PALAVRAS PARA QUE VOS QUERO

Na semana em que os tablóides britânicos faziam manchete atrás de manchete com o escândalo sexual envolvendo a estrela do futebol David Beckham, o encenador português Eduardo Barreto estreava, numa antiga fábrica de chocolates londrina, a Menier, mais uma peça de um autor português.

13 de abril de 2004 às 00:00
PALAVRAS PARA QUE VOS QUERO Foto: d.r.
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Depois de Luísa Costa Gomes, Luís Assis e Eça de Queirós, chegou a vez de Jorge Guimarães, de cuja obra Barreto escolheu a comédia 'Tudo para Nada' ('All for Nothing' na tradução de Celia Williams), para dar início a uma trilogia que comportará ainda as peças 'Nunca na Cama' e 'Vermelho Transparente'.

Radicado em Londres há 12 anos, o encenador português garante que há interesse pelos autores portugueses naquela que é, incontestavelmente, a capital mundial do teatro, uma cidade onde se estreiam 150 espectáculos por semana - entre as mega-produções dos teatros nacionais, a ópera, o teatro comercial, o independente, o experimental, etc. etc.

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Mesmo sem dinheiro - para esta produção não conseguiu apoios dos seus parceiros habituais, a saber, a Gulbenkian, o Arts Council e a Embaixada Portuguesa na capital britânica - o espectáculo fez-se com encenador e actores a ganhar à bilheteira.

FALAR OU NÃO FALAR

E quem, até 2 de Maio, se dirigir à Menier Chocolate Factory para ver 'All for Nothing', não vai dar o seu dinheiro por mal empregue. Num espaço que é, simultaneamente, restaurante, bar, galeria de arte e auditório para cerca de 120 pessoas, verá uma comédia deliciosa cuja personagem central é uma mulher que, um dia, decide deixar de falar. Ao fim de 34 dias de silêncio, o marido não aguenta mais e envia um SOS a dois casais amigos.

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Estão lançados os dados para uma noite de revelações, num crescendo de álcool e de agressividade. Eduardo Barreto dirigiu o espectáculo com grande sensibilidade e, acima de tudo, pôde contar com um excelente naipe de actores. São, sem excepção, intérpretes de se lhes tirar o chapéu. Na estreia, o público ouvia cada palavra atentamente, trocava olhares cúmplices entre si e, nos momentos de maior comicidade, ria com vontade.

Prova ultrapassada: o humor de Jorge Guimarães passou as fronteiras portuguesas e conquistou os súbditos de Sua Majestade.

"ACREDITO QUE TEMOS UMA CARA-METADE"

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Eduardo Barreto, que para além do teatro, produziu o primeiro festival de música portuguesa e tem promovido várias exposições de pintores lusófonos em Londres, garante que naquela cidade há interesse pela cultura portuguesa. 'O Crime do Padre Amaro', de Eça de Queirós, foi um dos seus maiores sucessos de público à data. Quanto à peça de Jorge Guimarães, diz que a escolheu numa altura em que estava cansado. "Identifiquei-me com a personagem que precisa de silêncio... Depois, como acredito que todos nós temos uma cara-metade, apeteceu-me falar disso. Esta peça mostra-nos três casais que estão juntos pelas razões erradas. Precisam de mudar".

PORTUGUESANO ELENCO

Teresa Mónica, que trabalhou no Teatro da Graça com Mário Feliciano e que nos últimos anos tem sido dirigida por encenadores como José Caldas ou Luís Castro, é a única portuguesa deste elenco. Não fala uma palavra de inglês mas isso não é problema, já que a sua personagem não diz uma palavra durante a peça.

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