A empresa nasceu exportadora e produziu pela primeira vez, em 1971, para o Saab 96, da marca sueca. Em 2015 entrou no mercado chinês, onde hoje tem uma joint venture industrial, à qual somou outra nos EUA em 2025
A TMG Automotive trabalha no segmento de interiores de alto desempenho, que são os interiores técnicos, feitos em materiais compósitos, na sua maioria derivados de polímeros, que diferem do têxtil tradicional. Trata-se, nomeadamente, de componentes flexíveis e macios no interior do automóvel, como os painéis de instrumentos, de portas, pilares, e consolas centrais.
“Somos o que se chama o Tier 2, ou seja, transformadores de polímeros. Recebemos matérias-primas químicas e têxteis, transformamos esses polímeros e entregamos aos integradores que produzem os assentos e os tabliers dos automóveis, que são os Tier 1, antes de seguirem para a linha de montagem”, explica Isabel Furtado, CEO da TMG Automotive, a Miguel Frasquilho, anfitrião do programa Economia Sem Fronteiras, do canal Now.
A TMG Automotive diferencia-se do têxtil tradicional, onde a Têxtil Manuel Gonçalves nasceu em 1937, por trabalhar com “artigos altamente técnicos, com um alto grau de inovação incorporada, para além da parte estética. Por exemplo, o painel de instrumentos tem que abrir o airbag no lugar certo por uma questão de segurança”. Por isso, trabalha com as OEM (Original Equipment Manufacturer), os fabricantes de equipamentos, de forma muito próxima desde a fase inicial de desenvolvimento de um novo modelo, processo que normalmente demora cerca de três anos até chegar ao mercado. “Temos uma estreita ligação com os fabricantes automóveis. Além de ser pensado antecipadamente, tem que haver muito trabalho em conjunto”, refere Isabel Furtado.
Na prática, a empresa exporta a totalidade da sua produção porque os 2,5% que ficam em Portugal “acabam por ser confeccionados em Portugal e exportados. Temos linhas de montagem mas não temos fabricantes. Somos obrigatoriamente exportadores”, reconhece Isabel Furtado. Sublinha que a TMG Automotive já nasceu exportadora e produziu pela primeira vez para a indústria automóvel em 1971, para o modelo da marca sueca Saab 96.
A Europa é o principal mercado, representando mais de 60% da produção, ainda que a Ásia e a América (EUA e México) estejam a ganhar relevância, sobretudo no processo de internacionalização. A empresa está presente em Xangai desde 2015, inicialmente através de uma parceria comercial, que evoluiu, em 2020, para uma joint venture industrial em Ningbo, denominada HaMinJi (Ha de Haartz, Min de Min e Ji de TMG). Em 2025, foi lançado um novo projeto industrial na Carolina do Norte (EUA), em parceria com a empresa Haartz.
“No caso da China, acompanhámos os nossos clientes, fabricantes de automóveis europeus. Nos Estados Unidos, fomos para um mercado muito apetecível, que tem grandes oportunidades de crescimento”, afirma Isabel Furtado. Adianta ainda que “trabalhamos em duas tecnologias na TMG Automotive e só há duas empresas na Europa a fazê-lo, nós e um concorrente alemão. Os nossos parceiros americanos só trabalham numa das tecnologias. Vamos introduzir nos Estados Unidos uma das nossas outras tecnologias e ficamos, juntamente com a Haartz, um player internacional, com capacidade para fornecer globalmente qualquer marca de automóvel”.
Entre 2019 e 2025, o número de trabalhadores total passou de 593 para 741, um crescimento de 25%. Já o número de colaboradores com ensino superior aumentou 55% e passou de 19% do total para 24%, em áreas como a engenharia, ciência de materiais, inovação, gestão industrial. Segundo Isabel Furtado, esta aposta em trabalho qualificado está relacionada com o crescimento produtivo fora de Portugal e nestes números não está incluída a empresa na China, que já facturou 40 milhões. Mas explica que mantiveram em Portugal “todas as competências críticas como o desenvolvimento, a conceção, a formulação, as receitas, a engenharia dos materiais, a engenharia química, as manutenções. Como é óbvio, precisamos de mão de obra altamente qualificada”.
“Se há uma indústria que tem revolucionado, é a indústria automóvel, que hoje em dia tem mais patentes que a indústria farmacêutica. Também é uma indústria altamente escrutinada, do ponto de vista de desempenho, de segurança e até de sustentabilidade”, sublinhou Isabel Furtado, referindo-se aos seus desafios, que vão das tendências globais da mobilidade, desde a eletrificação, os novos materiais, exigências ambientais, até às cadeias de valor cada vez mais regionalizadas.
Isabel Furtado deu como exemplo que a eletrificação implica que se fabriquem materiais mais leves. O próprio carsharing exige materiais mais resistentes, mais fáceis de higienizar, mais autorreparadores e mais sustentáveis. “Não só fazer os LCA (Life Cycle Assessment) dos produtos, mas também apresentar no mercado biopolímeros, materiais reciclados, grande incorporação do desmantelamento anterior, economia circular. Tudo feito com uma grande pressão”.
Isabel Furtado defendeu que Portugal tem o mais importante e o essencial, que são o “talento, o conhecimento, as universidades, os centros de tecnologia e de conhecimento, uma belíssima capacidade industrial e a resiliência”. Na sua opinião, os grandes problemas de Portugal estão na escala, na desvalorização da indústria e na atitude perante as grandes empresas. “Temos a tendência de diabolizar a grande empresa, que é a que investe, investiga e paga melhor, e qualquer grande empresa em Portugal é pequena num país desenvolvido”. Considera ainda que “o ecossistema de Portugal não valoriza o tecido produtivo. Temos de mudar essa mentalidade, criar estabilidade e ser menos burocráticos”.
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