagnosticada e estigmatizada. No dia 20 de maio, no MAAT Central, sociedades médicas e doentes reuniram-se para discutir o que falta fazer, a convite da ADEXO. O tema escolhido foi "Obesidade, uma doença invisível?" e a pergunta não foi retórica.
Para Carlos Oliveira, presidente da ADEXO, a doença "é muito mais do que aquilo que as outras pessoas veem ou que os doentes veem ao espelho". Por trás do que é visível, há sofrimento emocional e isolamento social. O estigma manifesta-se nos pequenos momentos do dia a dia.
“Oitenta por cento das pessoas com diabetes tipo 2 em Portugal têm também obesidade. Se uma dessas pessoas for a uma farmácia comprar a medicação prescrita para a diabetes, corre o risco de ser julgada por a estar a tomar indevidamente quando, na realidade, está a tratar as duas doenças simultaneamente”, exemplificou.
A resistência do corpo à perda de peso tem explicação científica. Maria Rita Dionísio descreveu-a como uma “luta biológica que vai desde os mecanismos centrais no cérebro até ao tecido adiposo como processo neurometabólico, e que ultrapassa a vontade da pessoa", porque o organismo reage à perda de peso como se estivesse em risco. É um mecanismo complexo que exige acompanhamento médico.
Nuno Vicente, secretário adjunto da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM), lembrou que a obesidade é uma das áreas da medicina que mais têm evoluído nos últimos anos. “O problema é que o acesso equitativo aos tratamentos não está a acompanhar o ritmo da ciência”, apontou.
José Silva Nunes, presidente da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade (SPEO), afirmou que "a obesidade é a mãe de muitas doenças". Em 2018, o sistema de saúde português gastou 1,2 mil milhões de euros a tratar as doenças associadas à obesidade e apenas 3 milhões a tratar a obesidade. Por cada euro investido no seu tratamento, o Estado poupa até seis euros em custos das doenças associadas, acrescentou.
28,7% dos adultos portugueses vivem com obesidade, uma doença crónica reconhecida há mais de 20 anos pela Direção-Geral da Saúde, associada a mais de 200 doenças, e ainda assim subdiagnosticada e estigmatizada.
CMAT-32869/MAI2026