Sara Correia esgota Meo Arena na estreia: Deus só pode gostar de fado!

Cantora esgotou a maior sala de espetáculos do país, que acabou por ser revelar pequena demais.

08 de março de 2026 às 15:53
Sara Correia brilhou na Meo Arena Foto: Fábio Teixeira
Sara Correia esgota Meo Arena em noite de fado Foto: Fábio Teixeira
Sara Correia deslumbrou Meo Arena Foto: Fábio Teixeira
Sara Correia atua no Meo Arena, após esgotar bilhetes para o espetáculo. Foto: Fábio Teixeira
Sara Correia teve casa cheia na Meo Arena Foto: Fábio Teixeira
Sara Correia e com Pedro Abrunhosa na Meo Arena, em Lisboa Foto: Fábio Teixeira

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Já por várias vezes Sara Correia confessou não ter escolhido nascer onde nasceu, no bairro de Chelas, em Lisboa. Pois as primeiras palavras, sobre a sua estreia, este sábado, no Meo Arena vão diretamente para ela: Sara tu nasceste exatamente no sítio certo! E foi por teres nascido a ouvir tudo o que terás ouvido e a sentir tudo o que terás sentido que te tornaste grande, que te tornaste maior do que o teu bairro. E não, tu não escolheste ser mais na vida do que aquilo que a vida aparentemente poderia ter reservado para te dar. Tu foste escolhida. Provavelmente estava escrito que serias fadista, tão certo quanto dizerem que o fado é destino. Bem sabemos que ainda em criança ganhaste coragem e, sozinha, foste bater à porta de uma escola de fados para te deixarem cantar, mas toda a gente sabe que a ‘sorte’ só bafeja os audazes e as oportunidades só aparecem a quem luta por elas. Ainda bem Sara, que tu cresceste a ser repreendida pelo tamanho das tuas unhas, pela forma de falares, a pedirem-te para fingires seres uma senhora, para seres mais comedida e para não falares calão. Ainda bem Sara, que tu cresceste a veres a pobreza de perto, os horrores da tua gente e a não usares vestidos. E sabes que mais? Ainda bem que nunca acreditaste naquilo que sempre te disseram: que ganha quem tem poder e não quem tem coração. Isso moldou-te para o fado, para um fado fatalmente belo e poderoso.

As próximas palavras vão para todos aqueles que não tiveram o privilégio de poder assistir à estreia de Sara Correia na maior sala do país (reservo os agradecimentos a todos os que lotaram o Meo Arena, porque esses percebeu-se que sabiam ao que iam). Aos que por distância, por impossibilidade ou simplesmente por desconhecimento (se é que isso ainda seja provável a esta altura), só é possível dizer uma coisa para se perceber o que aconteceu no sábado: Sara Correia é perfeita.

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Sara Correia é perfeita, é primorosa e é completa. Sara é perfeita nas maiores premissas que se exigem ao fado, a genuinidade e a autenticidade. Sara é primorosa, porque o seu fado ainda está em bruto, como ele se quer, pouco polido. Sara é completa, porque ainda canta com todas as suas imperfeições, as mesmas que todos temos. Sara é dor, é alegria, é pranto, é superação, é vitória, é fé, é medo e fragilidade, é murmúrio e desatino, mas enquanto subir ao palco e levar consigo a miúda maria-rapaz de Chelas que, no largo em frente à sua casa, pedia aos rapazes para jogar à bola, o seu fado estará a salvo.

O fado de Sara não se ouve apenas. O fado de Sara sente-se, cheira-se e vê-se. O fado de Sara tem o nó na garganta e a faca na liga de que ela tanto canta no tema ‘Avisem que Eu Cheguei’ ; o fado de Sara cheira a pão com chouriço e a caldo verde, a pataniscas e sardinha assada; no fado de Sara vê-se cada rua e cada beco de Alfama ou Mouraria; no fado de Sara veem-se as casas de fado e as tascas; veem-se as pedras da calçada portuguesa; veem-se os grandes vultos da canção de Lisboa com Amália à cabeça. Sara carrega às costas o peso e a leveza do fado; a história do fado; a carga de mais de mil guitarras portuguesas; o 'fardo' do xaile negro; o cansaço dos muitos que rasgaram a voz até de madrugada; Sara é noite; sabe ser escura e soturna à luz do dia e sabe ser luz quando a noite cai; Sara carrega o trinado das cordas, mas também as palavras de Florbela Espanca ou Sofia de Mello Breyner Andresen.

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Sara já é muito maior do que ela julga e muitíssimo maior do que nós julgamos. Isso transparece na sua voz, mas também na sua emoção, nas suas lágrimas, na presença, nos gestos... Na noite de sábado, que teve como convidados Pedro Abrunhosa, Carolina Deslandes e Calema, a determinada altura, o músico e diretor artístico do espetáculo, que é também amigo de infância, Diogo Clemente, disse: “Obrigado Deus por me fazeres viver no tempo da Sara Correia”. Dizemos nós: Obrigado Deus, por em algum momento, gostares de fado. 

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