Consenso histórico conseguido ao fim de quatro anos de diálogos. Povo festeja.
O Governo da Colômbia e a guerrilha das FARC assinaram esta segunda-feira um acordo histórico para pôr fim a mais de meio século de um conflito armado que fez centenas de milhares de mortos e desaparecidos.
O Presidente colombiano, Juan Manuel Santos, e Rodrigo Londoño, chefe das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC, marxistas), mais conhecido pelo nome de guerra "Timoleon Jimenez" ou "Timochenko", assinaram este acordo de 297 páginas, numa cerimónia solene em Cartagena das Índias (norte).
O acordo, conseguido ao fim de quase quatro anos de diálogos entre o Governo e as FARC, em Havana, foi assinado perante mais de 2.500 convidados, incluindo 15 Presidentes.
O documento foi assinado primeiro por Londoño e depois por Santos, com canetas feitas a partir de balas. No final, os dois homens cumprimentaram-se e trocaram algumas palavras com um sorriso nos lábios.
No discurso proferido após a assinatura do acordo, o líder das FARC saudou o início de "uma nova era de reconciliação" e pediu perdão às "vítimas do conflito".
"Estamos a renascer para dar início a uma nova era de reconciliação e de construção da paz", disse Rodrigo Londoño.
Antes da cerimónia, Juan Manuel Santos escreveu na rede social Twitter: "Hoje vivemos a felicidade de um novo amanhecer para a Colômbia, uma nova fase da nossa história - a de um país em paz!".
Os convidados, vestidos de branco, agitaram lenços para marcar a assinatura do acordo, enquanto um grupo de aviões da força aérea colombiana desenhava, nos céus de Cartagena das Índias, a bandeira colombiana.
A cerimónia, na presença do presidente de Cuba, Raul Castro, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, e o secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, entre outros, prolongou-se por 70 minutos.
Colombianos celebram momento histórico em Bogotá
Centenas de colombianos reuniram-se nesta segunda-feira na Plaza de Bolívar, em Bogotá, para comemorar e acompanhar por ecrãs a assinatura do acordo de paz entre o Governo e a guerrilha das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia).
Após mais de 30 anos de conflito, os colombianos celebraram o acordo vestidos de branco, com as caras pintadas de amarelo, azul e vermelho (cores da bandeira do país), acessórios típicos, como o "sombrero volteado" (chapéu colombiano), e cartazes e bandeiras de partidos políticos e em defesa do "Sí" ("Sim"), referindo-se ao voto no plebiscito que ocorrerá no próximo domingo, no qual a população deverá ratificar ou não o acordo.
"Quero que os meus filhos vivam num país em paz", disse à agência Lusa a dona de casa Paola Bogotá, 23 anos, com o Thomás, de 1 ano, no colo. "Hoje é um dia histórico para nós", acrescentou.
Tanto crianças como jovens estudantes, adultos e idosos estiveram na Plaza de Bolívar, no coração da cidade, a apoiar o acordo.
A marcha para o local começou ao início da tarde em Bogotá (cerca de 18:00 em Lisboa), e a concentração contou com bandas musicais, grupos artísticos e movimentos que defendem a assinatura do documento, que ocorreu hoje na cidade de Cartagena de Las Índias.
Também foram feitas homenagens a vítimas do conflito, com um minuto de silêncio, flores e cartazes com nomes e fotografias de mortos e desaparecidos nos últimos 30 anos.
O ex-guerrilheiro Germán Alonso Moreno Ortuz, 60 anos, desmobilizado do grupo M-19 há 26 anos, defendeu o acordo. "Desde quando criamos a coordenação guerrilheira Simón Bolívar, que uniu as guerrilhas das FARC, M-19 e EPL, em 1981, defendemos o abandono das armas. Hoje, os irmãos das FARC dão um grande passo para a paz", disse.
Ortuz acrescentou esperar que a guerrilha do ELN, ainda ativa, recorra a um processo de paz nos próximos meses.
O ex-guerrilheiro estava em frente ao Palácio de Justiça, tomado, em novembro de 1985, pela guerrilha do M-19, numa operação que terminou com um saldo de quase cem mortos. Na praça também se localizam a sede do Congresso colombiano e a catedral de Bogotá.
A estudante Angie Duarte, 20 anos, enrolada numa bandeira colombiana e ao lado da estátua de Simón Bolívar, herói das independências na América Latina, afirmou ter esperança no acordo.
"Este é o começo para a constituição de uma sociedade mais regulamentada, mais igualitária e com mais oportunidades a todos", disse.
Quando o Presidente colombiano, Juan Manuel Santos, e o líder das FARC, Rodrigo Londoño, conhecido como Timotchenko, assinaram o acordo, a multidão aplaudiu e caíram lágrimas dos olhos da reformada Ana Maria Arango Restrepo, de Medellín.
"No último dia 18 eu fiz 60 anos e este é o momento mais importante que acompanhei em vida. Hoje, sim, somos um novo país", afirmou.
Segurando uma pomba da paz feita em papel nas mãos, acompanhava a multidão a gritar: "Sí, se pudo! Sí, se pudo!" ("Sim, conseguimos").
Mesmo quando os presentes pararam com o coro, Ana Maria continuou a sorrir e a gritar "Sí, se pudo!". E concluiu: "Já estou a festejar".
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