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Santos da Casa fazem milagres

No Centro de Apoio Social de São Bento, cerca de 50 pessoas transformam materiais reciclados em peças únicas e ingredientes frescos em refeições. E transformam-se a si próprias. Uma dinâmica possível graças ao apoio dos Jogos Santa Casa.

17 de julho de 2026 às 11:52

Quando Maria João Silva entra no Centro de Apoio Social de São Bento, perto da Assembleia da República, em Lisboa, o dia já começou. Na cozinha, está tudo pronto a ser cozinhado. Nos ateliês, as mãos costuram, pintam e moldam. Quase 50 pessoas encontram aqui, todos os dias, um ofício, um apoio e a perspetiva de um futuro profissional. O sétimo episódio da iniciativa “Boas Causas” dá-nos a conhecer a dinâmica e a vida quotidiana neste equipamento da Santa Casa.

Da Cozinha Económica ao CASSB

Antes de se chamar Centro de Apoio Social de São Bento (CASSB), o edifício já tinha mais de 90 anos de história. Em 1906, foi inaugurada a Cozinha Económica nº 6, construída pela Sociedade Protetora das Cozinhas Económicas para servir refeições acessíveis à população operária do bairro de São Bento, então um dos mais movimentados de Lisboa. Em 1928, passou para a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e, em 1997, o espaço ganhou o nome atual sem mudar o seu propósito: servir quem mais precisa.

As peças de artesanato criadas pelos utentes são vendidos com a marca Santos da Casa
As peças de artesanato criadas pelos utentes são vendidos com a marca Santos da Casa FOTO: CStudio

Hoje, cerca de 50 pessoas encontram aqui formação, ocupação e acompanhamento. Os utentes chegam por iniciativa própria, por encaminhamento da equipa técnica ou porque tiveram conhecimento da existência desta resposta. “O nosso objetivo é criar rotinas e trazer ao de cima as melhores competências que têm para voltarem ao mercado de trabalho”, explica Maria João Silva, assistente social de formação e diretora do Centro de Apoio Social de São Bento. O centro organiza-se em três ateliês, dois artísticos e um atelier-bar. Nos dois artísticos, os utentes desenvolvem técnicas de pintura, modelagem em pasta de papel, carpintaria e costura, trabalhando materiais que seriam descartados e transformando-os em objetos únicos. No atelier-bar, preparam-se refeições para quem trabalha no Centro, para utentes que vêm almoçar e para pessoas em situações de emergência sinalizadas pela Santa Casa.

Ocupação e bem-estar

Paulo Fonseca tem 56 anos e descobriu o Centro de Apoio Social de São Bento quando estava desempregado: “Vim a umas entrevistas e acabei por ficar. Estou aqui há quatro anos e gosto muito.” No ateliê de artesanato, especializou-se na técnica do rolinho, tiras de papel enroladas com paciência até formarem figuras delicadas. “É a técnica de que eu gosto mais”, afirma. Há algo de meditativo neste trabalho, que exige concentração, calma e repetição, com reflexo no bem-estar, que Paulo diz ter ganho desde que chegou. “Aprendi a trabalhar com madeira e com papel. Aprendi a ficar mais calmo, mais sociável, mais afável, porque o centro tem técnicos, tem psicólogos, animadores e monitores, e eles dão-nos esse apoio necessário para uma estabilidade emocional.” E garante que se sente melhor desde que frequenta o espaço: “Estou muito estável, mentalmente estou muito estável.

Pessoas transformam materiais reciclados em peças únicas no Centro de Apoio Social de São Bento
Paulo Fonseca, utente de Artesanato do Centro de Apoio Social de São Bento FOTO: CStudio

Paulo sabe que nem todos têm o mesmo privilégio: “Fazem falta mais centros destes, porque as pessoas são muitas e nem todos têm a nossa sorte de estar aqui.”

Cozinhar um amanhã melhor

Jéssica Ferreira tem 28 anos e está no CASSB há quase dois anos. Trabalha na cozinha, onde diariamente ajuda a preparar refeições variadas. “Todos os dias temos legumes frescos e comidas diferentes”, conta. São oito utentes na cozinha, cada um com o seu percurso, a sua bagagem e os seus sonhos, unidos pelo espírito que ali se vive: “Estamos todos aqui no mesmo, que é aprender para irmos trabalhar com toda a sabedoria do mundo.”

Jessica Ferreira, utente de cozinha do Centro de Apoio Social de São Bento
Jessica Ferreira, utente de cozinha do Centro de Apoio Social de São Bento FOTO: CStudio

A relação com a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa é longa, construída no decorrer do tempo com as técnicas que estão ao seu lado. “Sou acompanhada pela Santa Casa há muitos anos. Tudo o que tenho construído na minha vida é graças a elas principalmente.” Hoje, o CASSB continua a ensinar-lhe algo que não tem receita, porque “aqui nós aprendemos a levar valores lá para fora, a sabermos lidar com a vida lá fora”.

Além de aprender a cozinhar, poder confiar faz toda a diferença para Jéssica: “O facto de a gente saber que tem sempre alguém que nos pode dar a mão. Aqui dão-te a mão quando mais precisas, e a gente reestrutura-se.”

Uma rotina com futuro

No CASSB, a palavra-chave é estrutura. “Nós vemos isto como uma profissão. Eles têm um horário, cumprem regras”, explica Maria João Silva. Os utentes recebem uma compensação monetária mensal a que a equipa multidisciplinar junta “o nosso salário emocional, de forma que consigam estabilizar e sentirem-se felizes”.

Maria João Silva, diretora do Centro de Apoio Social de São Bento
Maria João Silva, diretora do Centro de Apoio Social de São Bento FOTO: CStudio

O alcance vai além do bem-estar imediato. “O nosso objetivo principal é que eles se sintam integrados, que tenham um propósito, que tenham uma rotina. E essa estabilidade permite que se mantenham sem internamentos, sem episódios de emergência”, sublinha.

Os produtos criados nos ateliês do centro vendem-se sob a marca Santos da Casa, um nome que é ao mesmo tempo uma homenagem e uma declaração. A marca nasceu do desejo de dar identidade e reconhecimento ao trabalho dos utentes, não apenas do CASSB, mas de vários equipamentos da Santa Casa espalhados pela cidade.

Cada peça nasce de histórias reais de vida, superação e talento. Para os utentes, ver o seu trabalho à venda nas feiras, na loja do centro e nos mercados da cidade é a prova de que o que fazem tem valor e que eles próprios o têm. “O nosso intuito é que possam fazer cada vez mais milagres e ajudar a instituição Santa Casa a ser melhor, a utilizar os próprios recursos existentes e criar ligações com quem todos os dias está connosco”, afirma Maria João Silva.

Transformar vidas

O Centro de Apoio Social de São Bento é gerido pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que recebe 26,52% dos resultados dos jogos sociais do Estado. É com esta verba que se paga a equipa, se compra material, se mantém o espaço aberto todos os dias, para que Paulo encontre no rolinho a calma de que precisa, para que Jéssica aprenda a cozinhar, para que cada utente tenha um horário, uma rotina e um rumo.

Em 2025, os Jogos Santa Casa entregaram ao Estado 870 milhões de euros e 97,3% do valor gerado retornou à sociedade. “Cerca de 97% daquilo que é o valor gerido pelos Jogos Santa Casa retorna à sociedade. Este é um grande número que é importante referir”, sublinha o provedor da SCML, Paulo Alexandre Duarte de Sousa. Uma parte desta verba chega ao edifício na Rua de São Bento, onde, há mais de um século, se serve quem mais necessita.

Boas Causas

reze semanas, treze histórias de projetos e causas apoiadas pelas receitas dos Jogos Santa Casa. A iniciativa “Boas Causas” nasceu para as dar a conhecer e, semana após semana, o Correio da Manhã e a CMTV percorrem o País para as revelar. O Centro de Apoio Social de São Bento foi o sétimo destino. Há mais seis por descobrir.

APOIO SOCIAL EM NÚMEROS

Centro de Apoio Social de São Bento (CASSB)

- Cerca de 50 utentes em situação de exclusão social ou sem-abrigo

- 3 ateliês: 2 artísticos (artesanato, pintura, carpintaria e costura) e um atelier-bar (confeção de refeições)

- Produtos comercializados sob a marca Santos da Casa Jogos Santa Casa (2025)

- 870 milhões € entregues ao Estado - 97,3% do valor gerado retornou à sociedade - 26,52% dos resultados destinados à SCML - 59,5% das receitas canalizadas para a ação social

Jogos Santa Casa (2025)

- 870 milhões € entregues ao Estado

- 97,3% do valor gerado retornou à sociedade

- 26,52% dos resultados destinados à SCML - 59,5% das receitas canalizadas para a ação social

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