Das fezes enlatadas à escultura de Saddam Hussein amarrado: Dez obras de arte controversas que geraram polémica

Estátua de "David" com genitais à mostra fez com que diretora de escola fosse demitida, mas há vários casos de obras de arte envoltas em polémicas e discussões.

02 de abril de 2023 às 21:12
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A diretora de uma escola da cidade de Tallahassee, no estado norte-americano da Flórida, foi forçada a demitir-se, há cerca de duas semanas, depois de alguns pais alegarem que os filhos, alunos do sexto ano, tinham sido expostos a pornografia quando lhes foram mostradas fotografias da estátua de "David", do artista Miguel Ângelo.

De acordo com a BBC, várias pessoas de todo o mundo ficaram surpreendidas com o caso, o que proporciona uma oportunidade para se refletir sobre quais as obras na história moderna, que sendo consideradas chocantes, mudaram a forma como se pensa a arte.

A obra de Miguel Ângelo, que se acredita ter sido esculpida em 1504, chegou a estar coberta com folhas de figueira no órgão genital. Foi apenas em meados do século XX que as folhas foram retiradas.

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FOTO: Reuters/ Tony Gentile
Estátua de David, do artista Miguel Ângelo
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A BBC elaborou uma lista com as dez obras que se tornaram mediáticas por terem chocado a sociedade, mas ajudaram a redefinir a própria essência da arte.

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FOTO: Marc Quinn
Marc Quinn, Self, 1991
FOTO: DIREITOS RESERVADOS

Marc Quinn, "Self" (1991)

O artista britânico Marc Quinn utilizou o próprio sangue para fazer cinco moldes do rosto, em cinco anos diferentes. O processo de criação das obras de arte demorou 20 anos. A primeira obra foi feita em 1991 e a última em 2011.

O autorretrato do artista foi produzido numa altura em que Marc sofria de dependência do álcool, aspeto da sua vida que quis ver representado na obra. A ideia da "dependência" está refletida no facto de também a escultura estar "dependente" da eletricidade para manter a aparência congelada. 

Segundo a BBC, para alguns espectadores, a obra é horrenda e provocadora, mas para outros encarna uma contribuição dolorosa e ousada para a tradição de autorepresentação.

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FOTO: Reuters/ Luke MacGregor
Allen Jones, Chair, 1969
FOTO: Reuters/ Luke MacGregor
Allen Jones, Chair, 1969
FOTO: Reuters/ Luke MacGregor
Allen Jones, Chair, 1969

Allen Jones, "Chair" (1969)

Bengaleiro, mesa e cadeira é uma série de três esculturas eróticas do artista britânico Allen Jones. Foram criadas em 1969 e exibidas pela primeira vez em 1970, gerando alguns protestos de ativistas feministas que as viam como uma objetificação das mulheres. Em março de 1986, Dia Internacional da Mulher, a obra foi atingida com tinta corrosiva por uma dupla de manifestantes.

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FOTO: Twitter
Piero Manzoni, Merda d’Artista, 1961
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Piero Manzoni, "Merda d’Artista" (1961)

Piero Manzoni, artista de vanguarda italiano, decidiu colocar em 90 latas 2700 gramas das próprias fezes. A obra, criada em 1961, pretende ser uma resposta a um comentário do pai, que comparou o trabalho do artista a excrementos. 

As latas, com rótulos em italiano, francês, inglês e alemão, continham informações como o peso, prazo de validade e a data de fabrico do produto.

Em 2016, uma das latas foi vendida em leilão por 275 mil euros.

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FOTO: Twitter
Robert Rauschenberg, Erased de Kooning Drawing, 1953

Robert Rauschenberg "Erased de Kooning Drawing" (1953)


O artista americano Robert Rauschenberg quis desafiar o conceito de arte, que normalmente consiste em adicionar elementos a uma tela, e decidiu reverter o processo ao apagar elementos de um desenho. Robert convenceu o amigo Willem de Kooning a sacrificar uma ilustração.


A BBC descreve o resultado como "um papel limpo de qualquer imagem", desafiando quem observa a decidir se o papel em branco é arte.

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FOTO: Getty/STAN HONDA
Judy Chicago, Dinner Party, 1979
FOTO: Getty/Helen H. Richardson
Judy Chicago, Dinner Party, 1979

Judy Chicago, "Dinner Party" (1979)


Esta obra comemora a contribuição das mulheres para a história cultural. Uma mesa de banquete triangular com 39 lugares, cada um celebrando uma mulher importante da história. A mesa tem cerca de uma dezena de pratos pintados à mão, muitos deles decorados com borboletas e vulvas. Os nomes de 999 mulheres estão inscritos em ouro no chão de azulejos brancos por baixo da mesa triangular.


Segundo o jornal The Guardian, a artista britânica contemporânea Cornelia Parker afirma que a obra "é um pouco deprimente". "Estamos todas reduzidas a vaginas", diz.

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FOTO: Getty/ Robert R. McElroy
Richard Serra, Tilted Arc, 1981
FOTO: Getty/Robert R. McElroy
Richard Serra, Tilted Arc, 1981
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Richard Serra, "Tilted Arc" (1981)


A polémica instalação de arte pública consistia numa placa de aço sólida e inacabada, coberta de ferrugem e com 36 metros de comprimentos e três de altura.


A obra esteve exposta no Foley Federal Plaza, em Manhattan, Nova Iorque, EUA, mas em 1989 foi removida e transportada para um armazém. Aqueles que por ela passavam todos os dias achavam a escultura extremamente perturbadora para as suas rotinas diárias e, no espaço de alguns meses, 1300 funcionários do governo assinaram uma petição para a remoção da obra de arte.


Os críticos concentram-se na feiura, mas os defensores da obra caracterizam-na como um avanço do conceito de escultura.

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FOTO: Twitter
Christo and Jeanne-Claude, Surrounded Islands, 1983

Christo e Jeanne-Claude, "Surrounded Islands" (1983)


Esta é um obra de arte ambiental, criada em 1983. Os artistas Christo e Jeanne-Claude cercaram as 11 ilhas da baía de Biscayne, em Miami, EUA, com tecido rosa. No entanto, vários ambientalistas acabaram por protestar contra a obra, preocupados com o efeito a longo prazo nos habitats dos animais.


O diálogo iniciado após a exibição da obra, que obrigou as autoridades e moradores locais a discutir a fragilidade do ambiente em que viviam, estava entre os objetivos dos artistas.

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FOTO: Reuters/Paul Hackett
Tracey Emin, My Bed, 1998

Tracey Emin, "My Bed" (1998)


A famosa cama desfeita simboliza um episódio depressivo na vida da artista, rodeada por preservativos, lençóis manchados e garrafas de bebidas alcoólicas vazias.


No entanto, várias pessoas ficaram indignadas por a obra da artista estar na exposição do Prémio Turner de 1998. Segundo a BBC, os defensores da obra ficaram surpresos pela forma como uma cama desarrumada conseguiu gerar tanta indignação, com muitos a afirmarem que esta obra mostrava que a arte tinha perdido o rumo.

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FOTO: David Černý
David Černý, Shark, 2005
FOTO: David Černý
David Černý, Shark, 2005
FOTO: David Černý
David Černý, Shark, 2005
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David Cerný, "Shark" (2005)


Enquanto para uns a escultura do ditador iraquiano Saddam Hussein amarrado foi uma peça meramente gráfica, para outros aproximou Saddam do papel de vítima.


A exibição da obra no museu de Middelkerke, na Bélgica, em 2006, acabou por ser cancelada por medo de "que certos grupos achassem a obra muito provocadora".


Segundo o autor, a obra faz referência à escultura do tubarão de Damien Hirst, que gerou polémica e abriu a discussão sobre se é correto matar um animal vivo apenas para o exibir como uma peça de arte. O artista decidiu diferenciar-se de Hirst ao submergir uma escultura de Saddam Hussein, preso por cordas, dentro de um aquário.


"Provavelmente tive a ideia porque estive em Bagdade há um ano como jornalista. Alguns sentimentos surgiram da minha experiência lá. Assim, tentei perceber dentro da escultura os sentimentos subjacentes contra o Iraque naqueles dias e a realidade subjacente de como a semi-ajuda/não ajuda da ocupação americana/não ocupação estava a ser aceite", diz o artista.

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FOTO: Reuters/Charles Platiau
Paul McCarthy, Tree, 2014

Paul McCarthy, "Tree" (2014)

A enorme escultura insuflável do artista americano Paul McCarthy foi erguida no Natal na Place Vendôme, em Paris, França, mas acabou por ser derrubada e esvaziada por vândalos. A obra era muito semelhante a um adereço sexual.

Paul McCarthy chegou mesmo a ser agredido durante uma entrevista ao Le Monde, pouco tempo depois de ter instalado a obra. Um homem perguntou-lhe se era o artista responsável pela criação e, assim que McCarthy confirmou ser o autor, foi agredido três vezes na cara. O agressor colocou-se em fuga.

Vinte minutos depois, o grupo católico Printemps Français escreveu no Twitter: "Um anal plug gigante de 24 metros de altura acaba de ser instalado na Place Vendôme! Place Vendôme desfigurado! Paris humilhado". Este foi um dos primeiros comentários sobre a obra e acabou por desencadear uma onda de críticas na Internet.

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