O 25 de Abril visto pelos estrangeiros
Mostra reúne trabalho de 30 fotógrafos e está patente até dia 24 de agosto.
A exposição ‘Venham Mais Cinco - O Olhar Estrangeiro sobre a Revolução Portuguesa - 1974-1975’ reúne, pela primeira vez, 200 fotografias de 30 fotojornalistas e fotógrafos, incluindo Sebastião Salgado, que nos deixou na sexta-feira, 23, que estiveram em Portugal para fazer a cobertura da revolução e dos dias que se seguiram.
A ideia já tinha estado para ser posta em prática nos anos 90, pelos 20 anos do 25 de Abril, mas a conjuntura - como explica a organização - não foi favorável. Agora, no aniversário dos 50 anos, a exposição realiza-se com a curadoria de Sérgio Tréfaut, filho de Miguel Urbano Rodrigues, jornalista e militante comunista português que durante o Estado Novo teve de se exilar no Brasil.
Tréfaut, autor de obras como ‘Lisboetas’, ‘Cidades dos Mortos’ ou Cartas a uma Ditadura’, conseguiu financiamento do Ministério da Cultura, do anterior ministro, Pedro Adão e Silva, confirmado pela sucessora, e da Comissão Comemorativa 50 anos 25 de Abril, e apoios da Câmara de Almada, da Fundação Calouste Gulbenkian e da editora Tinta da China.
Entre dia 24 de maio e o próximo 24 de agosto, a exposição - dividida em quatro núcleos - 'A Festa da Liberdade', 'Novas Formas de Poder', 'Independências', 'Um País Dividido' - está patente nas antigas instalações dos escritórios da administração dos Estaleiros da Lisnave, em Almada.
SEBASTIÃO SALGADO MUDOU-SE PARA A GRAÇA
Em 1974, o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, desaparecido na sexta-feira, 23, aos 81 anos, vivia em Paris, longe da ditadura instalada no seu país. Tinha começado a fotografar, e deixado para trás a licenciatura em Economia. Com o 25 de Abril mudou-se para o bairro da Graça, em Lisboa, com a mulher e o filho, e passou a cobrir os principais eventos da revolução dos cravos - que atraiu uma multidão de estrangeiros, que queriam testemunhar a turbulenta da vida nacional daquele período. Numa entrevista dada no ano passado, Salgado recordou a época, quando Portugal era o “país de esperança” e toda a gente discutia política.
HOMENAGEM A ZECA AFONSO
'Venham Mais Cinco' é o título da canção de José Afonso, originalmente escolhida pelos militares do MFA para ser tocada no Rádio Renascença na madrugada de 25 de Abril de 1974, como senha do início do golpe militar (tendo sido posteriormente substituída por 'Grândola'). E assim esta exposição homenageia também José Afonso além de reunir trabalhos publicados em todo o mundo da autoria de Alain Keller, Alain Mingam Alécio de Andrade, Gérard Dufresne, Michel Giniès, Rob Mieremet, Serge July, Sebastião Salgado, entre muitos outros. O catálogo da exposição será lançado pela editora Tinta da China.
IDEIA FALHADA DEU PRIMEIRO FILME
A ideia da exposição surgiu em 1993, para assinalar o vigésimo aniversário do 25 de abril. Quando Margarida Medeiros e Ana Soromenho contactaram Sérgio Tréfaut que tinha acabado de organizar O Mês da Fotografia, um conjunto de exposições, que incluíam ‘Trabalho’, a série mítica de Sebastião Salgado que homenageia a manufatura, e a coletiva Magnum no Leste. Começa então a pesquisa nos arquivos das agências internacionais, que só não foi em vão porque redundou no primeiro documentário (’Outro País’) de Tréfaut.
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