David Hockney, o mestre da cor que revolucionou a pintura moderna

Obras emblemáticas do pintor entraram na cultura popular, como é o caso de "A Bigger Splash" (1967), com o salpico na piscina de uma vivenda californiana banhada pelo sol, símbolo de prazer e de sensualidade.

12 de junho de 2026 às 13:24
O artista britânico David Hockney Foto: Getty Images
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Um dos artistas mais influentes dos séculos XX e XXI, David Hockney, que morreu na quinta-feira, em Londres, aos 88 anos, deixa uma obra gigantesca e vibrante de cores, que vai das paisagens verdejantes da sua Inglaterra natal às piscinas da Califórnia.

Figura do movimento 'pop art' dos anos 1960, o artista britânico destacou-se pela capacidade de se renovar, dominando as técnicas académicas antes de se apropriar das novas tecnologias, com as suas obras criadas através de um iPad, realizadas já depois de ter completado 70 anos.

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Esta inventividade esteve no centro da maior exposição que alguma vez lhe foi dedicada, em 2025, na Fundação Louis Vuitton, em Paris, um evento no qual David Hockney se envolveu profundamente, segundo entrevistas da altura.

Risonho e malicioso por trás dos seus célebres óculos redondos, este "fumador feliz", avesso a "lições de moral", mostrava-se maravilhado em abril de 2025 por ter conseguido inaugurar o evento, apesar dos seus problemas de saúde, relata a AFP sobre o momento da abertura da exposição.

As suas obras emblemáticas, com cores audazes e uma perspetiva original, entraram na cultura popular, como é o caso de "A Bigger Splash" (1967), com o salpico na piscina de uma vivenda californiana banhada pelo sol, símbolo de prazer e de sensualidade.

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Hockney era um dos artistas mais cotados do mercado de arte, tendo sido arrematada por 90,3 milhões de dólares em 2018, em Nova Iorque, uma das suas telas, "Portrait of an Artist (Pool with two figures)", que se tornou, na altura, a obra de um artista vivo mais cara alguma vez vendida em leilão, um recorde entretanto superado pelo coelho do escultor norte-americano Jeff Koons.

Nascido a 09 de julho de 1937, em Bradford, no nordeste de Inglaterra, no seio de uma família modesta, Hockney teve de enfrentar os preconceitos da Inglaterra do pós-guerra, percebendo muito cedo que era homossexual e que queria ser artista.

Na adolescência, enquanto bolseiro na Bradford Grammar, recusou-se a estudar qualquer outra disciplina que não fosse arte.

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"Não tenho jeito para ciências, mas sei desenhar", escreveu Hockney num exame. Era popular, engraçado e o pesadelo dos seus professores, recorda a BBC News, citando o relatório de um deles: "Ele devia perceber que o entusiasmo pela arte, por si só, não basta para fazer carreira", escreveu.

Aos 16 anos, foi-lhe permitido ingressar na escola de arte, onde apareceu com um fato às riscas e um chapéu de coco.

Objetor de consciência, tal como o seu pai, o jovem cumpriu o serviço militar como enfermeiro antes de ingressar no prestigiado London's Royal College of Art, em 1959.

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A aparência de Hockney podia ser extravagante, mas a sua ética de trabalho era protestante. Durante 12 horas por dia, trabalhava freneticamente no seu cavalete.

A certa altura, a sua pintura "Doll Boy" --- uma referência à sua atração pelo cantor pop Cliff Richard --- despertou a atenção do negociante de arte John Kasmin.

"Enviei-lhe uma carta para o Royal College of Art, onde ele estudava, a convidá-lo para tomar chá", recordava Kasmin em 2013, numa entrevista em que contou como conheceu o artista: "Ele tinha o cabelo preto cortado à escovinha, óculos do serviço nacional de saúde, era terrivelmente tímido e muito pobre".

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Pouco tempo após receber o diploma, Hockney expôs individualmente pela primeira vez na galeria de Kasmin e começou a fazer o seu caminho no mundo da arte, criando reputação com a sua expressão original.

Instalou-se na Califórnia em 1964 e começou a pintar as paisagens vivas e luminosas que o projetaram como uma das figuras da 'pop art', nomeadamente através das séries de piscinas.

No final dos anos 60, "já não restava qualquer vestígio de timidez nele", contava Kasmin: "Já era uma estrela, viajava pelo mundo inteiro, convivia com a alta sociedade e hospedava-se em grandes hotéis".

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Apesar de frequentar assiduamente a alta sociedade, Hockney preferia dedicar-se ao trabalho: "Não me importo que me vejam assim [em festas], mas, na verdade, sou um trabalhador. Um artista pode ser favorável ao hedonismo, mas não pode ser ele próprio um hedonista", dizia o pintor ao jornal The Guardian em 2015.

Hockney viajou entre o sul de França, Marrocos, Londres, Nova Iorque e Los Angeles, pintou retratos dos seus amigos designers, bailarinos e artistas, mas também da sua família e dos seus amantes, frequentemente representados em situações do quotidiano.

Além da pintura e do desenho, Hockney criou cenários de teatro e gravuras. Nos anos 80, experimentou a fotografia, mas como achava o ponto de vista da lente demasiado estreito e "ciclópico", criou montagens com centenas de fotografias diferentes para reconstruir uma única imagem, oferecendo uma visão lateral e periférica.

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Durante a década seguinte, Hockney regressou regularmente ao seu Yorkshire natal para ficar perto da sua mãe e, como as visitas se tornavam mais longas, começou a pintar a paisagem circundante, reinventando-se como pintor paisagista.

Os seus quadros remetiam, por vezes, para o fauvismo, para Cézanne e para Van Gogh, segundo a crítica de arte.

Entusiasta das novas tecnologias, utilizou a Polaroid e o vídeo antes de adotar o iPad. As suas obras criadas através do tablet foram alvo de várias exposições.

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Hockney dizia que só pintava pessoas que conhecia bem, principal razão pela qual recusou, por diversas vezes, fazer o retrato da Rainha Isabel II, explicou, certa vez, ao jornal britânico The Times.

Para lá dos seus emblemáticos óculos, usava frequentemente boina ou boné e distinguia-se pelo seu sentido de estilo, injetando apontamentos de cores vivas em peças clássicas do guarda-roupa masculino.

Hockney começou a sofrer de surdez a partir dos quarenta anos, uma condição herdada do pai, e sofreu um pequeno AVC em 2012. Em 2019, mudou-se para a Normandia, tendo regressado a Londres em julho de 2023, para passar a residir na capital britânica.

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O comunicado esta sexta-feira divulgado pela sua agente, Erica Bolton, adianta que Hockney "morreu pacificamente, em casa, a 11 de junho, um mês antes do seu 89.º aniversário".

Em 1985, o Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto, e a Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, mostraram a produção fotográfica do artista na exposição "David Hockney Fotógrafo", que reunia 101 grandes montagens, produzidas entre 1968 e 1984, com páginas de álbuns, ´polaroids´ e colagens.

A primeira apresentação de David Hockney em Portugal, na Gulbenkian, data de 1977, com a exposição "David Hockney. Gravura e Desenho", seguida de "The Rake's Progress", em 1984, que combinava ciclos satíricos de obras de Hockney e de William Hogarth (1697-1764).

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A coleção de arte contemporânea da Gulbenkian possui obras do artista como "Renaissance Head", "Pigs escaping from a hot dog machine" e "Figure in Helmet and Cloak".

Outras obras de Hockney foram expostas em Portugal, sobretudo em mostras coletivas, desde a sua presença na Coleção Berardo, à exposição "Canção Contemporânea -- Obras da Coleção Mário Teixeira da Silva na Coleção de Serralves", onde surgiu a par dos portugueses Helena Almeida, Paula Rego e Julião Sarmento, entre outros artistas.

Livros do artista como "Secret Knowledge - Rediscovering the lost techniques of the old masters" e "História da Imagem", em colaboração com Martin Gayford e Rose Blake (obra pensada para crianças, editada em Portugal pela Edicare), testemunham a reflexão de David Hockney sobre arte e a pintura, em particular, como expressão da humanidade.

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Hockney "deixa o seu companheiro de longa data, Jean-Pierre Gonçalves de Lima, o seu sobrinho-neto Richard, que trabalhou como seu assistente de estúdio nos últimos anos de vida, os seus irmãos Philip e John, assim como muitos sobrinhos, sobrinhas, sobrinhos-netos e sobrinhas-netas", conclui o comunicado divulgado pela sua agente.

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