“Não faço música cínica”

Lloyd Cole virou costas à indústria e, aos 49 anos, apelou a donativos dos fãs para produzir o disco ‘Broken Record’. Agora, vem apresentá-lo em cinco palcos nacionais

11 de outubro de 2010 às 00:30
“Não faço música cínica” Foto: Pedro Catarino
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- Correio da Manhã: Contrariamente aos seus trabalhos anteriores, este ‘Broken Record’ não teve o apoio de nenhuma editora por trás. Porquê? 

- Lloyd Cole: Os moldes em que a indústria da música funciona actualmente mudam todos os anos, por isso estar amarrado a uma editora ou a uma forma única de trabalhar, nesta fase da minha carreira, seria uma péssima ideia. Mesmo que tivesse muito dinheiro para investir no meu projecto, ou que houvesse grandes editoras interessadas, continuava a não ser boa ideia. Nem era, sequer, uma opção. Segundo os padrões modernos, o álbum exigia um grande orçamento. Saiu muito caro devido a todos os músicos que juntou. Podíamos fazê-lo no computador, se quiséssemos, mas achámos que aquele género de música ficaria melhor gravado em estúdio... 

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- As leis do mercado discográfico mudaram assim tanto? 

- Completamente. Todos os anos são diferentes, sobretudo desde a década de 90.

- E daí a decisão inédita de recorrer aos fãs. Foi uma forma de reacção ao mercado? 

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- O modo como fizemos e decidimos financiar o disco sim, a música não. A música surgiu a partir das letras que tinha escrito e da vontade de fazê-las soar de determinada maneira. Depois, claro, havia que concretizar as ideias, torná-las reais, e essa realidade de fazer o disco custava qualquer coisa como 60 ou 70 mil euros. Mesmo sabendo que as gravações e a montagem não levariam mais de dois meses, o tempo que efectivamente gastei com o disco, a planeá-lo e a estruturá-lo, foi de cerca de seis. E para mim passar muito tempo a trabalhar num álbum era inviável nos moldes de sempre: não estou em posição de gastar 60 mil euros e não ganhar dinheiro nenhum durante esses seis meses. É uma situação difícil para toda a gente, qualquer que seja a sua profissão. E foi então que decidi que, para arranjar esse dinheiro, ia vender o álbum antes de o fazermos. Convidei um milhar de fãs a doarem 45 dólares (32,3 euros) em troca de uma edição especial do disco semanas antes do lançamento oficial.

- Pode dizer-se que o novo álbum é, acima de tudo, uma questão de fé?  

- Não quero parecer demasiado confiante, mas após 25 anos a fazer música acho que ganhei essa fé. Os fãs sabem que não faço música cínica. Sabem que tento fazer sempre boa música em cada disco, quer ele seja bom ou mau no final. Se, de alguma forma fiquei surpreendido com alguma coisa, foi com o facto de ter demorado tanto tempo a juntar o dinheiro. Conseguimos a quantia necessária e os fãs responderam na totalidade, mas não imediatamente. Ainda levou alguns meses, na verdade.

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- Trouxe muitos músicos para este trabalho, quando cantar sozinho é quase uma imagem de marca sua. Cansou-se de ser só o Lloyd e a sua guitarra acústica?  

- Não é uma questão de cansaço, até porque trabalhar sozinho me traz bastante conforto e é a maneira mais fácil de gerir o palco e as despesas. Simplesmente, a dada altura, acho que dei por mim a sentir-me demasiado confortável, a sentir que já tinha aprendido o que podia em relação às canções e a novos arranjos de guitarra, e quis aprofundar mais. A vida de espectáculos a solo depende muito da espontaneidade e da interacção com o público, e isso estava a tornar-se não diria que automático, mas quase demasiado confortável. E, para um artista, esse conforto nem sempre é bom, de modo que esta mudança é bem vinda para poder fazer uma pausa. Quero voltar ao ‘folk’ no futuro e muitas destas canções que escrevi até podiam ser tocadas nesse género. Mas outras não, pediam um grupo para ganharem vida, e para mim foi uma oportunidade de fazer algo diferente.

- Até que ponto a mudança se traduziu em mais diversão para si? Ou sentiu que perdeu mais do que ganhou com o funcionamento em equipa?

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- Quando se trabalha com outros músicos perde-se um bocado o controlo do processo. Tornei-me um pouco o editor de todos eles e também passou a haver outros escritores, mas, com esta banda, não tive essas preocupações. Se fossem músicos diferentes, que não tivessem sido a minha primeira escolha, se calhar ficava preocupado, mas aqui toda a gente foi a minha primeira escolha para tocar cada um dos instrumentos. Talvez possa até estar a ser injusto em relação aos muitos guitarristas bons que existem por aí, porque a Small Ensemble é a minha banda, o Mark [Schwaber], o Matt [Cullen] e eu já trabalhamos há um ano, tocamos juntos todas as guitarras e talvez por isso sejam a minha escolha natural. Mas, na verdade, estou feliz por colaborar com eles agora. Mesmo antes de este álbum estar pensado já lhes admirava as capacidades musicais.  

- Algumas letras falam do que é uma canção, daquilo que é o escritor e o acto da escrita. Preocupa-o pensar quando deve parar de escrever?

- Preocupa, sim. Neste ponto da minha carreira dou comigo a pensar frequentemente, quase em jeito de indagação filosófica, se vale a pena pôr tanto esforço e dar tanto de mim a uma coisa tão pequena. E, quando penso nisso, chego à conclusão de que uma canção não tem de ser tão pequena assim, pode ser uma coisinha insignificante mas também algo capaz de mudar o meu dia. Como aquelas que escutamos pela manhã, a caminho do trabalho ou quando estamos deprimidos, e de repente deixam o dia melhor. As canções podem ser realmente poderosas. E quanto mais penso nessa ideia, mais chego à conclusão de que quero continuar a compor canções bonitas e de que essa é uma missão de que gosto de fazer parte. Por outro lado, pergunto-me se o mundo precisa de mais canções de Lloyd Cole. Esta também é uma questão válida.

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- Sente-se mais céptico em relação ao que o coração lhe diz, é isso? 

- Não tanto em relação ao coração, mas mais à criatividade. A minha atitude face à criatividade é muito diferente de quando era jovem. Penso que muitos artistas, sobretudo os mais velhos, sentem que no dia em que não criam são menos artistas e essa é uma maneira muito pouco saudável de pensar. Para mim, a criatividade, a espontaneidade e a inspiração são voláteis, tal como a felicidade, que vai e vem de tempos a tempos e temos que saber agarrar para desfrutá-la. Com a inspiração é igual: quando chega, um compositor tem que lhe deitar a mão, mas já nem me preocupo em querer mantê-la porque sei que é uma perda de tempo. Buscá-la à força é meio caminho andado para não a ter. 

- Também há letras que parecem quase roçar a melancolia, como quando diz, “Maybe I don’t know how to live”. Sente, de alguma forma, as famosas crises de meia-idade que todos dizem chegar aos 50?  

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- Estar na meia-idade significa ser-se cheio de contradições. Ainda me sinto jovem e viril, mas depois olho-me ao espelho e vejo um velho. Ainda escrevo canções que depois são cantadas por homens mais novos, porque já não quero ser eu a cantá-las e, no entanto, escrevi-as. Ainda olho para jovens mulheres e sinto por elas o mesmo que sentia há 20 anos, mas não faço nada quanto a isso porque sei que é inapropriado. Envelhecer com graça é um desafio tremendo, mas se o souber fazer bem é possível continuar a ser um grande criativo e é isso que procuro. A melhor maneira de cair no fracasso é ficar preso à juventude e aos feitos de outros tempos. Não é isso que quero para mim como músico, estar agarrado aos públicos de quando era jovem.  

- Ainda trabalha com alguns membros dos Commotions. Quais as probabilidades de se reunir novamente a banda?

- Fizemos uma reunião em 2004. Foi fantástico, mas bastou. 

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- Regressa agora a Portugal, país com que tem uma cumplicidade especial? Há alguma surpresa preparada? 

- Tenho 40 canções prontas para intepretar e devo tocar 25 em cada noite. Às vezes a minha música, com bandolim, soa um bocadinho a fado. Sinto que os países onde fui mais popular têm uma tendência nacional para a melancolia. E eles são a Suécia e Portugal.

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