Mandato começa em 1 de janeiro.
O mandato de António Guterres como secretário-geral das Nações Unidas, que começa em 01 de janeiro, já está a ser marcado pela hostilidade entre a organização e o próximo presidente dos Estados Unidos, Donald J. Trump.
"Trump é imprevisível, mas será certamente uma ameaça para as Nações Unidas", disse à Lusa o professor da Universidade de Nova Iorque e especialista em ONU Richard Gowan.
Na sexta-feira, o Conselho de Segurança votou uma resolução que exigia o fim "imediato" da política israelita de construção de colonatos em Jerusalém oriental e nos territórios ocupados da Cisjordânia.
Os Estados Unidos abstiveram-se na votação da resolução, o que permitiu a sua aprovação, uma posição que gerou a ira de Telavive e a condenação do próximo presidente dos EUA.
"Não podemos continuar a deixar que Israel seja tratado com um total desprezo e com tal desrespeito", escreveu Trump no Twitter.
Dias depois, acrescentou que "a ONU tem um grande potencial, mas neste momento é apenas um clube para as pessoas se juntarem, falarem e passarem um bom bocado. Triste."
No seguimento do voto da semana passada, alguns republicanos, como os senadores Lindsey Graham e Ted Cruz, sugeriram mesmo que os Estados Unidos, que contribuem com 22% do orçamento da ONU, cortassem o seu apoio financeiro à organização.
"Há muitos dirigentes republicanos que não confiam na ONU. Trump pode conseguir muito crédito junto do seu próprio partido se atacar a ONU de forma dura e rapidamente", explica Gowan.
Richard Gowan, que é também investigador do Conselho Europeu para as Relações Internacionais, diz que "é por isso bastante provável que Trump seja muito duro na defesa de Israel no Conselho de Segurança" e que "também pode tentar travar o sucesso da ONU em outras áreas, como no Acordo Climático de Paris."
A 12 de dezembro, no dia em que fez o seu juramento sobre a Carta das Nações Unidas, António Guterres disse que "o fundamental é ter um discurso muito aberto e muito franco, tendo em conta que os interesses dos Estados Unidos, que lhes compete defender, podem ser compatibilizados com os interesses globais que as Nações Unidas se propõem defender."
"Devemos ter um espírito aberto e procurar fazer tudo para que sejam encontrados os consensos indispensáveis a fazer avançar objetivos tão importantes como ter um controlo sobre as alterações climáticas", afirmou António Guterres.
A primeira decisão efetiva de Trump em relação à ONU foi a nomeação de uma nova embaixadora, Nikki Haley, que era governadora da Carolina do Sul e vai substituir Samantha Power, que fora nomeada por Barack Obama.
Guterres terá de lidar com a nova embaixadora, que, diz Richard Gowan, "é talentosa, mas não faz parte do círculo chegado de Trump" e que por isso "as verdadeiras decisões em relação à ONU virão sempre da Casa Branca."
Donald Trump e António Guterres ainda não se encontraram pessoalmente, mas as duas equipas de transição têm estado em contato para preparar os respetivos mandatos.
"Guterres pode nunca vir a ser bom amigo de Trump, mas terão de encontrar alguma forma de cooperar. Trump pode precisar da ONU para liderar a reconstrução da Síria no pós-guerra, por exemplo, e isso pode ser a base para uma relação que funcione", concluiu Gowan.
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