João Bento considera que hoje os CTT têm uma “definição estratégica clara”. Faz o benchmark com a Correos espanhola. “Neste período em que estou nos CTT, a Correos perdeu mais de 2.500 milhões de euros. Mesmo com a devida proporção, teria sido insustentável para os CTT. Hoje somos um operador logístico e de comércio eletrónico ibérico”
“Hoje não somos um operador postal, somos um operador de logística e de comércio eletrónico”, afirmou João Bento, CEO dos CTT desde 2019, no programa Economia Sem Fronteiras, do canal Now. Neste período em que os CTT estão sob a sua gestão, deu-se uma profunda transformação estratégica da empresa.
Entre 2018 e 2025, as receitas dos CTT cresceram mais de 80%, aproximando-se dos 1.300 milhões de euros, o que representa “um crescimento de receita constante, mas com um perfil muito diferente”. A do correio decresceu de 550 para 515 milhões neste período. Mas, se em 2018 o correio representava quase 80% da receita, em 2025 passou a pesar apenas 40% da receita. Salienta ainda que “o correio tradicional representava 145% da nossa margem em 2018 e agora representa apenas 23%”.
Segundo João Bento, o crescimento vertiginoso das receitas está relacionado com as “soluções de comércio eletrónico”, a área que agrega o correio expresso e as encomendas. “As receitas mais do que quadruplicaram. Partimos de 140 milhões de euros para mais de 630 milhões de euros. Em termos relativos, passaram de 20 para quase 50%”, esclarece João Bento. Para esta mudança também contribuiu o Banco CTT, que tinha sido criado em 2016. Em 2018 representava apenas 2% da receita, com 14 milhões de euros. Hoje vale 11% da receita e 23% do lucro operacional, e tem mais de 800 mil clientes, a que se somam mais 100 mil da 321 Crédito.
Para esta transformação estrutural dos CTT contribuíram as soluções de comércio eletrónico e de correio expresso, sustentadas por uma rede de 77 centros de tratamento na Península Ibérica, com entregas no dia seguinte de qualquer ponto para qualquer ponto. “Os dados que temos de mercado indicam a melhor qualidade do mercado”, refere João Bento. Na Península Ibérica, os CTT têm uma estratégia diferenciada da dos seus concorrentes. Os CTT estão presentes em toda a cadeia de valor, desde o desalfandegamento até à entrega, passando pelo armazenamento, preparação e gestão de devoluções.
O processo de mudança estrutural passa também por uma maior intensidade tecnológica e digital. “O que fazemos assenta muito em sistemas, em tecnologia, robótica, automação, dados e, agora, com a incontornável inteligência artificial”, afirma João Bento. Os números refletem a eficiência operacional. O número de trabalhadores passou os 14 mil, mais 16% do que em 2018, mas a receita cresceu 80%.
João Bento lembra que, com as aquisições da tecnológica NewSpring Services, que reforçou a divisão de engenharia nos CTT, e da Cacesa, em 2024, entraram para os CTT várias centenas de pessoas. A opção foi “aproveitar a capacidade disponível que resultava da queda do correio para a entrega de encomendas”. “Hoje temos muita eficiência na nossa operação, em parte também porque conseguimos reaproveitar as pessoas que tínhamos para entregar o correio, que hoje estão nas encomendas”, garante.
O plano 2026-2028 aponta para a liderança ibérica em logística de e-commerce. João Bento acredita que, seja qual for o nível de fragmentação da economia global, o comércio eletrónico vai continuar a crescer, porque está associado a uma alteração de comportamentos sociais. Salienta que “Portugal e Espanha estão muito atrás da média europeia e, portanto, temos um tailwind, temos um vento de retaguarda favorável, porque o comércio eletrónico vai crescer”.
Em abril, João Bento deixa o cargo de CEO dos CTT, empresa que lidera desde 2019, e será substituído por Guy Pacheco, atual CFO.
Com a criação do Banco CTT, num passo de diversificação dado por Francisco Lacerda, o CEO que João Bento substituiu em 2019, “foi a primeira vez que os CTT começaram a fazer algo bastante diferente do que faziam”. “Havia uma tradição de colocação de dívida pública no retalho, as pessoas acostumaram-se a ir aos CTT para as suas poupanças, mas é muito diferente de ter um banco”, explicou João Bento. Frisa que “é uma história de crescimento da base de clientes que não tem precedentes em Portugal, é o banco que mais cresce e é rentável”.
O banco é um dos principais clientes da rede de retalho dos CTT, que é a maior do país, com 570 lojas, mais 1.800 agentes e mais 5.000 agentes pay shop. Mas, para João Bento, “não precisamos de ser o acionista maioritário de um banco de retalho para todo o sempre e, no limite, podemos não ser acionistas”.
O plano de médio prazo do Banco CTT estabelece como objetivo tornar-se o maior dos bancos médios em Portugal, mas sem necessidade de recorrer a mais capital dos acionistas. Os CTT querem afetar o capital ao negócio core, que é a operação logística. Mas João Bento admite crescer em parceria, se houver oportunidades. Dá o exemplo da Generali Tranquilidade, que é acionista minoritária do Banco CTT e um dos principais clientes da sua rede de retalho.
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