Lassie não precisa de usar microchip

O início do livro de Eric Knight, ‘Lassie Come Home’, de 1940, gira em torno do valor do cão da família Carraclough: “Todos os homens da aldeia concordavam que era a melhor collie que já tinham visto”. À beleza física, inteligência e bons hábitos juntava-se a sua função simbólica.

13 de maio de 2006 às 00:00
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Num período de dificuldades económicas, os donos de Lassie recusavam-se a vendê-la, pois ela “representava uma espécie de orgulho que o dinheiro não conseguia comprar”. O seu valor económico fora transposto para o plano sentimental.

O estatuto de Lassie como mito intemporal cujo núcleo está nos valores humanos dura há mais de meio século e resiste à forma como a modernidade tem alterado a visão da pungente história da cadela que vive grandes aventuras no intuito de regressar aos braços do seu pequeno dono. A questão da posse de Lassie é fulcral na história, assim como na nossa memória dela.

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MEIO SÉCULO DE VIDA

Lassie é o cão que ninguém pode ter, porque, em mais de 50 anos de vida em diferentes ‘media’, jamais alguém pisou nas suas ‘prendas’. É o mito que perdura, mas resistirá ainda aos tempos modernos? A relação ser humano/animal de estimação actual está muito longe da retratada no livro de Knight. O orgulho que o dinheiro não podia comprar transformou-se num sentimento artificial, consciente e menos emocional.

Os donos de cães e gatos já podem controlar o paradeiro dos seus animais através da tecnologia, de ‘microchips’ implantados na pele que servem igualmente de identificação para o caso de se perderem ou serem roubados. A identidade do animal não é uma questão problemática nos tempos modernos mas, sem ela, Lassie jamais se tornaria mito.

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Basta recordar a cena mais marcante da história. Numa tentativa de enganar o Duque, os Carracloughs tentam disfarçar Lassie, fazendo-a passar por outro cão. Mas, tal como o pequeno Joe não teve dificuldade em identificar o exausto e maltratado collie que o esperava no portão da escola, também o Duque soube, sem pestanejar, quem era aquele animal mal amanhado. No entanto, declarou: “Este não é meu cão!”. E restaurou a moralidade na questão da pertença de Lassie.

Lassie não precisa de um ‘microchip’ para ser identificada, seja pelos personagens que a rodearam ao longo dos tempos, seja na memória colectiva do público, pois continua a ser a face canina de valores como fidelidade, inocência, coragem ou amor incondicional. O cinema já nos deu muitos cães, mas, tal como os homens da aldeia concordam, continua a não haver melhor espécime. Por isso volta sempre à sua casa: o coração humano.

O realizador Charles Sturridge criou belos quadros naturais, dando relevo à nostalgia da paisagem escocesa e do Yorkshire, apesar de grande parte do filme ter sido rodado... na Irlanda. Ao respeitar a temática original com uma adaptação fiel, criou um mundo reconhecível na memória colectiva. Ajuda ter actores credíveis e empenhados no seu trabalho.

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Terá sentido um novo filme da Lassie nos tempos que correm? O frio modernismo não parece adaptar-se à lágrima fácil do sentimentalismo que trespassa a já sobejamente conhecida história, pelo que o impacto nas mentes das gerações actuais não deverá ser o mesmo. A própria relação ser humano/animal de estimação arrefeceu. É um filme para nostálgicos.

Título original: ‘Lassie’.

Realizador: Charles Sturridge.

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Argumento: Charles Sturridge, baseado no livro de Eric Knight.

Intérpretes: Jonathan Mason (Joe), Peter Dinklage (Rowlie), Ken Drury (Mapes), Peter O’Toole (The Duke), Samantha Morton (Sarah).

O cão do cigano Rowlie chama-se Toots em homenagem ao cão do escritor Eric Knight, que serviu de inspiração para o conto e depois livro ‘Lassie Come Home’.

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- Lisboa – Millenium Alvaláxia, El Corte Inglés

- Faro – Fórum Algarve

- Porto – GaiaShopping, MaiaShopping

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DO JORNAL À TELEVISÃO

Eric Knight escreveu a história original para o ‘The Saturday Evening Post’ e foi encorajado a recriá-la num livro. Foi um sucesso que a MGM transformou no filme ‘Lassie Volta a Casa’ em 1943. Sucederam-se várias sequelas em volta das aventuras do collie, a terceira contando com uma muito jovem Elizabeth Taylor, até que o estúdio, sentindo que o brilho de Lassie esmorecera após o fraco interesse do público por ‘The Painted Hills’ (1951), vendeu os direitos da personagem ao produtor televisivo Robert Maxwell. O programa manteve-se no ar por 19 anos, 17 dos quais na CBS e deu origem a livros, brinquedos e a mais filmes.

Todos os cães associados à personagem Lassie eram machos. Foi contratada uma cadela para o primeiro filme, mas quando esta se recusou a atravessar um rio, o criador/treinador Rudd Weatherwax trouxe o collie chamado Pal para a substituir na cena. Fez tudo tão bem que acabou por ficar com o papel. O uso de machos tinha outras vantagens: ambos os sexos perdem pêlo no Verão, altura privilegiada para as filmagens no cinema e televisão, mas como os collies masculinos são mais felpudos, não ficam tão ‘despidos’. Para além de serem maiores, o que ajuda a criar a imagem de um cão heróico. Quanto às fêmeas, foram usadas muitas vezes como duplos.

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ADORADO PAL E AS MOTAS

Pal tornou-se no animal mais famoso da sua era após ‘Lassie Volta a Casa’ e até fez de filho da Lassie, chamando-se Laddie no segundo filme da série. Weatherwax ficara com Pal como pagamento de uma dívida. O seu dono levara-o ao treinador para que lhe tirasse o vício de perseguir motas, mas depois apercebeu-se de que não queria o cão e deixou-o no canil como forma de pagar as despesas. Quem verdadeiramente treinou Pal foi Frank, irmão de Ruud, embora tenha sido este a levá-lo para o cinema. Curiosamente, o collie nunca deixou de perseguir motas e isso até o ajudou nas filmagens. Os seus descendentes também são artistas.

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