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Portugal precisa de cinco mil engenheiros civis nos próximos dez anos

Há falta de engenheiros civis para executar os grandes investimentos em infraestruturas previstos para a próxima década. O país enfrenta um problema de recursos humanos que não se resolve apenas com o lançamento de obras ou a disponibilização de financiamento, mostra Fernando de Almeida Santos

20 de outubro de 2026 às 12:25

“Se não tivéssemos obras novas, trabalhos novos ou infraestruturas novas, precisaríamos apenas de repor o mínimo indispensável, que seria de cerca de 500 engenheiros por ano. Estamos a formar 300, ou seja, nem sequer conseguimos assegurar essa reposição”, alerta Fernando de Almeida Santos, bastonário da Ordem dos Engenheiros, em entrevista a Miguel Frasquilho, anfitrião do programa Economia Sem Fronteiras do canal NOW. Perante o volume de investimentos previsto, “se fizermos as coisas ao longo de dez a 15 anos, precisamos de formar, no mínimo, 800 engenheiros civis por ano. Estamos muito longe desse número”.

O problema tem raízes na crise económica de 2011–2015, que reduziu a procura de engenheiros civis e contribuiu para tornar a profissão menos atrativa para os jovens. A quebra na construção teve consequências que ultrapassaram o período de contração económica. As escolas de engenharia, que chegaram a formar cerca de mil engenheiros civis por ano, passaram a disponibilizar um número muito inferior de diplomados. As áreas tecnológicas, a informática e a cibersegurança apresentam necessidades próprias, num contexto no qual a modernização da construção exige também competências digitais, considera Fernando de Almeida Santos.

Bastonário desde 2022, acrescenta que “temos de olhar para as várias dimensões da engenharia. A engenharia informática, a cibersegurança e a ciberdefesa têm carências diferentes das da engenharia civil, mas são áreas complementares. Se pensarmos que a modernização da construção exige construção digital, percebemos que também precisamos desses novos tipos de engenheiros”.

Para Fernando de Almeida Santos, é necessário atrair mais jovens para os cursos de engenharia. Refere que um dos principais obstáculos à atração de estudantes para a engenharia é que “ser um grande arquiteto ou um grande médico funciona do ponto de vista individual; um grande engenheiro esfuma-se um pouco num conceito de equipa e já não é tão distinguível individualmente”. Além disso, “a criação de novas engenharias nas áreas tecnológicas, aeronáuticas, que os mais novos gostam mais, tudo isso fez com que houvesse essa diminuição nas engenharias clássicas”, explicou.

Fuga de talento

Considera que seria de evitar que os recém-diplomados em engenharia optem pela consultoria e não sigam a engenharia, o que é “uma fuga de talento para dentro de Portugal, mas para fora da engenharia, é uma questão que também cria alguma complicação”. Defende ainda a criação de condições para que os portugueses que emigraram regressem ao país e, ainda, a captação de talento estrangeiro para responder às necessidades das empresas e dos projetos nacionais.

A emigração de engenheiros portugueses dirige-se sobretudo para países desenvolvidos do Norte da Europa, incluindo os países escandinavos, mas também para a Europa Ocidental e os Estados Unidos, sobretudo nas novas tecnologias e na aeronáutica, mas também nas áreas tradicionais, uma vez que têm falta de engenheiros. A qualidade da formação, o domínio do inglês e a procura internacional tornam os profissionais portugueses competitivos. O problema está na capacidade de Portugal para os reter.

“Somos favoráveis à internacionalização da engenharia portuguesa. Os nossos engenheiros podem trabalhar lá fora ligados às capacidades e às empresas portuguesas. Isso é completamente diferente de irem trabalhar para o estrangeiro e beneficiarem exclusivamente aquele país, porque, dessa forma, também criamos riqueza para Portugal”, defendeu Fernando de Almeida Santos.

“Do ponto de vista da retenção de talento, temos de ser muito mais assertivos”, defende. Fernando de Almeida Santos considera que as políticas públicas devem inverter a lógica atual. Em vez de assistir ao recrutamento de profissionais portugueses por outros países, Portugal deve desenvolver uma estratégia para atrair os seus engenheiros emigrados e captar profissionais no estrangeiro. Assinalou que, com as atuais “políticas públicas, este ano, já regressaram 70 mil pessoas a Portugal, mas não sabemos quantos são engenheiros”.

A Ordem dos Engenheiros tem procurado contribuir para esse objetivo mediante instrumentos de ligação à diáspora, como a aplicação “Engenheiros pelo Mundo”, e de protocolos de reconhecimento profissional com organizações congéneres de mais de 20 países, incluindo Angola, Reino Unido, Brasil, Espanha e Holanda. A instituição procura também promover a mobilidade internacional dos engenheiros portugueses, desde que esta possa gerar benefícios para a economia nacional.

A fusão das ordens de engenharia

“O nosso grande objetivo para o segundo mandato é a fusão por incorporação da Ordem dos Engenheiros Técnicos, e chegamos aos cerca de 85 mil engenheiros, inscritos na ordem”, afirmou Fernando de Almeida Santos, bastonário da Ordem dos Engenheiros desde 2022. Considera que esta é uma “reforma estrutural para a engenharia falar uma só voz e estou convencido de que vamos conseguir. Já fizemos tudo o que tínhamos de fazer, já está no Ministério e no Parlamento”.

Fernando de Almeida Santos é licenciado em Engenharia Civil pela Universidade do Minho desde 1991, e está no seu segundo mandato como bastonário da Ordem dos Engenheiros, ligação que começou em 1997 como delegado adjunto em Braga. Foi vice-presidente nacional da Ordem entre 2016 e 2022, ano em que foi eleito bastonário pela primeira vez. Em 2025 foi reeleito para o seu segundo mandato até 2028.  

Salientou que a Ordem dos Engenheiros aproveitou as mudanças de estatutos das ordens profissionais impostas pelo governo para criar valor. “Criamos novos colégios, novas especializações, principalmente nas áreas tecnológicas”. Além disso, foram criados atos e competências dos engenheiros, “que não existiam”, concluiu Fernando de Almeida Santos.

 

 

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