No bairro da Encarnação, em Lisboa, a loja de Luís Martins funciona à “moda antiga”. Quando sente a falta de algum idoso, dá logo o alerta.
17 de outubro de 2019 às 06:12Luís Martins trabalha há 48 anos na mesma loja, o Centro Comercial de Loiças e Ferragens. O tempo atrás do balcão fê-lo conhecer o Bairro da Encarnação, em Lisboa, como ninguém. E foi precisamente com essa experiência que o projeto Radar da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa quis contar para lutar contra a solidão da população sénior da zona.
"Até é fácil identificar situações que precisam de ajuda. Estou ali há tantos anos. Se deixo de ver as pessoas, alguma coisa se passa", diz o comerciante, de 71 anos, que não tem uma lista concreta de sinais de alerta. O bom senso e a intuição ainda são os principais aliados nesta missão.
Ao longo dos últimos meses, Luís Martins já identificou "algumas dezenas de casos" e acredita que muitos outros se podem seguir. "Muitas vezes, os filhos tentam encobrir onde estão os pais", lamenta, após destacar que este é um bairro constituído sobretudo por moradias de elevado valor.
No balanço desta parceria com a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, Luís Martins não tem dúvidas na voz ao falar sobre o impacto "positivo" que o projeto Radar acaba por ter no bairro. O lojista já colaborava com uma associação local quando decidiu aceitar o desafio do "pessoal da Santa Casa que anda aí na rua": como a loja ainda funciona à "moda antiga", muitas das conversas sobre a Encarnação e os seus moradores acabam por lá passar.
"Quando fui para o bairro, a gente era toda nova", recorda o comerciante. Agora, apesar das barreiras que existem nesse trabalho, Luís Martins quer evitar que as caras que viu envelhecer passem os seus dias sozinhos em casa.
Este é um dos exemplos de parceiros da comunidade que dão força ao projeto Radar, numa cidade onde se contam mais de 130 mil pessoas acima dos 65 anos.