O Fado e outras linguagens
Uma viagem de encontros e desencontros com a cultura portuguesa e com as linguagens que com ela se foram cruzando ao longo dos séculos, algures entre a tradição e a modernidade. Assim é ‘Ulisses’, oitavo álbum de Cristina Branco, uma das mais agradáveis surpresas do Fado dos últimos anos
Sem surpresa, todavia, Cristina Branco brinda-nos mais uma vez com a sua extraordinária e singular interpretação, arranjos cuidados e uma selecção de repertório criteriosa e conceptual, mas a mais-valia do disco é ter servido de pretexto para ultrapassar as fronteiras sonoras precedentes.
Sem nunca perder de vista os mais profundos alicerces da cultura portuguesa (o mar, a nostalgia fatalista, a saudade), impressos em temas como ‘Oh! Como se me alonga de ano em ano’ (um poema de Camões ) ou ‘Cristal’, Cristina leva-nos a viajar por outras linguagens e culturas.
Da Argentina, traz-nos ‘Alfonsina Y el Mar’, de França adapta ‘Liberté’, o célebre poema de Paul Eluard, enquanto da América chega-nos um surpreendente ‘A Case of You’, de Joni Mitchell.
Além das novas paragens, Cristina Branco introduz pela primeira vez o piano, que nos dedos de Ricardo J. Dias imprime uma nova paisagem sonora ao repertório da fadista e favorece um dos mais belos temas deste álbum, o original ‘Navio Triste’ escrito por Vitorino. A mesma paixão pela renovação das formas do Fado pode ouvir-se em ‘Sete Pedaços de Vento’.
Para ‘Ulisses’, Cristina Branco gravou ainda, pela primeira vez, ‘Choro’, tema há muito interpretado em palco.
O único fado tradicional do alinhamento é ‘Gaivota’, registado pela primeira vez por Amália Rodrigues. Mas não é por causa disso que ‘Ulisses’ deixa de respirar o Fado por todos os poros. Ele está sempre lá, a espreitar por entre cada cais de partida, e a acolher Cristina Branco a cada regresso.
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