Francisco Viana traça um cenário dramático da situação da população em Angola e tece duras críticas aos governantes, "a maioria do povo continua sem luz e sem água canalizada".
O deputado da UNITA (oposição) Francisco Viana considerou esta segunda-feira que Angola se encontra numa "situação catastrófica", onde a fome e miséria aumentaram e a criminalidade e prostituição "dispararam", em quase meio século de independência, defendendo um "projeto de nação consensual".
Francisco Viana, um dos 90 deputados da União Nacional Para a Independência Total de Angola (UNITA, maior partido na oposição), eleitos para a legislatura 2022-2027, defendeu que Angola precisa de "elaborar e aprovar democrática e patrioticamente um projeto nacional de consenso, para se travar o aumento da tensão social".
Segundo o deputado angolano, em carta aberta a que a Lusa teve esta segunda-feira acesso, traça um cenário dramático da situação da população em Angola e tece duras críticas aos governantes, "a maioria do povo continua sem luz e sem água canalizada".
"Nos bairros a insegurança prevalece e os bandidos é que mandam. Quando chove, já ninguém dorme, as ruas inundam e a chuva mistura-se com os esgotos, o lixo, os ratos e as baratas, que de seguida fazem aumentar os casos de paludismo, febre tifóide e outras doenças", lê-se na carta.
"Um cenário humilhante, desesperante, digo mais, extremamente revoltante", refere.
Na sua carta de oito páginas, Viana diz mesmo "não ser admissível" que um povo, detentor de tantas riquezas naturais e com uma "população trabalhadora e maravilhosa, com tantos jovens com vontade e estudar e trabalhar, tenha de viver em tanta miséria".
Francisco Viana é um conhecido empresário angolano e ex-militante do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA, no poder desde 1975), partido que abandonou há um ano por se mostrar "descontente" com o rumo do país.
Nesta missiva de oito páginas, o filho de Gentil Viana, histórico nacionalista angolano e dirigente do MPLA, afirma que "já ninguém pode fingir que não vê o sofrimento e o descontentamento do nosso povo".
"Das nossas mamãs, dos nossos jovens, dos antigos combatentes, da nossa classe média, dos agricultores, dos funcionários públicos, dos polícias, dos militares, dos professores, dos médicos e enfermeiros, até dos militantes do MPLA", aponta.
"Estamos todos fartos deste inferno, que alguns chamam de paraíso, onde a fome é chamada de relativa e onde muitos comem dos contentores do lixo, e uma minoria, muito restrita, vive na maior fortuna, no maior esbanjamento", realça.
Para o eleito deputado da UNITA, no âmbito da Frente Patriótica Unida (FPU), os governantes, que diz "não terem sido escolhidos, mas que se impuseram à força e com intimidações, armas a atropelando a lei", gastam "bilhões de dólares em contratos adjudicados sem concurso público".
Francisco Viana diz que a corrupção em Angola se generalizou: "Cada um saca onde está amarrado. O dinheiro já não circula em Angola, já não há dólares, mas também não há kwanzas (...). Os empresários já não têm dinheiro, as empresas continuam a fechar".
Considera também que a diversificação da economia "tarda a acontecer", os pequenos e médios empresários não conseguem empréstimos e os juros e o câmbio estão "elevadíssimos".
"E, como se não chegasse, o executivo decidiu, mais uma vez, sem ouvir ninguém, falhar com as suas promessas e em vez de baixar o preço da gasolina, conforme prometeram, entenderam triplicar o preço da mesma", referiu, contestando o aumento do preço da gasolina, desde a passada sexta-feira, devido ao corte dos subsídios estatais.
Criticou igualmente a situação da justiça angolana, que no seu entender "não funciona e não consegue ser independente".
"O executivo manda na justiça, o partido [no poder] manda e sequestra o Estado. O partido manda na polícia, nos sindicatos, nas ordens profissionais, no exército. Estamos sequestrados pelo partido, pelo monstro, pelo polvo. São donos disto tudo", escreveu.
O político considera igualmente que a saúde em Angola "é uma lástima", as infraestruturas, estradas, saneamento básico, a água e a mobilidade "são uma miragem", o racismo, o regionalismo, o tribalismo, a impunidade, a insegurança e a injustiça "aumentaram".
"Por isso, podemos facilmente concluir que após tantos anos de governação, quase cinquenta anos, o MPLA desconseguiu e já não tem confiança no povo", frisou, realçando que o país está a caminhar, "perigosamente, para uma grave rotura social".
Um debate amplo, com todas os atores da sociedade, sobre os problemas que o país enfrenta é o que defende Francisco Viana, referindo ser desejável que no fim dos debates se consiga elaborar e aprovar, "democraticamente e patrioticamente um projeto comum, o projeto de nação, um projeto nacional de consenso".
A nação angolana "deveria aproveitar essa oportunidade para tratar também dos graves problemas de que padece e encontrar um caminho de curto prazo, que consiga evitar o aumento da tensão social e consolidar o processo de democratização do país", defendeu.
A implementação das autarquias é, para o político da UNITA, um dos temas que deve constar na agenda de consenso.
O autodenominado "deputado do povo" afirmou ainda que Angola precisa de um MPLA renovado, forte e mais atualizado com a Agenda 2063 de União Africana.
"O MPLA é um grande partido e tem muitos militantes, nossos bons compatriotas, deputados, governantes, funcionários públicos, que tal como nós amam verdadeiramente o nobre povo de Angola", atirou Francisco Viana.
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