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Alimentar a alma e combater a pobreza

Mais de 1,7 milhões de pessoas vivem em risco de pobreza em Portugal. No terreno, organizações como a Nestlé e a Cruz Vermelha Portuguesa conjugam esforços para travar esta epidemia.

02 de julho de 2026 às 09:04

Em Portugal, empresas e instituições estão a constituir-se como resposta à realidade de mais de 1,7 milhões de pessoas a viver em risco de pobreza. É o caso da Nestlé, que reforçou a rede de apoio alimentar a famílias de todo o País, em articulação com a Fundação Benjamin Dias Costa, o Banco Alimentar Contra a Fome e a Cruz Vermelha Portuguesa.

Os dados mais recentes ajudam a enquadrar a dimensão do problema. Segundo o relatório de 2025 do Observatório Nacional da Luta contra a Pobreza, esta situação “não resulta apenas da ausência de emprego, mas também da insuficiência dos rendimentos do trabalho, afetando de forma significativa tanto trabalhadores como famílias em diferentes fases do ciclo de vida”.

A pobreza abrange o equivalente a uma taxa de 16,6%, um quinto da população nacional. Sem o contributo das prestações sociais, esse valor subiria para 21,4%, o que evidencia a fragilidade estrutural de muitos agregados familiares. Portugal continua entre os países da União Europeia onde o impacto das transferências sociais — excluindo pensões — é mais reduzido. O limiar de pobreza fixou-se nos 7.588 euros anuais, o equivalente a 632 euros por mês. Ainda assim, a intensidade da pobreza mantém-se elevada, nos 25,7%, a demonstrar que uma parte significativa da população vive em situações de privação profunda e persistente. Ao mesmo tempo, cerca de 451 mil pessoas encontram-se em privação material e social severa.

Em Portugal, a pobreza afeta sobretudo crianças e adultos em idade ativa — cerca de 40% vivem com rendimentos iguais ou inferiores a 422 euros mensais. Quase metade das pessoas em situação de pobreza — 49,3% — está empregada. São trabalhadores com baixos salários, vínculos precários ou inseridos em setores menos qualificados, o que confirma que o trabalho já não é, por si só, garantia de saída da pobreza.

Embora mais frequente em territórios rurais, a maioria das pessoas em situação de vulnerabilidade situa-se nos centros urbanos densamente povoados, o que reforça a relevância das respostas sociais locais.

Neste contexto surge a série “Humanidade em Ação”, uma iniciativa da Cruz Vermelha Portuguesa que, com empresas parceiras, em divulgação conjunta com a Medialivre, foram ao terreno mostrar o que está a ser feito em diversas causas sociais, com episódios a serem exibidos nos canais CMTV e Now.

Alguns números da Cruz Vermelha Portuguesa (dados de 2025): Pessoas apoiadas através de programas alimentares: Mais de 85.000 pessoas apoiadas através de 84 Estruturas Locais, por meio da distribuição de géneros alimentares, vouchers e cartões alimentares; As tipologias com mais apoios atribuídos: Bens de 1.ª necessidade (15,6%) e apoio psicológico (15,4%). A maioria dos beneficiários está ativa no mercado de trabalho, mas o emprego não garante proteção contra a pobreza; Pessoas apoiadas na área social: Mais de 120.000 pessoas apoiadas em todo o país; Presença territorial: Mais de 150 estruturas locais em todo o país.

Apoio que sai de Avanca

A estratégia da Nestlé, presente em Portugal há mais de 100 anos, procura associar responsabilidade social, combate ao desperdício alimentar e apoio direto às comunidades. A partir de Avanca, onde se situa uma das suas principais unidades industriais, a Nestlé organiza uma parte significativa dessa operação. Além da produção, uma logística paralela encaminha alimentos para instituições de solidariedade social em todo o País.

Vera Ferreira, Corporate Affairs Nestlé Portugal, na fábrica de Avanca
Vera Ferreira, Corporate Affairs Nestlé Portugal, na fábrica de Avanca FOTO: CStudio

“Estas ações fazem parte do propósito da Nestlé de usar o poder da alimentação para melhorar a qualidade de vida das pessoas”, afirma Vera Ferreira, Corporate Affairs Nestlé Portugal. “Queremos garantir que alimentos nutritivos chegam a quem mais precisa, ao mesmo tempo que evitamos o desperdício alimentar.”

Nos últimos seis anos, a empresa doou mais de 350 toneladas de alimentos e bebidas ao Banco Alimentar Contra a Fome. Atualmente, a marca apoia cerca de 20 instituições, distribuídas de norte a sul do País e regiões autónomas.

Em períodos de maior pressão social, esse apoio tem sido reforçado. Em 2021, ainda marcado pelos efeitos da pandemia, a Nestlé distribuiu mais de 600 mil produtos por entidades como a Cruz Vermelha Portuguesa, hospitais e o Banco Alimentar. No ano seguinte, com a chegada de refugiados da guerra na Ucrânia, a resposta incluiu mais de 100 mil produtos e 27 mil euros para equipar o Centro de Acolhimento Temporário de Almada, além de ações de voluntariado e iniciativas de apoio à integração profissional.

Lanches que fazem a diferença

Em Avanca, “berço da Nestlé em Portugal há mais de 100 anos”, a Fundação Benjamin Dias Costa é um dos exemplos mais antigos da estratégia da empresa. Simboliza “a ligação histórica à comunidade local e o apoio de longa duração”, que dura há quase 60 anos, desde a criação do centro educacional, em 1967, na rua com o nome da Nestlé.

Vera Ferreira recorda ainda que “a Nestlé tem demonstrado, desde sempre, preocupação e cuidado com a comunidade envolvente. E por isso mesmo, há relações de longa data que mantém com entidades essenciais no apoio a todos aqueles que nos rodeiam e que precisam de ajuda”.

Dentro da creche, o ambiente no refeitório é rotineiro — crianças de quatro e cinco anos sentadas a comer cereais da Nestlé, sob olhar atento de funcionários. Mas, por trás dessa normalidade, há histórias de fragilidade social que muitas vezes começam em casa.

“Este apoio tem um impacto muito significativo”, explica Alexandra Dias, diretora de serviços da Fundação Benjamin Dias Costa. “Permite-nos garantir alimentos com qualidade nutricional às crianças e, ao mesmo tempo, reduzir custos, canalizando recursos para outras áreas essenciais.”

Alexandra Dias, diretora de serviços da Fundação Benjamin Dias Costa, cujas crianças recebem apoio alimentar da Nestlé
Alexandra Dias, diretora de serviços da Fundação Benjamin Dias Costa, cujas crianças recebem apoio alimentar da Nestlé FOTO: CStudio

A instituição acompanha cerca de 150 famílias em situação de vulnerabilidade. Parte dos alimentos recebidos é integrada em Vera Ferreira, Corporate Affairs Nestlé Portugal, na fábrica de Avanca cabazes distribuídos regularmente, funcionando como complemento essencial para orçamentos familiares extremamente limitados. “Não estamos apenas a garantir refeições”, sublinha Alexandra Dias. “Estamos a contribuir para o desenvolvimento das crianças e para alguma estabilidade nas famílias.”

Estratégia global no terreno

Esta intervenção local faz parte de uma estratégia mais ampla da Nestlé, que aposta na criação de parcerias com comunidades para reduzir a insegurança alimentar, nomeadamente através da promoção do pequeno- almoço como refeição essencial.

A empresa investe também na mobilização interna, incentivando o voluntariado dos seus colaboradores, e na sensibilização de entidades com impacto na saúde pública para a importância de hábitos alimentares equilibrados.

A nível global, os números refletem essa ambição: mais de 1,5 milhões de pequenos- almoços doados desde 2020 em mais de 35 países, cerca de 2 milhões de francos suíços investidos em iniciativas comunitárias e mais de 75 voluntários envolvidos em 38 projetos com a organização Partners in Food Solutions, que atua no combate à insegurança alimentar em África.

Isabel Jonet, presidente da Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares contra a Fome
Isabel Jonet, presidente da Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares contra a Fome FOTO: CStudio

Para Isabel Jonet, presidente da Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares contra a Fome, a consistência destas parcerias é essencial para garantir respostas eficazes. A colaboração entre as duas entidades remonta à década de 1990 e mantém- se como um dos pilares da resposta alimentar em Portugal.

“A Nestlé tem uma estratégia bem definida há muitos anos. Há um compromisso para com as comunidades, mas também para com a comunidade onde quer fazer a diferença. Não se limita a doar os excedentes de produção ou aquilo que está perto do fim do prazo de validade, o que também seria bom, mas quer ter uma atuação que gere impacto. Portanto, para os Bancos Alimentares, a Nestlé é hoje um parceiro indissociável na atividade e luta contra as carências alimentares em Portugal”, frisa a responsável.

Em Portugal, a rede dos Bancos Alimentares apoia cerca de 380 mil pessoas através de instituições de solidariedade social, distribuindo alimentos ao longo de todo o ano sob a forma de cabazes ou de refeições confecionadas.

Pedidos de ajuda disparam

No terreno, a pressão continua a aumentar. Por exemplo, na Trofa, a delegação da Cruz Vermelha Portuguesa regista um crescimento significativo dos pedidos de ajuda. “Temos praticamente um pedido de emergência alimentar por dia”, revela Carla Lima, coordenadora local. “Muitas vezes, são pessoas que até trabalham, mas não conseguem garantir o básico.”

A Cruz Vermelha Portuguesa atua no combate à pobreza através de uma combinação de respostas de emergência, apoio social continuado e programas de capacitação, procurando não apenas aliviar necessidades imediatas, mas também promover autonomia e inclusão social.

Delegação da Cruz Vermelha Portuguesa na Trofa tem um trabalho em várias vertentes do apoio alimentar de emergência a programas de inclusão social
Delegação da Cruz Vermelha Portuguesa na Trofa tem um trabalho em várias vertentes do apoio alimentar de emergência a programas de inclusão social FOTO: CStudio

A abordagem da organização procura responder simultaneamente às necessidades imediatas (alimentação, habitação, saúde) e às causas estruturais da pobreza, através da capacitação, inclusão social e fortalecimento das comunidades.

Na delegação da trofa, as respostas passam por diferentes valências: apoio alimentar de emergência, distribuição de cabazes, mercearia solidária, lojas de vestuário e programas de inclusão social.

Esta delegação atua numa região com características mistas — urbanas e rurais — refletindo a transversalidade do fenómeno da pobreza. “Mais do que dar, queremos criar condições para que as pessoas ganhem autonomia. Encaminhamos para emprego, promovemos formação e temos tido casos de sucesso”, explica Carla Lima.

Existe ainda um sistema que permite trocar horas de voluntariado por bens essenciais, promovendo uma lógica de participação ativa.

Entre estatísticas e histórias concretas, conta-se o cenário de uma pobreza em Portugal difusa e silenciosa. Para milhares de famílias, continua a traduzir-se na mesma realidade básica de dificuldade em garantir uma refeição.

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