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Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

Declaração Universal da Igualdade de Género pode ser aprovada já em 2017

Projeto nasceu em Portugal.

06 de dezembro de 2016 às 16:12

O autor da proposta de elaboração da Declaração Universal da Igualdade de Género disse esta terça-feira que "há todos os motivos" para que projeto nascido em Portugal seja concretizado em 2017, durante a administração da diretora geral da UNESCO, Irina Bokova.

"Que seja no mandato de uma mulher que uma declaração desta natureza seja discutida e aprovada pela Assembleia Geral da UNESCO", sublinhou Rui Nunes, referindo tratar-se de "uma declaração de pendor universal que toca diferentes domínios da igualdade entre homem e mulher em qualquer sociedade do planeta, independentemente do nível de desenvolvimento, sobretudo nas áreas de acesso à educação e também questões relacionadas com literacia em saúde".

A proposta de criação da Declaração Universal da Igualdade de Género da UNESCO, subscrita por uma equipa liderada pelo especialista em bioética e professor catedrático Rui Nunes, venceu um concurso público internacional em que participaram 120 países.

A equipa de Rui Nunes, principal impulsionador da criação da figura do "Testamento Vital" em Portugal e atual coordenador mundial do Departamento de Investigação da Cátedra de Bioética na UNESCO, integra Francisca Rego, investigadora em Psicologia Clínica e Ciências Sociais, e Guilhermina Rego, igualmente professora da Faculdade de Medicina do Porto e vice-presidente da autarquia portuense.

Em entrevista à Lusa, Rui Nunes explicou que "a existência de uma declaração destas não é apenas uma carta de princípios gerais, é algo que, caso seja aprovada, tem a possibilidade de moldar definitivamente a legislação, a prática e os costumes de diferentes países, incluindo Portugal".

Por isso, defende que a existência desta declaração é "tão importante", não para o presente, mas para o futuro porque "as sociedades à escala mundial teriam este referencial de atuação na implementação de políticas públicas na educação, na saúde, no planeamento familiar, na nomeação de cargos públicos e políticos, entre outras".

"É essencial que se promovam valores como planeamento familiar e se avance para uma certa regulação ética mundial para questões que tem a ver com a integridade pessoal, que têm a ver, por exemplo, com a mutilação genital feminina, para que os direitos básicos das mulheres não sejam expressamente violados", frisou.

Rui Nunes disse que esta proposta de declaração tem também a ver com as questões da igualdade de género no mundo laboral, na entrada das carreiras profissionais, na formação profissional, na ascensão na carreira e na ascensão aos lugares de topo nas carreiras profissionais.

"Portugal está muito avançado nesta matéria, mas ainda tem focos importantes de desigualdade e de iniquidade de género e importa que haja pensamento e depois que haja também legislação específica para uma verdadeira igualdade de oportunidades, nomeadamente, em lugares de topo da administração pública e da atividade política", referiu.

Rui Nunes apontou como "um exemplo concreto" a questão da liderança da Caixa Geral de Depósitos.

"Independentemente do mérito que ninguém retira aos nomes que foram sugeridos nos últimos tempos, não é concebível que nem sequer tenha sido proposto o nome de uma mulher para chefiar um banco público", considerou.

Em seu entender, num organismo público devia haver "regras claras", seguindo-se, por exemplo, o mesmo princípio que já está patente para as entidades reguladoras independentes, que é o princípio da alternância de género.

Contudo, considera que "Portugal está especialmente bem colocado para liderar este projeto, porque conseguiu implementar em muitos domínios os direitos humanos e a igualdade de género na sociedade portuguesa nos últimos 40 anos e também pelo papel que sempre teve à escala internacional, nomeadamente no âmbito da lusofonia, e com as pontes que consegue estabelecer com outros blocos linguísticos e culturais de que a eleição de António Guterres para as Nações Unidas é um excelente exemplo".

A primeira versão da proposta da declaração ficará concluída até final deste mês, ficando depois, durante três meses, em discussão internacional.

"Vamos receber os contributos dessas reflexões dos vários países e das várias culturas e civilizações e tencionamos em abril fazer uma proposta já mais formalizada aos órgãos competentes da UNESCO para que ao longo do ano possa ir a votação na Assembleia Geral", salientou.

Rui Nunes disse ainda à Lusa estar a "estabelecer contactos" para convidar a jovem paquistanesa, Prémio Nobel da Paz, Malala Yousafza, conhecida pelo seu papel de ativista pela educação, para ser a embaixadora internacional deste projeto.

"É evidente que se esta personagem tão jovem, mas já um símbolo tão grande para a humanidade aceitasse seria uma enorme vitória, quase que antecipada, para este projeto", disse.

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