MICK HUCKNALL: NÃO PRECISO DA FAMA

Mick Hucknall, vocalista dos Simply Red, passou por Portugal e falou ao ‘CM’ do seu novo disco, ‘Home’. À margem de uma indústria que hoje renega, diz que não precisa do dinheiro da música e que só está nela por amor.

31 de março de 2003 às 00:00
MICK HUCKNALL: NÃO PRECISO DA FAMA Foto: Jordi Burch
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Correio da Manhã – “Home” é o primeiro álbum de estúdio dos Simply Red em quatro anos. O que andaram a fazer durante este tempo?

Mick Hucknall – A mudança de editora levou a que perdêssemos algum tempo para reestruturar as coisas. Só o novo disco levou dois anos a gravar. E depois estive ocupado a fazer outras coisas que dizem respeito à minha vida pessoal. Mas eu não preciso de fazer isto. Faço porque gosto, porque amo a música, mas não preciso do dinheiro que ela me dá. Por isso, não sei durante quanto mais tempo vou andar a dar concertos, talvez mais uma ou duas digressões. Digo-o porque há outras coisas que gosto de fazer. Não preciso do sucesso à escala mundial, razão porque até decidi mudar para uma editora mais pequena...

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...O que permite alguma independência artística, não é?

- Exactamente. Posso fazer a música que quero, sem ter de me preocupar em fazer um disco comercial.

Isso quer dizer que está desapontado com o actual estado da indústria musical?

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- Na verdade, não quero saber disso para nada. Já não faço parte dessa indústria.

Não me vai dizer que não lhe interessa vender discos, porque ambos sabemos que isso é uma grande mentira!

- Claro que é importante vender discos, até porque estando numa editora independente isso permite-nos mais facilmente fazer outro álbum. Mas o que quero dizer é que não sinto a pressão, como senti por exemplo, nos três primeiros álbuns. Nos dois últimos consegui fazer algumas experiências porque sabia que o meu contrato estava a acabar. Mudar de editora deu-me alguma paz. Na verdade, acho que estava a ser um pouco cínico, porque trabalhava para uma indústria que já não me dizia nada. Para mim era como se estivesse a trabalhar para a Coca-Cola. E, definitivamente, não me sinto inspirado por isso.

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Pegando no título do seu novo single “Sunrise”, pode-se, então, dizer que renasceu para a música?

- É mais correcto dizer que este álbum está mais próximo daquilo que fiz com os três primeiros discos. O álbum “Stars” já tinha muito pouco de Simply Red. Era um disco muito desenhado, com muitas programações, enquanto os outros tinham sido gravados numa sala, apenas com os músicos, tal como este. “Home” tem apenas dois temas programados, precisamente “Sunrise” e “Money In My Pocket”. Tudo o resto foi feito e gravado em minha casa, numa sala...

Talvez por isso este pareça ser o seu disco mais emotivo e introspectivo. Concorda?

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- Não sei se será o mais introspectivo mas acho que se pode dizer, sim, que é um dos mais emotivos. Acho mesmo que é o mais musical que fazemos desde “A New Flame”, de 89. Estou muito feliz com o que conseguimos e neste momento tudo o que quero é continuar a fazer discos como este.

Este álbum surge a par de uma campanha bem original que tem como objectivo construir uma floresta. Como é que isso funciona?

- Há uns anos o meu advogado pressionou-me para começar a fazer o meu testamento. Estava sempre a dizer-me: “Se amanhã morreres não sabemos a quem entregar o teu dinheiro. O que é que queres fazer com ele?”. E um dia disse-lhe que queria gastar dois milhões de libras (quase três milhões de euros) a construir uma floresta em Inglaterra. Claro que já há quem tenha gozado com isto. Os meios de comunicação britânicos até me chamaram cínico. Curiosamente, um dia recebi uma chamada de uma empresa que se mostrou interessada na minha ideia. Neste momento, por cada disco vendido é plantada uma árvore. E segundo sei até é possível dar um nome a essa árvore. Hoje há jornais que me chamam arrogante porque a floresta vai receber o meu nome. E que outro nome poderia ter? Enfim, é para ignorar. O importante é que estou muito orgulhoso desta ideia.

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Curiosamente esta acção contrasta com os tempos difícieis em que vivemos, em que a palavra de ordem parece ser destruir e não construir. Como cidadão britânico qual é a sua posição relativamente a esta guerra?

- Acho que Tony Blair se assustou com o que aconteceu no 11 de Setembro. Os serviços secretos britânicos revelaram que Saddam andava a treinar membros da al-Qaeda no Norte do Iraque e que tinha acesso a armas químicas e Blair decidiu antecipar-se temendo que a Inglaterra fosse atacada. Parece louco mas não é de todo. Também ninguém esperava o que aconteceu em Nova Iorque. Provavelmente, se já tivesse acontecido alguma coisa, a esta hora estavam todos a cobrar a Tony Blair. A atitude ridícula é a da França, que fala de moral mas não tem coragem de vir às Nações Unidas dizer que tem interesses no Iraque e que tira de lá 38 por cento do seu petróleo. Muito sinceramente acho que esta guerra vai terminar com a Comunidade Europeia.

Formados em 1984, os Simply Red são um dos agrupamentos pop que mais marcou a década de 80, muito por culpa do álbum de estreia, "Picture Book". O tema "Holding Back The Years" ainda hoje é uma espécie de "cartão de visita" do grupo.

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Vivendo do carisma do seu vocalista Michael James Hucknall, o grupo editou até à data oito trabalhos discográficos dos quais se destacam, para além de "Picture Book", os álbuns "A New Flame" (89) e "Stars" (93). Quem não conhece temas como “If You Don't Know Me By Now”, “Stars”, “Heaven”, “ Money's Too Tight” ou “Night Nurse”?

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