Os sete dias de cerimónias em honra do líder morto foram acompanhados de perto por 400 destes convidados especiais. Os Aiatolas não querem jornalismo independente.
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O atraso de várias horas tornou a fila para o check-in do voo 768 da Iran Air, que liga Istambul, na Turquia, à capital iraniana, ainda mais caótica e inquieta. Entre crianças ensonadas e a choramingar e pilhas de malas, observavam-se jovens adultos anormalmente nervosos na relação enérgica que mantinham com os telemóveis de última geração e respetivos pequenos microfones de fabrico chinês. Alguns ajustavam o penteado projetado nos ecrãs dos modernos dispositivos móveis antes de ensaiarem uma nova e breve gravação, não raramente interrompida pelo avanço titubeante da lenta fila. Os irrequietos passageiros eram alguns dos perto de 400 ‘influencers’ que o poder iraniano convidou – e cujos custos suportou – para acompanhar os sete dias de cerimónias fúnebres do antigo líder supremo do Irão, que ocorreram de 3 a 10 deste mês em três cidades da antiga Pérsia e duas no atual Iraque. Nunca tantos influenciadores digitais de todo o mundo marcaram presença tão relevante num evento de impacto mundial, onde a imprensa tradicional foi, por oposição, pouco autorizada a participar.
Só que a presença dos frenéticos senhores da nova comunicação de massas não foi aleatória. Nada na República Islâmica do Irão é feito ao acaso e os 400 influenciadores, com milhares ou milhões de seguidores no YouTube, X, Instagram ou TikTok, foram escolhidos a dedo, o que está a desencadear a discussão sobre
o papel do jornalismo e destes autodenominados ‘jornalistas’, que mais não são do que agentes de propaganda, em eventos do género. No caso da cobertura das cerimónias fúnebres do antigo líder político-espiritual dos iranianos e, em sentido mais lato, dos muçulmanos xiitas, isto foi particularmente visível e astuto na perspetiva do controlo da mensagem que os iranianos pretenderam transmitir para o exterior num momento particularmente sensível no Médio Oriente.
Desse ponto de vista, a ampla abertura em camadas noticiosas, prudentemente calculadas, foi um sucesso de relações públicas projetadas pelo regime para dar uma imagem de estabilidade interna e unidade nacional num período bastante instável e vulnerável da vida do Irão.
Consciente da relevância dos novos ‘media’ na formação de opinião, o Irão jogou pelo seguro. Por um lado, abriu o território de forma extraordinária – e muito controlada – aos jornalistas profissionais de poucos países ocidentais (o enviado do CM/CMTV e NOW foi o único de Portugal), mas, em simultâneo, deixou que a ‘verdade’ que mais lhe convinha ficasse a cargo dos tais influenciadores digitais, uma classe regularmente travestida de jornalismo profissional. De tal forma que algumas televisões ocidentais – incluindo, pelo menos, uma estação portuguesa – recorreram ao serviço destes ‘influencers’ para testemunhos que deveriam ser entregues a profissionais do jornalismo. Um viés noticioso talvez legítimo para os arquitetos de uma contranarrativa, mas pouco digno de meios de comunicação supostamente orientados por princípios democráticos.
A controvérsia do caso, porém, não se resume ao Irão: “A relevância que o regime iraniano deu aos ‘influencers’ nesta cerimónia histórica não é muito diferente daquela que o Presidente dos Estados Unidos passou a atribuir aos membros dos novos ‘media’ autorizados a participar nos ‘briefings’ da Casa Branca ao lado dos grandes meios tradicionais”, disse ao CM um ‘youtuber’ libanês que preferiu não se identificar.
Entre os influenciadores mais relevantes que viajaram até Teerão para amparar o regime encontrava-se Jackson Hinkle. O norte-americano, que se intitula “comunista MAGA”, seja lá isso o que for, carrega o peso de quase 4 milhões de seguidores na rede social X, de Elon Musk, habituados a comentar as mensagens anti-EUA e contra os sionistas israelitas, misturadas com elogios ferozes à Rússia e ao Irão.
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Um americano em Teerão
Jackson Hinkle é controverso e a passagem pelo funeral de Ali Khamenei reforçou a polémica em redor do ‘influencer’ norte-americano que gritou de forma entusiástica “morte à América!” durante o cortejo fúnebre do antigo líder supremo do Irão.
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Mohammad Mehdi Imanipour, chefe da Organização de Cultura e Relações Islâmicas do Irão, confirmou à agência de notícias Tasnim, uma afiliada da Guarda Revolucionária, que o convite feito aos 400 influenciadores digitais teve como objetivo “transmitir a imagem correta e real da cerimónia” fúnebre de Ali Khamenei, morto numa ação militar conjunta dos EUA e de Israel no início da guerra declarada contra o Irão no fim de fevereiro deste ano. Aquele alto dirigente da ‘nomenklatura’ iraniana admitiu que os convites neutralizaram “o ataque mediático do Ocidente” que, segundo ele, tentava retratar “uma realidade completamente diferente da sociedade iraniana”.
A participação de cidadãos dos EUA com posturas elogiosas a Teerão no funeral gerou controvérsia política em Washington. Sebastian Gorka, um aliado próximo de Donald Trump e assessor na Casa Branca, publicou nas redes sociais referências às leis americanas sobre traição a propósito deste caso. Esta ação desencadeou uma resposta imediata com vários apelos para que fossem tomadas medidas imediatas contra cidadãos dos EUA que compareceram nos eventos fúnebres de Khamenei onde, entre outros, também estiveram jornalistas profissionais das cadeias de televisão NBC e CNN internacional.
Jackson Hinkle, até pelo valor simbólico de ser um norte-americano a arrasar Donald Trump, foi particularmente acarinhado pelos organizadores das cerimónias fúnebres, mas houve muitos outros. Entre as figuras estrangeiras icónicas presentes no adeus a Khamenei, que paralisaram as principais vias do centro de Teerão durante vários dias, estão ainda Bushra Sheikh, influenciadora britânico-paquistanesa, e Salman Haddad, ativista de comunicação libanês baseado em Beirute.
A esmagadora maioria dos estrangeiros – incluindo o enviado do CM – eram permanentemente assediados para conceder entrevistas exortando as qualidades de Ali Khamenei por grupos de índole cultural, geralmente afiliados à Guarda Revolucionária Islâmica do Irão, para posterior difusão tanto através dos canais nacionais de televisão, como na pujante ‘media’ social iraniana.
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