Salazar está na moda
Salazar a tentar estrangular a governanta Maria ou enrolado na cama com a antiga professora Felismina: eis alguns dos ângulos, inesperados, sob os quais surge retratado, em ‘Férias Grandes com Salazar’, o ex-ditador português.
Trata-se do espectáculo que José Carretas estreou ontem à noite no Teatro da Politécnica, em Lisboa, e na qual o autor espanhol Manuel Martinez Mediero deu plena liberdade à sua pena na tentativa de mostrar os ridículos da política e a mesquinhez das ditaduras.
António de Oliveira Salazar volta assim às luzes da ribalta, ele que, depois de ganhar o muito contestado concurso televisivo ‘Grandes Portugueses’, da RTP 1, vai ainda ver lançado no mercado nacional, por duas editoras, o livro ‘Comment on Releve un Etat’, que escreveu e publicou em francês (ver caixa). No teatro, e para além do espectáculo de Carretas, está prometido – ainda para esta temporada – um musical sobre esta figura histórica. Com o sugestivo título ‘Salazar – The Musical’, o espectáculo contará com interpretações de José Pedro Vasconcelos e de Miguel Melo e será produzido pela UAU.
Mas, voltando às ‘Férias Grandes com Salazar’ (título que evoca a obra que a francesa Christine Garnier escreveu aquando da sua passagem pela Lisboa fascista), o espectáculo acompanha os últimos dias do ditador, a braços com a decadência física e intelectual, mas incapaz de abrir mão do poder.
A seu lado aparecem outras figuras históricas, como o general Franco, o pide Silva Pais, o cardeal Cerejeira ou o fantasma do general Humberto Delgado. Para dar algum picante à história, os amores – reais ou imaginários – de Oliveira Salazar são passados em revista.
Francisco Brás nasceu em 1955, frequentou o Conservatório, tem o Curso de Especialização em Estudos de Teatro da Faculdade de Letras da Universidade e o curso de Jornalismo Televisivo do Cenjor. Fez muito teatro, algum cinema e participou em diversas produções televisivas e é director do Teatro da Crinabel, para o qual tem assinado todas as encenações. Foi escolhido para dar corpo a Salazar por casting.
DUAS EDIÇÕES, O MESMO TEXTO
‘Comment on Relève um État’, que António de Oliveira Salazar publicou em francês, em 1937, pela editora Flammarion, é agora reeditado em Portugal em dupla edição da Esfera do Caos e da Atomic Books: o primeiro – que inclui a reprodução do original em francês – sai depois de amanhã com o título ‘Como se Reergue um Estado’ e o segundo (que assinala a estreia da editora) está à venda desde dia 18 sob o nome ‘Como se Levanta um Estado’.
O texto original resulta de uma selecção de discursos, comunicações e apontamentos do então Presidente do Conselho sobre política, educação, família e forças armadas e já teve duas edições portuguesas: uma em 1977 pela Golden Books e outra em 1991 pela Mobilis in Mobile sempre com o título ‘Como se Levanta um Estado”.
"UMA QUESTÃO DE CONJUNTURA"(A. Costa Pinto, Historiador
“O concurso ‘Os Grandes Portugueses’ colocou Salazar, ironicamente, na agenda, após 25 anos de esquecimento. Primeiro foi odiado, depois ignorado, mas é natural que, numa conjuntura de crise, reapareça o interesse pelas figuras de líderes autoritários.”
"GRANDES OBRAS FOI O QUE ELE FEZ" (J. Hermano Saraiva, Historiador)
“O Salazar governou o País durante 40 anos, fez estradas, hospitais, tribunais, barragens... As grandes obras foi ele quem fez. É natural que, numa altura como aquela em que estamos, se voltem a lembrar dele.”
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt