RODRIGO LEÃO ACUSADO
O compositor Rodrigo Leão, nome que já passou pelos Sétima Legião e Madredeus, é acusado pelo Ministério Público do crime de usurpação pelo uso ilegal da voz da cantora Nair Leonora Correia que, em 1992, participou na gravação da sua primeira maqueta (amostra) a solo.
Segundo a queixosa, Leão terá usado a sua voz na gravação final do tema "Ave Mundi" (incluído no álbum "Ave Mundi Luminar"), sem a sua autorização e sem fazer qualquer referência ao seu nome no disco, "algo que é obrigatório", lembra.
O músico, que já prestou Termo de Identidade e Residência (TIR) no âmbito do processo, incorre agora numa pena de prisão até três anos e numa multa de 150 a 250 dias, de acordo com o artigo 197 do Código dos Direitos de Autor e dos Direitos Conexos.
Contactado pelo Correio da Manhã, Rodrigo Leão considera, no entanto, este caso um "absurdo" e diz que a voz que consta de "Ave Mundi" não é a de Nair mas a de Nuno Guerreiro.
"De facto", confirma, "convidei a Nair para fazer a voz principal desse tema, só que já na fase final de gravação do disco ela esteve três dias sem conseguir afinar. Como estávamos a perder muito tempo em estúdio, decidi então, juntamente com o António Pinheiro da Silva (produtor do disco) e o Francisco Ribeiro (director de músicos), chamar o Nuno Guerreiro", relembra o músico.
"Aquilo que aconteceu é que a Nair ficou muito transtornada porque a sua voz foi retirada definitivamente do disco", justifica Rodrigo Leão, assegurando que a cantora recebeu tudo o que tinha direito, nomeadamente os 75 mil escudos referentes à participação na maqueta.
"Neste momento isto é absurdo. Ela diz que ouve a voz dela no disco, quando todos sabem que a voz em causa é a de Nuno Guerreiro".
PERITAGEM EM CAUSA
A história remonta ao início da década de 90 quando Nair Leonora Correia conheceu Paulo Abelho, um dos elementos da Sétima Legião. "Na altura, eu andava a estudar no Conservatório", diz. "Tinha uma voz que era muito escura, muito versátil. E foi o Paulo que me apresentou ao Rodrigo Leão", conta a cantora que, por saber um pouco de latim, até ajudou o músico a compor alguns dos temas. "É verdade que ele me deu co-autoria na SPA (Sociedade Portuguesa de Autores), referente aos temas 'Ave Mundi' e 'In Excesis', mas nunca o referiu nos discos, algo que é obrigatório", lembra. "Nem sequer houve um agradecimento", desabafa.
Nair Leonora vai agora mais longe e diz mesmo que a sua voz tem sido usada por Rodrigo Leão em vários dos seus discos. "Ele tem usado a maqueta de 92 para ‘samplar’ a minha voz. O tema 'Pasion', de 98, por exemplo, começa com a minha voz", acusa.
Questionada do porquê de só agora ter apresentado queixa, Nair diz que apenas há dois anos se apercebeu de que andava a ser “enganada”. "Em 2001 a minha mãe ouviu o ‘Ave Mundi’ no programa da RTP2 ‘Artes e Letras’ e alertou-me para o caso". Hoje, Nair diz-se segura: "Ele usou a maqueta por mim gravada e ‘samplou-a’, mas diz que é a voz de outra pessoa".
Rodrigo Leão nega tudo e contesta, inclusive, a peritagem feita pelo maestro José Maria Atalaya que consta do auto do processo e que confirma a voz de Nair. "Essa é uma questão que não compreendo. Eu também tenho as minhas provas e vou apresentá-las. Ele não deve ter ouvido o ‘master’ da música, ou seja as pistas separadas. O que ouviu foram vozes muito semelhantes. Mas nada permite concluir que é a de Nair. Eu não ganhava nada em pôr lá a voz dela e depois dizer o contrário", comenta.
Nair Correia, contudo, garante que vai levar o caso até ao fim, insiste que a voz é sua, diz-se “magoada e revoltada” e reclama uma indemnização entre 7500 e 10 mil euros. Mas, ainda assim, levanta uma bandeira branca. "Se o Rodrigo estiver na disposição, podemos chegar a um acordo". O caso está nas mãos do Ministério Público.
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