“Participar já é uma vitória muito grande”: Isabél Zuaa, a atriz portuguesa no centro da noite dos Óscares

Em entrevista ao CM, a artista multidisciplinar de 38 anos não esconde o orgulho em fazer parte da produção brasileira 'O Agente Secreto', nomeada para os Óscares. E revela que, no domingo, estará em Hollywood para assistir à cerimónia.

13 de março de 2026 às 19:12
Isabél Zuaa Foto: Nitrato Filmes
Isabél Zuaa em O Agente Secreto Foto: Nitrato Filmes

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É numa correria entre ensaios e filmagens que Isabél Zuaa, 38 anos, atende o telefone ao CM. “Agora temos tempo para falar um bocadinho”, diz-nos a atriz, encenadora e performer que, no próximo domingo leva um bocadinho de Portugal à noite mais importante de Hollywood: os Óscares. A produção brasileira ‘O Agente Secreto’ está nomeada para quatro estatuetas, incluindo Melhor Filme e Melhor Casting, uma categoria inédita para honrar um dos melhores elencos do ano, do qual Isabél faz parte. “Estou muito expectante”, confessa a propósito da cerimónia, onde vai marcar presença pessoalmente.

A atriz não esconde tratar-se de “um motivo de orgulho”, mas reforça que o importante é a capacidade de se expressar e de chegar a públicos nos quatro cantos do mundo. “Recebo mensagens de Inglaterra, França, Suíça, Turquia”, conta, num reconhecimento do impacto internacional da obra. Ao mesmo tempo, continua a não esquecer as origens, a reclamar as raízes de “saloia” de Loures e de afrodescendente filha de mãe angolana e pai guineense. São essas variadas matrizes que tenta imprimir no seu trabalho, que há 15 anos se divide entre Portugal e o Brasil, entre o teatro, a dança e o cinema: “Gosto de brincar com esses conceitos identitários e criar novas versões desses conceitos”. 

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Como surgiu a proposta para integrar 'O Agente Secreto'?

Foi um convite muito repentino. Já tinham começado as filmagens quando me ligaram a perguntar se podia ir para o Brasil no dia seguinte. Estava em Lisboa, a terminar uma longa-metragem, era o meu primeiro dia de folga e ligaram-me a convidar. A personagem é mais velha do que eu, ficaram na dúvida se eu faria ou não, mas foi ótimo. Tinha o desejo de trabalhar com o realizador, o Kleber Mendonça Filho, então foi uma surpresa muito agradável, até tendo em conta a época do filme, que é uma época que gosto muito de pesquisar. 

Pude trazer as minhas referências para a personagem, apesar de ser uma pessoa que o Kléber conheceu quando era mais novo, era uma amiga da sua mãe. Falámos bastante sobre isso quando lá cheguei, sobre essa relação. E sobre o momento histórico em Angola [a personagem de Isabél Zuaa é angolana] como em Portugal, como no Brasil, e fazer essa correlação.

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Quantos dias ficou para as filmagens?

Três dias, foi uma coisa rápida. O Kleber ainda queria que fizesse mais uma diária, mas entretanto choveu e acabou por não entrar no filme. Depois fiquei mais tempo, até porque não foi uma coisa sequencial. Gravei uma primeira parte, vim a Portugal e depois voltei para gravar os outros dois dias.

E apesar de ter sido um período curto, que memórias guarda da experiência?

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A simbiose que existia no set de filmagem foi uma coisa muito bonita, toda a gente queria fazer parte. Em três dias acho que houve quatro festas [risos]. Houve a festa do final do filme, que coincidiu com o aniversário do Wagner Moura, houve outra festa "pré-folga" e depois houve a festa de aniversário do Wagner propriamente dita.

A verdade é que o filme estreou em maio passado, em Cannes, e ao longo do último ano tem feito uma caminhada em festivais e premiações, chegando claro aos Óscares. Como é que a Isabél tem olhado para todo este reconhecimento?

Tem sido incrível. A camaradagem continua, não foi só na altura das filmagens. Houve o encontro maior no Festival de Cannes, e depois nas estreias no Brasil, tivemos uma potência muito bonita de toda a gente. Tem sido uma alegria imensa, diária. O filme tem chegado a lugares e tocado pessoas em vários pontos do mundo. Recebo mensagens de Inglaterra, França, Suíça, Turquia, do próprio Brasil e em Portugal, de pessoas na Alemanha, nos EUA... é um feito histórico estar num filme que está nesta vitrine e que chega a lugares onde não conseguimos fisicamente chegar.

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E a título pessoal, a nomeação para Melhor Casting nos Óscares - apesar de não ser uma nomeação direta para os atores, quem está representado são os diretores de casting - presumo que seja um motivo de orgulho?

É um motivo de orgulho, sim. Mas tenho recebido o impacto mais pela reação das pessoas, pelas mensagens que recebo de quem conheço e não conheço. Estou muito grata por isso - claro que a vida continua, tenho estado a trabalhar imenso, mas o impacto tem sido muito bonito. As pessoas dão-me os parabéns, dão os parabéns à minha mãe [risos]. Tem sido uma coisa gira, até porque as pessoas às vezes não veem [o meu trabalho]. Tenho trabalhado mais em filmes de autor que acabam por não chegar a um circuito grande. E aqui houve uma massa muito grande, em Portugal e não só.

Mesmo sendo uma personagem com pouca incidência, acaba por ser protagonista das suas próprias cenas, e ajuda a contextualizar a história do protagonista, trazendo essas histórias paralelas e que se cruzam com a sua. Quando vi a primeira exibição no Festival de Cannes, achei que o filme tinha uma montagem muito democrática, porque apesar de já ter feito filmes com maior incidência, senti que cada momento em que as personagens aparecem, a minha e não só, elas contam as suas histórias. Com silêncio, com dúvidas, ou no caso da minha personagem, a Teresa Vitória, que conta a história da 'Perna Cabeluda'...

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É uma história que acaba por marcar o filme.

Sim. Não existem papéis pequenos.

Isabél trabalha muito no estrangeiro, inclusive tem formação artística no Rio de Janeiro.

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Sim. Também aqui, no Conservatório, no Chapitô, na Escola Superior de Teatro e Cinema e depois fiz um intercâmbio no Rio de Janeiro, em Artes Cénicas.

Essa internacionalização deveu-se a um desejo seu de descoberta de outras realidades, outros meios artísticos, ou, por outro lado, a uma eventual falta de oportunidades no meio português, a uma necessidade que sentiu de ter de ir para fora?

As duas coisas. Quando fui, ainda estava a estudar, não tinha entrado no mercado de trabalho, mas tentava e via que as coisas eram um pouco complexas, o que tem a ver com o próprio mercado artístico aqui. Precisava de fazer outras coisas, e de falar a minha língua materna para conseguir exprimir-me de forma clara e objetiva nos próprios processos artísticos. Pensei muito em ir para Londres, para França, a maior parte da minha família é emigrada nos países do Norte da Europa... e escolhi o Brasil justamente por ser um país que fala a língua portuguesa, e onde tinha a possibilidade de trabalhar. Quando cheguei, na altura do intercâmbio, consegui logo dar aulas. Depois consegui o meu primeiro trabalho através de uma oficina, e colaborei com esse diretor e coreógrafo durante mais de dez anos, até 2020; ainda hoje temos uma relação muito próxima, só por questões de agenda é que não temos colaborado tanto quanto queríamos. 

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Consegui criar laços, criar a minha própria identidade artística. Depois, em 2017, voltei a Lisboa e criei a minha companhia de teatro, a Aurora Negra, estreei-me na sala-estúdio do Teatro Nacional, em 2020, mesmo durante a pandemia, depois consegui re-estrear-me com outro espetáculo na Sala Garrett do D. Maria II, criar um festival, estrear-me no Teatro do Bairro Alto em 2023...

Quando se dá esse regresso em 2017, existiam pontes com o seu trabalho no Brasil? Ou foi um 'recomeço', em contextos e propostas diferentes que surgem dos dois lados?

Existe essa ponte de ligação. Trabalho muito com arquivo e memória, com biografia e autobiografia, misturando a ficção e a realidade. Então consigo de alguma forma expandir essa ponte artística nos trabalhos. Obviamente que, dependendo do contexto, as necessidades que vou tendo enquanto artista vão mudando. Por exemplo, acabei agora de filmar o meu primeiro filme enquanto realizadora, uma curta-metragem que fala exatamente dessa ponte e de atravessar o Atlântico, e que gravei no Rio de Janeiro e em Lisboa, que é a minha cidade natal.

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Falando disso, que outros projetos atuais e futuros podemos esperar?

Neste momento acabei de sair do set de filmagem do João Salaviza e da Renée Nader Messora, estão a fazer mais um filme, gravado outra vez no Brasil, na comunidade Krahô da Amazónia, e vieram gravar uma parte aqui a Lisboa. Vou gravar também um filme com o Ivan Granovsky, que é um realizador argentino radicado em Itália, e estou a criar o meu próprio espetáculo, que se chama 'Som, Matéria e Coração - Afrosaloia', que tem a ver com a biografia que me reflete. Cresci em Loures, considero-me saloia, e também sou afro, então gosto de brincar com esses conceitos identitários e criar novas versões desses conceitos.

É para estrear este ano?

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Estreia em Guimarães, sim, em junho.

Uma última pergunta para domingo à noite, a cerimónia dos Óscares. Vai ver, já tem planeado como vai ser a sua noite?

Vou para lá! Vou à cerimónia, fui convidada. Estou muito expectante, não vou ter uma folga antes, mas só participar e ir lá já é uma vitória muito grande. Tem sido muito bonito, e tenho sido muito apaparicada e bem tratada.

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Da parte dos portugueses, certamente estarão a torcer por ‘O Agente Secreto’.

Sim, as pessoas têm-me dado um feedback muito bonito. É celebrar o cinema, celebrar a arte, acima de tudo.

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