ESTE DISCO É COMO TER ATRAVESSADO O FOGO
Os Metallica estão de volta, em força, mas radicalmente diferentes. 'St. Anger', o disco, é o testemunho de uma banda mais coesa do que nunca, mas que chegou a ter os dias contados, como confessou ao 'CM' James Hetfield. Num hotel de Madrid, o líder do grupo de S. Francisco falou ainda da saída de Jason Newsted, das dificuldades que teve em voltar a fazer música e revelou que a banda faz-se agora acompanhar de um terapeuta.
Correio da Manhã - 'St. Anger' é um dos passos mais radicais na carreira dos Metallica. Quais as razões que os levaram a tomar esta atitude?
James Hetfield - Nos últimos cinco anos passamos por muitas coisas. Houve mudanças na banda e outras pessoais. Cada álbum é como um diário e este não é diferente. Primeiro foi o conflito com o Napster, depois o Jason saíu, seguiu-se a minha reabilitação. Este disco é como se tivéssemos atravessado o fogo.
- Um renascimento, portanto?
- Basicamente o que fizémos foi deitar abaixo os 'muros' e procurar nos nossos corações: 'porque é que estamos a fazer isto?, do que é que realmente precisamos?' Nós mesmos! Não essa treta de Metallica, a máquina, a besta, o que quer que seja. Quando começámos a pensar nisso tornámo-nos muito mais unidos. Especialmente eu e o Lars, os egomaníacos. Quando descobrimos o caminho a seguir foi imparável. Havia tantas ideias que era impossível não criar.
- Quão diferentes se sentem hoje os Metallica como banda? É como voltar aos primeiros tempos?
- É melhor do que quando começámos. É claro que a música soa melhor e estamos muito satisfeitos por criar deste modo, enérgico e 'live'. 'St. Anger' tem a profundidade musical e especialmente lírica da experiência. Estávamos mais relaxados do que em 'Kill' em All' ('83), quando tínhamos a visão ingénua de conquistar o Mundo, tocar juntos e ser escutados. E agora que conquistámos isso, o que fazemos? É uma espécie de mensagem. É preciso humanizar, especialmente sendo METALLICA. Não temos de fazer sempe álbuns negativos.
- Quer isso dizer que problemas como a luta pelo controlo da banda ou os créditos dos temas estão ultrapassados?
- Nunca estão (risos), mas agora conseguimos vê-los. A comunicação é a chave de qualquer relação e nós levámos 22 anos a descobri-lo, mas nunca é tarde. E foi isso que se passou em estúdio, abdicamos da 'minha parte', como o ter de ser sempre eu a escrever as letras, e fizémos grandes progressos. Ao mostrarmos as nossas fraquezas tornámo-nos mais fortes.
- Quanto tempo passou em reabilitação?
- Foram três meses e, depois disso, mais cinco para sair do 'cocoon'. É preciso sentirmo-nos num ambiente seguro para 'assentarmos'. Acho que voltei a nascer. Sinto-me muito mais confiante.
- Enquanto esteve no 'cocoon' escreveu alguma coisa?
- Decidi não levar guitarra ou qualquer coisa que me lembrasse… tinha umas fotos de família, mas nada que me ligasse aos Metallica. Estava desligado e isso assustou os 'rapazes'. Não me podiam controlar (risos).
- Alguma vez pensou em pôr fim aos Metallica?
- Uhm Uhm (acena afirmativamente). Estivémos à beira do fim. Era uma altura em que pensava que o meu valor enquanto ser humano não dependia dos Metallica. Crescer dentro da banda ofuscou-me a visão da realidade.
- E porque decidiu voltar?
- Bom… Para mim foi o descobrir quem eu era. Sentia que podia sobreviver sem os Metallica. Havia uma parte de mim que tinha medo de não conseguir voltar a este ambiente. Mas lentamente e conversando com a banda - que entendeu o meu problema -, senti que podia voltar a criar com estes tipos. Era como uma missão de resgate.
- As letras reflectem de algum modo essa experiência…
- Começaram a surgir. Sentia uma febre de escrever, mas ao mesmo tempo lembrava-me de tudo o resto…
- Porque teve o Jason de sair?
- Silêncio…Não sei, faz parte dos desígnios do 'Masterplan'. É algo que não conseguimos controlar. Tentámo-lo anos a fio, mas começámos a separarmo- -nos, a procurar escapes. O Lars tinha o lado empresário, eu era o bluesy, com toda a espécie de excessos especialmente na estrada, e o Jason ambicionava um futuro à sua maneira, projectos paralelos, etc. E era óbvio que por mais que tentasse abraçá-lo como irmão mais ele queria sair. O que agora entendo perfeitamente.
- Então, ironicamente, Jason acaba tendo também a sua responsabilidade na mudança, já que vos obrigou a olhar para dentro da banda?
- Yeah. É o que costumo dizer. Aconteceu na altura certa. Provavelmente ele teria gostado de gravar este álbum, mas acredito que ele não estava preparado para se virar para dentro e ninguém pode ser forçado a fazê-lo. Mas o facto de ter saído fez-nos olhar para dentro e perceber…'e se isto acontecesse a um de nós?'
-É verdade que os Metallica trabalham actualmente com um terapeuta?
- Sim. Chama-se Phil (Towle) e começou por ajudar-nos a relacionarmo-nos com o Jason. Acho que ele (Jason) já tinha tomado a decisão de sair mesmo antes de falar connosco. E ele (Phil) ajudou-nos neste divórcio, ajudou-nos a tornarmo-nos mais fortes juntos.
- E acompanha-os em digressão?
- Está disponível nesta primeira fase. É uma etapa de transição. Há toda uma nova dinâmica na banda. Ele pegou-nos ainda no estúdio e ajudou a criar um ambiente mais saudável, de confiança, em que todos pudéssemos comunicar uns com os outros. Foi muito importante.
- Mudando de assunto. O que pensa da utilização de música dos Metallica contra prisioneiros iraquianos?
- Todos nos perguntam isso, mas a verdade é que não podemos controlá-lo. Mas é o que a minha mulher diz desde que nos conhecemos, já lá vão uns dez anos. É uma tortura.
- Quanto ao vídeo de 'St. Anger'. Porque o gravaram na prisão de St. Quentim?
- Foi uma ideia do nosso management. Foi perfeito porque queríamos que o primeiro single fosse 'St. Anger'. Sempre esperei que aquele fosse o lugar indicado, porque 'St. Anger' na prisão era o máximo. Toda a dor que ali está e tudo o que lhes está associado. Entrar em St. Quentim foi como ligarmo-nos a tudo isso. Nunca pensei que fosse possível, especialmente porque St. Quentim é do outro lado do nosso estúdio.
- E como se sentiu lá?
- Tive emoções como nunca tive. 'O que nos vai acontecer? O que pensam eles de nós? Vamos ser atacados? Quem vou encontrar lá?' Não dormia. Cheguei a pensar que podia ser eu, que devia até estar lá em consequência do comportamento que tive, mas safei-me porque estava numa banda. Foi uma ligação muito especial.
- Para terminar. Quando poderemos ver de novo os Metallica em Portugal?
- Bom. Para o ano voltamos à Europa para concertos 'indoor' e Portugal, yeh, sempre nos tratou muito bem e por isso não vos vamos esquecer. l
REFLEXOS DA MUDANÇA
James Hetfield é o rosto da mudança dos Metallica. Claramente rejuvenescido, não obstante os óculos que agora exibe, o líder do quarteto é, de facto, um outro homem. Ao longo da entrevista (e esta não foi a primeira vez que nos encontrámos), vários foram os sintomas da mudança operada: a voz, mais pausada, como se medisse o alcance de cada resposta; a pose, descontraída, por vezes em posição de lótus, com os pés descalços em cima do sofá. Depois ainda, um recorrente relaxar, fechando os olhos, ao mesmo tempo que inspirava profundamente. James está, de facto, mudado e com ele os Metallica, como o reconheceu também Kirk Hammet. Segundo o guitarrista, 'St. Anger' só foi composto totalmente após o regresso do líder. Tudo o que fôra feito antes foi simplesmente deixado de fora. "Começámos de novo a fazer música em estúdio e foi completamente diferente", disse o guitarrista, que pela primeira vez partilha créditos pelas letras: "James disse-me para escrever e alinhei umas 25 linhas de palavras. Na verdade abriu um novo meio de me exprimir". Reflexo ainda da mudança é também o facto do grupo ter agora três 'sets' diferentes quando sai em digressão, disse.
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