O que escritores de língua portuguesa mudariam no idioma em que escrevem

Idioma é falado por 300 milhões de pessoas e é o tema central do XIV Encontro de Escritores de Língua Portuguesa.

10 de outubro de 2026 às 10:34
O que escritores de língua portuguesa mudariam no idioma em que escrevem Foto: Direitos Reservados
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A língua portuguesa é a matéria-prima dos escritores lusófonos e alguns dos que estão reunidos num encontro na capital de Cabo Verde assumem que, se pudessem, mudavam alguns aspetos neste idioma falado por 300 milhões de pessoas.

Alberto Oliveira Pinto, o autor da "História de Angola", é um dos participantes no XIV Encontro de Escritores de Língua Portuguesa, que decorre desde quinta-feira e termina hoje na capital cabo-verdiana.

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O escritor nascido em Luanda não tem dúvidas de que começaria por revogar o acordo ortográfico, obrigatório em Portugal desde 2015.

Mas não só. O escritor acabava com os estrangeirismos e retomava os conceitos dos substantivos, além de promover um regresso à gramática da sua infância.

O poeta brasileiro José Inácio Vieira de Melo gostaria de acrescentar novas palavras, o que já faz, ao criar neologismos na sua poesia.

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"A poesia é exatamente isso: você ter uma língua e não ficar preso ao que a língua oferece", disse à Lusa, à margem do encontro promovido pela União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA) e a Câmara Municipal da Praia.

A escritora cabo-verdiana Mana Guta (pseudónimo de Augusta Évora) não mudava nada, mas, se tivesse uma varinha de condão, investiria mais na formação dos professores, de modo a existir "uma metodologia mais afetuosa, mais próxima aos alunos, para que o aprendizado venha a ser algo também lúdico".

"O português é uma língua oficial, nós gostamos dela, é uma riqueza, mas nem sempre estamos à altura da metodologia mais adequada para as crianças", adiantou.

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Neste evento participa a escritora galega Maria do Rosário Bello, que defende a unidade linguística entre o galego e o português.

"Se eu pudesse, faria com que todas as escolas galegas tivessem um professor ou professora de português, para que toda a gente pudesse ser alfabetizada no galego-português, que é também uma língua internacional", disse.

Amadú Dafé representa a Guiné-Bissau neste encontro e não mudava na língua portuguesa.

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"Mas mudava a forma como é ensinada na Guiné-Bissau e talvez em alguns Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), como Angola e Moçambique, que são multilingues e às vezes o ensino do português não se adapta a essa realidade e é ensinada exatamente da mesma maneira como é ensinada em Portugal ou no Brasil, com as pessoas que já têm a língua portuguesa como língua materna".

Na Guiné-Bissau, disse, é "uma realidade de uma violência tremenda. Uma criança de sete anos vai à escola e é a primeira vez que está a ouvir falar como deve ser a língua portuguesa e tem de aprender a escrever e a ler nessa língua, que não é a materna, e o processo de aprendizagem acaba por ser prejudicado".

Hugo Pinto, investigador dedicado ao estudo de Macau, não mudava nada na língua portuguesa, mas sim "a ideia de que é preciso mandar na língua, que é preciso decretar, porque isso não funciona, não existe".

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"A língua é feita todos os dias por todos, é uma construção permanente, é uma história de muitas histórias, de portas abertas e se eu pudesse mudar alguma coisa não mudava na língua, mas na maneira como se olha para a língua; e tentava tirar essa ideia de que é possível mudar a língua por vontade própria de alguém ou de uma política ou um decreto", afirmou à Lusa.

O músico e escritor moçambicano António Costa Neto considera que "ainda há demasiados complexos em relação aos sotaques".

"Não é preciso mudar, é só aprender a aceitarmo-nos uns aos outros. Falar bem não é ter determinado sotaque", defendeu o autor de "Marrabenta".

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E gostaria que existisse "um debate mais profundo sobre determinados termos". "Por exemplo, devíamos definir se chamamos a alguém de origem africana 'negro' ou 'preto'", referiu, explicando que algumas palavras nasceram com o efeito discriminatório e é necessário reaprender o seu uso.

A professora portuguesa e diretora do Departamento de Literaturas Românicas na Faculdade de Letras de Lisboa, Joana Matos Frias, não mudava nada na língua portuguesa, mas em relação aos seus usos defendeu "alguma reflexão".

"Embora precisemos de regras e normas, acho que há um certo tipo de imposições que eu preferia que não fossem extrínsecas aos verdadeiros falantes da língua, que têm registos muito diferentes, que variam do ponto de vista geográfico, social e profissional".

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E prosseguiu: "O caso do acordo ortográfico é um caso muito complexo, de uma coisa que é imposta por decisões políticas, sócio económicas e que causa muita reflexão".

"Porque é que de repente eu, que tenho este tipo de relação com a minha língua, sou obrigada a mudar a minha relação com a minha língua, com a minha escrita?", questionou.

Olinda Beja, escritora de São Tomé e Príncipe, não hesita em afirmar que, se pudesse mudar alguma coisa na língua portuguesa, seria acabar com os estrangeirismos.

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E manifestou perplexidade com algumas palavras que ouve, por exemplo, na rádio.

Eu ouço muita rádio e no outro dia ouvi um anúncio a um 'roof' (telhado, em inglês).

"Eu sei o que significa, mas pus-me no lugar de uma pessoa que não sabe falar inglês, que nunca saiu da sua aldeia, a ouvir uma palavra que não lhe diz nada", lamentou a poeta, romancista e contadora de histórias.

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A língua portuguesa como elemento de adaptação num mundo em mudança é o tema central do XIV Encontro de Escritores de Língua Portuguesa, que conta com a participação de escritores de Angola, Brasil, Cabo Verde, Galiza, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe. Timor-Leste está representado pelo ministro da Administração estatal, Tomás do Rosário Cabral.

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