Em cinco séculos, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa acumulou um dos maiores patrimónios culturais de Portugal. Da Capela São João Batista ao Arquivo Histórico, preserva obras de arte, documentos e histórias, graças ao apoio das receitas dos Jogos Santa Casa
20 de julho de 2026 às 09:00Em pleno Bairro Alto, dois espaços muito diferentes falam-nos da História e de histórias. Na Capela São João Batista, no interior da Igreja de São Roque, uma coleção de arte sacra está classificada como Tesouro Nacional. No Arquivo Histórico, 89.929 sinais de crianças abandonadas são candidatos a Memória do Mundo. O oitavo episódio da iniciativa “Boas Causas” leva-nos ao património cultural da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.
A Rainha Dona Leonor, fundadora da Santa Casa em 1498, foi mecenas das artes e protetora da cultura, deixando à instituição que criou uma vocação que perdurou no tempo. “A Santa Casa tem logo essa matriz genética de um cuidado especial sobre a arte e a cultura. E todo esse legado é-nos remetido hoje em dia”, afirma Teresa Nicolau, diretora da Cultura da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML). “Recebendo este legado, obviamente recebo também uma grande responsabilidade”, acrescenta.
O Complexo de São Roque concentra grande parte desse acervo: a Igreja, o Museu e o Arquivo Histórico. Mas o património da SCML estende-se além destes espaços. A Casa Ásia guarda a Coleção Francisco Capelo, uma das mais importantes de arte asiática em Portugal, a Biblioteca Histórica tem um vasto espólio de Livro Antigo dos séculos XV a XVIII e a Temporada de Música em São Roque é uma das mais antigas de Lisboa. Para Teresa Nicolau, este acervo pertence a todos: “Os nossos utentes, as nossas crianças, as nossas seniores, as nossas pessoas todas, são convidadas para estar aqui connosco e usufruir desse legado patrimonial histórico que a Santa Casa tem.”
Em Lisboa, há mais de 500 anos de história da Misericórdia para visitar e descobrir. Hoje, o Complexo de São Roque é também palco de exposições, concertos e iniciativas que o tornam um espaço vivo ao serviço da cidade e do talento nacional.
A Igreja de São Roque foi construída na segunda metade do século XVI pela Companhia de Jesus. Em 1768, após a expulsão dos jesuítas, foi doada à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, juntamente com todo o seu espólio. Classificada como Monumento Nacional em 1910, acolhe o Museu de São Roque, um dos mais importantes da cidade.
Mas é no seu interior que se encontra a joia mais extraordinária: a Capela de São João Batista. Encomendada pelo rei D. João V aos arquitetos italianos Luigi Vanvitelli e Nicola Salvi, veio de Roma, chegou a Lisboa em três naus e foi reerguida dentro da igreja. As suas paredes são revestidas de mármores raros, intercalados com painéis de mosaico e bronze dourado, e a coleção que a integra - ourivesaria, paramentos bordados em fio de ouro, rendas e mobiliário litúrgico - é única no mundo.
Quando o terramoto devastou Lisboa, o templo sobreviveu praticamente incólume, num caso que Teresa Nicolau descreve como “um dos exemplos mais extraordinários da Europa inteira: para além de a capela ter sobrevivido ao terramoto de 1755, todo o seu tesouro se mantém no sítio para onde originalmente foi feito. Isto é raro na Europa, haver uma capela com o seu tesouro junto ao seu edificado.”
Em 2025, o Estado Português classificou a sua coleção de 298 peças como Tesouro Nacional, distinguindo-a como um dos mais extraordinários testemunhos do Barroco europeu.
A poucos passos da igreja, o Arquivo Histórico guarda outro tipo de tesouro e Francisco D’Orey Manoel, diretor da instituição, recebe quem o visita com a consciência de quem sabe o valor que guarda. “Temos documentação que vai ser classificada como registo de Memória do Mundo, que é um galardão atribuído pela UNESCO. O maior conjunto de sinais de crianças expostas do mundo”, afirma.
Havia rodas, as chamadas “Rodas dos Expostos”, por todo o País. Esses mecanismos recebiam crianças cujos pais, por pobreza ou por alguma circunstância social, não as podiam criar. Cada vez que alguém deixava uma criança, deixava também um sinal que podia ser uma fita, uma medalhinha, uma moeda ou até uma carta de jogar, recorda Teresa Nicolau. A Santa Casa guardava metade, quem deixava a criança ficava com a outra e, se um dia voltassem para a buscar, o sinal e o contrassinal confirmariam a identidade. No fundo, era um gesto de esperança, sublinha a diretora, porque quem “deixava um menino ou uma menina na roda estava a dizer: eu quero que esta menina e que este menino sobrevivam”.
São 89.929 sinais, organizados em séries documentais que datam de 1658 a 1939, o maior arquivo do mundo desta natureza, candidato ao Registo da Memória do Mundo da UNESCO. Um arquivo com mais de seis quilómetros de prateleiras que preserva muito mais do que documentos. “Nós não guardamos só papéis, nem documentos, nem obras de arte. Guardamos também emoções, guardamos também histórias. E muitas vezes histórias de pessoas que nem sequer têm nome, mas que a Santa Casa à dada altura lhes deu”, conclui.
A missão cultural da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa é financiada pelas receitas dos Jogos Sociais do Estado. À SCML cabe 26,52% desses resultados, verba que sustenta a sua ação nas mais diversas frentes, da saúde à ação social, da preservação de um Tesouro Nacional à candidatura de 89.929 sinais a Memória do Mundo pela UNESCO.
Em 2025, os Jogos Santa Casa entregaram ao Estado 870 milhões de euros e 97,3% do valor gerado retornou à sociedade. O seu impacto, como sublinhou o provedor Paulo Alexandre Duarte de Sousa, faz-se sentir em múltiplas dimensões: “Esta iniciativa pode impactar muito as comunidades, envolvê-las naquilo que é o fenómeno de partilha, mas também são muito relevantes em termos numéricos.” Uma parte dessa verba chegou à Igreja de São Roque, ao Museu, ao Arquivo Histórico. Chegou às obras de restauro, à conservação das coleções e aos sinais que aguardam reconhecimento como Memória do Mundo.
Quando os portugueses apostam nos Jogos Santa Casa, raramente imaginam que também estão a contribuir para preservar uma coleção classificada Tesouro Nacional ou 89.929 sinais de crianças abandonadas. É essa realidade que a iniciativa “Boas Causas”, ao longo de 13 episódios no Correio da Manhã e na CMTV, procura tornar visível. O Património Cultural da Santa Casa foi o oitavo destino. Há mais cinco por descobrir.
EM NÚMEROS
Património Cultural da SCML
- Igreja de São Roque: doada à SCML em 1768, é Monumento Nacional - Capela de São João Batista: coleção de 298 peças classificada Tesouro Nacional - Museu de São Roque: uma das mais completas coleções de arte sacra de Portugal - Arquivo Histórico: 89.929 sinais de crianças expostas, candidatura UNESCO Memória do Mundo - Casa Ásia: Coleção Francisco Capelo, uma das mais importantes de arte asiática em Portugal - Biblioteca Histórica: valioso espólio de Livro Antigo dos séculos XV a XVIII
Jogos Santa Casa (2025) - 870 milhões € entregues ao Estado - 97,3% do valor gerado retornou à sociedade - 26,52% dos resultados destinados à SCML