Fado da desgraçadinha
No bar de alterne do coxo ‘Sete Vidas’, atacam a ‘Marcolina’, a ‘Plácida’ e a ‘Rosa Enjeitada’.
Da ‘Marcolina’, espalhou-se o boato de que tem ‘certa’ doença e “não há quem lhe pegue”. A ‘Plácida’ casou com o ‘Sr. Arraiolos’ – dono de uma casa de penhores e aspirante a presidente da junta – mas, secretamente, ela suspira é pelo ‘Chico’. Quanto à ‘Rosa’, abandonada pelos pais à nascença e posta a atacar pelo ‘Chico’, tudo o que deseja é ‘deixar a vida’ e ser uma mulher ‘honesta’, mas não vai ser fácil, porque o homem que a explora vai culpá-la por um crime que ele próprio cometeu...
É assim o enredo de ‘Rosa Enjeitada’, espectáculo que Fernando Gomes acaba de estrear no Teatro da Malaposta, no Olival Basto, e que estará em cena até 3 de Fevereiro de 2008, para gáudio dos amantes da galhofa.
Se o título soa a familiar, nada mais natural. ‘Rosa Enjeitada’ é o nome de um fado conhecido que Amália cantou, assim como Hermínia Silva ou Maria Teresa de Noronha. Antes disso, porém – mais propriamente em 1901 –, tinha sido um melodrama popular, capaz de fazer chorar o mais empedernido dos cínicos.
O seu autor, D. João da Câmara (1852-1908), foi um dos primeiros cultores do realismo em cena, levando para o palco os dramas do povo e retratando nas suas peças as camadas sociais mais baixas da Lisboa popular e bairrista. Cento e seis anos depois, Fernando Gomes voltou a pegar na história para, bem ao jeito daquilo a que nos tem habituado, a transformar numa farsa delirante.
No seu trabalho de reescrita, su-blinhou o lado caricatural das personagens e acentuou o ‘kitsch’ de um texto que, hoje, em vez de fazer chorar, se presta a interpretações risíveis. O resultado é um espectáculo divertidíssimo, ao qual nem sequer falta a componente musical.
De resto, o original de D. João da Câmara já se prestava a interpretações musicais, tendo sido transformado em 1929 numa opereta de sucesso. No palco da Malaposta, Fernando Gomes recorreu a músicas conhecidas – sobretudo fados – para, com novas letras, nos fazer sorrir do ‘fado da desgraçadinha’.
Um espectáculo de duas horas para ver de quinta a sábado às 21h30, domingos às 16h00.
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