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Norueguês cria espaço só dedicado ao "Livro do Desassossego"

Christian Kjelstrup criou a "Livraria do Desassossego" por paixão a Pessoa. Fez do livro que dá nome ao espaço temporário 'best-seller' na Noruega: numa semana vendeu 1600 exemplares. Está instalada no Chiado, no n.º 11 da rua da Anchieta, só até este domingo.

05 de julho de 2014 às 16:24

Norueguês cria Livraria do Desassossego em homenagem a Pessoa

"Desço uma rua irreal da Baixa e a realidade das vidas que não são ata-me, com carinho, a cabeça num trapo branco de reminiscências falsas. Sou navegador num desconhecimento de mim." - Bernardo Soares, 'Livro do Desassossego' (excerto)

É precisamente na Baixa de Fernando Pessoa, aliás, de Bernardo Soares, que se encontra a "Livraria do Desassossego". Na loja A Vida Portuguesa, no n.º 11 da Rua da Anchieta, o norueguês Christian Kjelstrup tem uma livraria ‘pop-up' (temporária) inteiramente dedicada ao semi-heterónimo de Pessoa, onde só se vende um único livro: "O Livro do Desassossego".

A "Livraria do Desassossego" é um conceito criado pelo estudioso de literatura russa, que na Noruega descobriu Pessoa e imediatamente se apaixonou pelo escritor português.

"Não me lembro quando li Fernando Pessoa pela primeira vez", conta Kjelstrup ao Correio da Manhã. "Lembro-me que fui completamente engolido. A escrita é tão refinada, a linguagem tão bela. Pessoa é daqueles autores que nos fazem reconhecer: jamais conseguiria pensar (quanto mais escrever) isto", afirma.

PRINCESA FÃ DE PESSOA

A primeira experiência da "Livraria do Desassossego" teve lugar em Oslo, capital da Noruega, em março último. Christian Kjelstrup alugou uma pequena loja naquela cidade durante uma semana e fez do "Livro do Desassossego" 'best-seller'. "No primeiro dia vendi 50 exemplares. No dia seguinte, como apareci num noticiário, já vendi 230. No terceiro dia os príncipes da Noruega apareceram na 'livraria'. A princesa nunca tinha ouvido falar de Pessoa, quanto mais do ‘Livro do Desassossego', apesar de ser uma leitora ávida. Comprou, leu e hoje é fã", explica um Kjelstrup orgulhoso.

No final da iniciativa tinha vendido 1600 livros. O espaço daquela loja, também temporária, tornava-se pequeno para a afluência e o interesse dos leitores noruegueses. Organizou uma sessão de leitura do livro do semi-heterónimo de Pessoa num estádio para mais de 700 pessoas.

"A personagem que ele [Pessoa] criou é fascinante. Bernardo Soares agita-nos a cabeça e o espírito; lê-se e pensa-se ‘Mas eu posso pensar mais? Posso sentir mais? Posso fazer mais?' Para mim, é o melhor livro do mundo", considera.

RECEITAS PARA PROJETO SOLIDÁRIO

Christian Kjelstrup, literalmente, "veste a camisola". No espaço da "Livraria do Desassossego" mostrou ao CM a sua coleção: T-shirts, pins, cartazes gigantes, uma gravata, várias edições de obras de Pessoa e sobre Pessoa. As receitas de venda dos livros vão para um projeto de solidariedade que pretende levar crianças portuguesas carenciadas à Noruega.

Até este domingo, Kjelstrup convida todos a visitarem a sua "livraria". Para homenagear o trabalho de divulgação da cultura portuguesa e da literatura pessoana que o norueguês tem feito, a Casa Fernando Pessoa vai organizar, nesse mesmo dia, uma sessão de leitura de excertos do "Livro do Desassossego". Maria do Céu Guerra e Diogo Infante vão dar voz às reflexões de Bernardo Soares, a partir das 20h30. Rogério Godinho, Mafalda Arnauth e João Afonso vão cantar fados inspirados por Pessoa, num evento de entrada livre.

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