Partidos concordam que Estado deve pagar transporte de presos das ilhas detidos no continente

Propostas têm origem num caso ocorrido em 2023, quando DGRSP recusou assegurar as despesas de trasladação de um recluso transferido do estabelecimento prisional de Ponta Delgada.

28 de janeiro de 2026 às 19:19
Algemas Foto: Getty Images
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O Parlamento mostrou-se esta quarta-feira favorável a alterar a lei para garantir que o Estado assegura despesas de trasladação e transporte de detidos das regiões autónomas que sejam transferidos para estabelecimentos prisionais no continente.

A Assembleia da República debateu esta quarta-feira os projetos de lei do PSD e do Bloco de Esquerda (BE) que pretendem garantir que o Estado assegura as despesas de trasladação de corpos de reclusos ilhéus falecidos em estabelecimentos prisionais do continente e as despesas de retorno à ilha de origem sempre que sejam transferidos para território continental para cumprimento de pena ou de medida privativa de liberdade e aí sejam depois libertados.

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A garantia de pagamento de despesas de transporte pelo Estado -- retirando esse ónus aos detidos ou às suas famílias -- deve ser extensível aos sistema tutelar educativo, aplicando-se também aos jovens das ilhas em centros de internamento no continente.

A proposta mereceu elogio e amplo consenso dos grupos parlamentares, pelo que é expectável uma aprovação e encaminhamento para discussão em especialidade, onde os partidos manifestaram vontade de introduzir alterações e melhorias na consensualização de um texto único que "corrija uma profunda injustiça" e a "indiferença administrativa" que o Estado "ainda hoje impõe aos cidadãos", defendeu Fabian Figueiredo (BE), na defesa da proposta do seu partido.

Já no encerramento do debate, Paulo Moniz (PSD), que defendeu o projeto dos sociais-democratas, não deixaria de fazer um reparo ao deputado do BE, afirmando que a iniciativa dos bloquistas apenas entrou depois de recebido no parlamento o parecer do Conselho Superior da Magistratura (CSM), que apontava a necessidade de ter em consideração a situação dos reclusos inimputáveis, sugestão vertida para o texto da proposta do BE.

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As propostas têm origem num caso ocorrido em 2023, quando a Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais (DGRSP) recusou assegurar as despesas de trasladação de um recluso transferido do estabelecimento prisional de Ponta Delgada, em situação de sobrelotação, para a prisão do Linhó (Alcabideche, Cascais), onde acabaria por morrer.

A DGRSP escudou-se na lei para a sua posição inicial, mas acabaria por assumir as despesas do transporte depois da indignação pública gerada pelo caso.

Foram vários os deputados que esta quarta-feira vincaram a violação da Constituição e de direitos fundamentais dos reclusos por a lei não acautelar que é ao Estado que compete pagar esta despesa, tendo o deputado Filipe Sousa (JPP) sublinhado que a "dignidade humana não é suspensa" pela situação de reclusão e que "quem assume a guarda, assume a responsabilidade"; e João Almeida (CDS-PP) apontado que está em causa o princípio da continuidade territorial previsto no texto fundamental, acrescentando que o local de residência não pode significar a imputação de despesas acrescidas pelo Estado.

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Rui Rocha (IL) afirmou sobre as propostas que "o bom senso devia ditar que esta era a solução aplicada, sem necessidade de legislar" e, ironizando, não deixou de recordar o vídeo do ex-deputado do Chega Miguel Arruda, açoriano, a braços com um processo judicial por alegadamente roubar malas nos aeroportos, quando este à porta do estabelecimento prisional de Ponta Delgada, em São Miguel, denunciou a sobrelotação daquela prisão, "sem saber que o estaria a fazer, eventualmente, 'na ótica do utilizador'".

Isabel Mendes Lopes (Livre) e Emanuel Câmara (PS) e Paula Santos (PCP), e Inês Sousa Real (PAN), afirmaram que acompanhariam as iniciativas e alguns manifestaram também a vontade de introduzir ajustamentos em especialidade, nomeadamente, avançou o Livre, garantir o mesmo princípio para reclusos continentais a cumprir penas nas ilhas ou para detidos no continente colocados em estabelecimentos longe da residência.

O PAN lamentou que não se aproveite a oportunidade para uma revisão mais aprofundada da lei tutelar educativa e o PCP instou o Governo a investir mais no sistema prisional e nos seus profissionais.

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No meio do amplo consenso em torno das iniciativas legislativas, Idalina Durães (Chega), foi uma voz dissonante ao focar preocupações com a boa gestão dos recursos públicos, garantindo que o partido faria um acompanhamento da "execução prática do diploma" e ao frisar que a medida "não representa qualquer benefício adicional para os reclusos".

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