Gil não quer ser mais ministro

Caetano Veloso, músico, é também um homem sem papas na língua. ‘Cê’, o novo disco, foi o ponto de partida para uma conversa, em que admite a possibilidade de votar na reeleição de Lula e confessa o embaraço que foi ser familiar do ministro da Cultura, Gilberto Gil, tio do seu filho Moreno.

12 de outubro de 2006 às 00:00
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Correio da Manhã – O novo disco, ‘Cê’, mostra um Caetano mais ‘rocker’. Porquê?

Caetano Veloso – É assim porque eu tratei as canções, desde que as compus, no sentido de elas funcionarem com a banda. E isso dá uma concentração de energia nas canções.

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– Este é também o disco em que trabalhou com o seu filho, Moreno. Como foi o encontro? Não houve constrangimentos de parte a parte?

– Não [risos]. Não há constrangimentos entre mim e o meu filho e muito menos neste disco, em que houve muita coincidência de propósitos. Conversei muito com o Pedro Sá [produtor], planeei os arranjos com ele e o Moreno foi convidado depois das canções ensaiadas, para conduzir a produção do disco juntamente com o Pedro, que é amigo dele desde pequeno e que não poderia arcar com a produção sozinho porque tocava em todas as faixas. Então o meu filho veio, por indicação do Pedro, e eu fiquei supercontente porque gosto de estar com o Moreno e de trabalhar com ele. Aliás, ele é meu conselheiro em tudo.

– Em alguns temas usa o calão e até uma referência à nova forma de comunicação, o ‘e-mail’. Preocupa-se em actualizar a linguagem nas canções?

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– Não é uma preocupação, é uma sedução do presente, e isso sempre houve. Quando a gíria ‘bicho’ era novidade apareceu na minha letra; quando a gíria era ‘jóia’ foi título de canção, e coisas como o ‘e-mail’ já apareceram em outras coisas. Tanto assim é que me lembro da Lígia Clark, a grande artista plástica brasileira me dizer – ainda em 69, quando cheguei à Europa, exilado –, que achava interessante o que fazíamos do Tropicalismo, mas que ela era diferente porque o que fazia era clássico, coisas com valores universais e atemporais. E que aquilo que nós [tropicalistas] fazíamos era romântico, ou seja, atrelado ao presente. Quase que me estava dando um conselho para deixar de fazer isso, mas eu não o segui [risos] porque acho que sou romântico mesmo nesse sentido.

- Há aqui canções em que expõe feridas emocionais. São exercícios de catarse?

– Sim... sem dúvida, são canções catárticas, canções que tive necessidade de escrever, mas em duas em particular (‘Não me Arrependo’ e ‘Minhas Lágrimas’) há uma ligação temática imediata com a minha própria vida.

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- É conhecido também pelas posições políticas. Agora que Lula vai a uma segunda volta, mantém a intenção de não votar nele ou mudou de ideias?

– Não mudei de ideia, mas estou aberto para mudar. Porque agora que há um segundo turno, que eu não queria – achava demasiado irresponsável esse desejo facilitador de coisas que são complicadas e que precisavam de ser enfrentadas –, agora fico muito mais tranquilo acerca de um segundo mandato. Porque o povo já disse que as coisas não são simples e não podem ser simples assim.

– Um cartão amarelo...

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– Exactamente. Então, com cartão amarelo pode ser que eu vote no Lula.

– O facto de o ministro Gilberto Gil ser padrinho do seu filho Moreno não lhe causa embaraços?

– Causa, claro. É impossível não causar. Mas não afectou a nossa amizade nem eu sofri embaraços sérios. Houve momentos em que era muito tensa a questão entre o ministério da Cultura e os produtores de cinema e eu me meti e não fiquei favorável ao ministério. E o Gil é meu amigo e nós conversámos sobre isso depois. E agora, depois da passagem para o segundo turno [eleições], voltei a conversar com ele. E está tudo bem. Ele diz que não vai ser ministro mais, não quer mais, e eu fico muito contente com isso, porque é muita tensão ter uma pessoa tão próxima numa posição de poder numa situação em que a toda a hora aparecem escândalos e problemas. Mas ele se saiu bem, muito bem!

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SEXO, ROCK E ERUDIÇÃO

CM – Um dos temas mais presentes em ‘Cê’ é o sexo. Há uma canção em que canta ‘estou me a vir’. Porquê a insistência, ou trata-se de uma metáfora para o orgasmo criativo?

C.V. – Não decidi haver essa metáfora. Ela nunca estaria ausente, ela também está aí, deve ser considerada. Mas o tema do sexo está presente, de facto. Atribuo isso à importância que dou ao tema e à sua adequação à linguagem rock. Que é mais sexo do que romance. Então, como gosto do tema já muito, neste caso ficou muito concentrado porque compus para uma banda rock. Agora no caso do ‘Porquê?’, em que canto ‘estou me a vir’, é sobretudo uma razão um pouco mais... erudita [risos]. Faz alguns anos que descobri que os portugueses se referem ao orgasmo usando o verbo vir na forma pronominal, ‘vir-se’, e logo que soube fiquei maravilhado com o aspecto linguístico, achei bonito. Como acho bonito que nós no Brasil digamos ‘gozar’, porque é a coisa vista de dentro. O ‘vir’ acho mais pobre do que o ‘gozar’. Mas o ‘vir-se’... acho que os portugueses deram uma volta por cima... [risos].

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Caetano Veloso nasceu a 7 de Agosto de 1942, em St.º Amaro da Purificação, Baía. É o quinto filho de uma família de sete. Irmão de Maria Bethânia, Caetano começou por cantar bossa-nova influenciado por João Gilberto e Dorival Caymmi. O primeiro disco, ‘Domingo’ (com Gal Costa), foi editado em 1967, período efervescente da música brasileira, com que ‘inaugura’ o Tropicalismo, a par de Gilberto Gil, Gal Costa e Tom Zé. João Gilberto referir-se-lhe-ia mais tarde a Caetano como aquele que “conferiu dimensão intelectual à música popular do Brasil”. Ao longo da sua carreira já lançou cerca de meia centena de discos.

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