E OS NUS SAIRAM À RUA
Duas ruas e um largo da cidade de Santa Maria da Feira serviram de cenário às quatro objectivas de Spencer Tunick, o célebre fotógrafo nova-iorquino que ontem deu largas à sua imaginação e talento ao captar um conjunto de trezentas pessoas nuas.
Bem cedo, precisamente às 06h30 da manhã, é que Spencer deu a conhecer os locais do seu trabalho aos jornalistas e participantes, estes com idades entre os 20 e os 60 anos, a quem explicou a forma como iriam ser fotografados, na primeira sessão deitados de bruços e cabeça encostada ao solo.
O madrugar tinha no entanto uma razão de ser. É que Spencer Tunick quis fazer o seu trabalho longe dos olhares dos residentes de Santa Maria da Feira, uma pequena cidade de 10 mil habitantes, que àquela hora ainda dormiam.
Explicados os preliminares, os participantes despiram-se e imobilizaram-se deitados durante dez minutos ao longo da Rua Dr. Elísio de Castro, o primeiro local escolhido por Spencer. Seguiu-se o Largo Gaspar Moreira, o segundo espaço eleito pelo fotógrafo, onde as pessoas posaram, desta feita sentadas numa escadaria.
A terceira sessão de fotografias decorreu alguns metros adiante, no largo fronteiriço às antigas instalações da autarquia, onde os participantes se juntaram em redor de uma fonte.
SURPREENDIDO
No final do trabalho, Spencer Tunick, que aposta numa “nudez do corpo metamorfoseada com o meio envolvente” estava surpreendido com a adesão de tanta gente.
“Desde que comecei a desenvolver o meu trabalho parti sempre da ideia de que o tinha de partilhar com os outros. Daí já ter realizado sessões como esta em cerca de 30 países, e, curiosamente em Melbourne, Austrália, onde reuni 4500 pessoas, e em Barcelona, onde bati o meu recorde, com cerca de 7 mil pessoas”, disse Spencer Tunick.
Os aspectos legais da iniciativa foram devidamente acautelados. Embora algumas vozes discordantes dissessem que a iniciativa era ilegal, a organização do evento foi autorizada por diversas entidades oficiais, já que não havia atentado ao pudor, como esclareceu o subintendente António Bagina, comandante distrital da PSP de Aveiro: “Os moradores foram esclarecidos, deram o seu consentimento, e as entradas foram controladas”, disse.
"EXPERIÊNCIA INTERESSANTE"
Um dos participantes mais notado, e aplaudido, foi Agostinho Sousa, arquitecto, que ousou posar com a sua pequena filha Luísa, de apenas dois anos. “Ela teve um pouco de frio na primeira sessão, depois divertiu-se. Foi uma experiência interessante. Daqui a vinte anos a minha filha recordará o momento e dirá que tem um pai muito tolo”.
Também Natasha Santos, de 25 anos, desempregada vinda de Setúbal, comentou que “desde que conheço o trabalho dele pensei que se um dia ele viesse a Portugal, participaria”.
Satisfeito estava também o jovem Ricardo Carvalho, do Porto. “Adoro a arte dele. Considero-a inédita, arrojada, expressiva e liberta de preconceitos”.
"ESTAMOS NO FIM DO MUNDO"
“Nunca pensei em toda a minha vida ver semelhante coisa. Estamos no fim do mundo”, estas as palavras de Manuel Pinto, de 68 anos, surpreso quando viu as pessoas nuas.
De olhar atento e discordante estava Isaura Soares, de 37 anos, residente em Santa Maria da Feira, ao presenciar a segunda sessão de fotografias.
“Mesmo sendo arte, como dizem, os portugueses não estão preparados para este tipo de coisas”.
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