"Quero realizar um filme por ano"

Carlos Saboga esperou até os 76 anos para se estrear como realizador. Já em exibição nos cinemas, 'Photo' é o primeiro filme de um dos melhores argumentistas portugueses.

10 de maio de 2013 às 01:00
Carlos Saboga, Cinema, Photo, Estreia, Argumentista, Mário Barroso, António-Pedro Vasconcelos, Paulo Branco, Cinema português, Manoel de Oliveira Foto: Pedro Catarino
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Carlos Saboga - Foram as peripécias da vida. Desde o início, quando era jovem e comecei a trabalhar no cinema, queria realizar. Mas depois tive de deixar o país e não tinha documentos, pelo que era difícil arranjar trabalho em França. Por vezes conseguia na televisão, mas sem figurar nos genéricos. Mais tarde comecei a escrever argumentos e parecia-me ter chegado a uma idade em que estrear-me seria ridículo.

- Pôs a hipótese que nunca chegasse a acontecer?

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- Provavelmente tinha a ideia de que acabaria por realizar, mas não era uma coisa que procurasse e que me preocupasse muito. Tive várias ocasiões em que me falaram da hipótese, cheguei a apresentar projetos de curtas-metragens e um de longa-metragem, mas acabou sempre por se gorar. Quando o Paulo Branco propôs produzir o filme que eu realizasse, então pensei nisso seriamente, escrevi o argumento mais pessoal - os que escrevi antes eram, na maior parte, encomendas de produtores e realizadores - e aproveitei a ocasião.

- Paulo Branco não teve de o convencer...

- Não. Num primeiro momento pensei que era um bocado absurdo fazê-lo, mas quando se assegurou financiamento... Fui assistente de realização, pelo que não era um salto no desconhecido.

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- Houve algum momento na sua carreira em que sentiu que o argumento do filme estava a ser traído pelo realizador?

- Frequentemente (risos). Sobretudo aquilo que escrevi para a televisão é frequente não corresponder ao que tinha pensado. Ficava frustrado com o resultado, mas a certa altura habituei-me. Era a regra do jogo. Aconteceu-me também em alguns filmes não ter ficado satisfeito. Não por não serem interessantes, mas por não corresponderem à 'mise-en-scène' que tinha em mente ao escrever. É difícil que corresponda, porque os realizadores - quem quer que seja, e já trabalhei com realizadores meus amigos - têm de chamar o filme a eles. Quando os conhecia, como ao António-Pedro Vasconcelos, sabia mais ou menos o que iria dar. Não era surpreendido, embora às vezes ficasse um bocado frustrado. Quando pude realizar, pensei logo: agora, se o filme não resultar como eu quero, é por culpa minha.

- O Carlos Saboga realizador traiu o Carlos Saboga argumentista em 'Photo'?

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- Trair não direi, mas adaptei-me às circunstâncias e aos atores. Não tive todos os que tinha pensado. E aos problemas de produção que há sempre, desde as condições atmosféricas até à falta de meios para fazer certas coisas. Foram questões mínimas. Não me perturba nada mudar o argumento. Aliás, nos que escrevi para outros também pensei que eles deviam ser mais fiéis ao espírito do que à letra. Realizar foi um prazer enorme - não sabia que iria gostar tanto - e um dos fatores que me agradou foi a possibilidade de mudar coisas.

- Teve o cuidado de não se estrear com um filme como 'Aqui d'El-Rey' ou 'As Linhas de Wellington'...

- Esses filmes, que eu gosto de escrever, não são o tipo de coisas que gostaria de realizar. Gosto de ver o resultado feito por outros realizadores mas não aspiro a realizá-los.

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- Por uma questão de gosto ou por temer a logística?

- Com uma boa equipa de produção os problemas logísticos ficam mais ou menos resolvidos. O problema é o gosto pessoal. O 'Photo' corresponde a algo pessoal e o próximo, que já escrevi, também. São temáticas que nunca abordei - ou abordei muito à tangente - nos filmes que escrevi e que me interessa abordar enquanto realizador.

- O próximo filme será mais autobiográfico?

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- Pelo contrário. Passa-se nos anos 40, com refugiados da II Guerra Mundial. Não teve a ver com a minha biografia, mas sim com o que li, o que vi e me preocupa.

- Este seu 'Photo' tem muito a ver com a relação com o passado. É um tema que o preocupa?

- Penso que um dos problemas da atualidade e das gerações que vieram a seguir à minha é o divórcio crescente com a História, a memória e a herança. Isso preocupa-me. Acho que é grave não se saber de onde se vem. Não foi por acaso que quis manter o título com foto escrito com "ph". Tem a ver com as raízes da língua latinas e gregas e penso que é bom lembrar de onde vimos.

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- Como escolheu este elenco franco-hispano-português?

- Desde o princípio, quando estava a escrever o argumento, pensei na Anna Mouglalis, que é o fio condutor da história e aparece em praticamente todos os planos. Não a conhecia, não sabia se ela iria aceitar, mas gosto muito dela. Quando a conheci percebi que não era como eu pensava, mas correspondia ao personagem. No resto do elenco, tinha pensado no Rui Morrison e na Ana Padrão. Outros não conhecia de todo, como o Simão Cayatte ou o José Neto e a Anabela Brígida. Todos eles me foram apresentados no casting com a Patrícia Vasconcelos e escolhi entre várias hipóteses. Nos franceses houve um problema, pois tinha começado com o Michel Piccoli no papel do falso pai e ele teve um problema de saúde. Já tinha filmado dois dias com ele, mas tive de mudar. Estou muito satisfeito com o Johan Leysen, que é um ator que tem feito mais teatro do que cinema. Não só é um ator excepcional como é uma pessoa deliciosa, com quem dá prazer trabalhar. Mas isso foi geral com todos.

- Sentiu falta de algum intérprete que tenha dado corpo a uma personagem que criou para outros filmes?

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- Tinha pensado num outro actor para a personagem do Didier Sandre, mas ele não aceitou. Achou o papel pouco importante para ele. Mas o Sandre também foi uma descoberta e desde o primeiro encontro vi que havia afinidade. Portanto, não fiquei frustrado com o casting. Satisfaz-me plenamente. Mesmo a Hélène Patarot, que é a asiática, descobri-a num autocarro, porque ela mora perto de mim, e nem sabia que ela era actriz. Já tive feito um filme em Portugal, com Laurence Ferreira-Barbosa.

- Dirigir atores foi uma experiência nova ou já se tinha aproximado deles noutros filmes em que esteve envolvido?

- Nunca o tinha feito, mas vi dirigir actores. Colaborei com realizadores com quem tenho afinidades, como o Mário Barroso ou o António-Pedro Vasconcelos. Gostei imenso. O trabalho com atores é o que me agrada mais na realização. Admiro-os em geral. Todos nós começámos por admirar atores antes de sabermos o que é um realizador. Continuo a ter com eles a mesma relação que tinha em miúdo quando via o Errol Flynn ou o Humphrey Bogart. Foi extremamente gratificante. Filmar a Mouglalis deu-me um prazer enorme, porque ela é muito bonita, é uma excelente atriz, tem uma voz fabulosa e é uma pessoa excepcional.

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- Sentiu a tentação de telefonar a algum dos realizadores com quem já trabalhou quando tinha problemas numa cena?

- Trabalhei no 'Photo' com um deles, o Mário Barroso, que era o diretor de Fotografia, e a quem pedi frequentemente opiniões. Quando tinha dúvidas na 'mise-en-scène' pedia-lhe conselhos, o que ele recusava um bocado, porque não se queria intrometer no filme. Ajudou imenso e a sua presença deu-me uma tranquilidade enorme, como todo o resto da equipa técnica. Eram pessoas competentes e que me ajudaram imenso, pois um filme não se faz sozinho. E esse trabalho colectivo agrada-me já quando escrevo e afino um argumento com o realizador. Sempre gostei imenso. O argumento faz-se caminhando, com um interlocutor.

- Escreveu que o essencial do filme talvez seja aquilo que não se vê. É assim que encara o cinema?

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- Penso que o filme se joga entre o visível e o não visível, e que o sucesso de um filme depende daquilo que se sugere. Parece-me que isso é o essencial.

- O que espera que o público vá sentir ao ver 'Photo'?

- Já fiz várias antestreias e fui ao Festival de Roma. Evidentemente não estou à espera que este filme tenha um sucesso de público enorme, porque não é de grande espectáculo, mas sim íntimo e confidencial.

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- Um filme de personagens...

- Como tudo o que eu escrevo. Parto das personagens e para mim a intriga é secundária. Tem de existir, mas ao contrário da escola de argumentistas anglo-saxónicas penso que não é o essencial. Quando isso acontece há uma distorção, com prejuízo para as situações e para os personagens.

- Que idade tem?

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- Tenho agora 76.

- Manoel de Oliveira tinha 70 quando fez o 'Amor de Perdição'. Imagina-se a seguir-lhe o exemplo e a fazer filme sobre filme daqui em diante?

- Não me imagino de outra maneira. Vou continuar a fazer argumentos para outros realizadores, mas quero realizar um filme por ano. Depende dos financiamentos e do êxito que tiverem, mas a minha intenção é essa. É não parar. A partir do momento que comecei, já não tenho muito tempo...

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