SÓ MOSTRO A OUTRA FACE DA IGREJA

Um dos melhores realizadores mexicanos da actualidade, Carlos Carrera, rendeu-se a Eça de Queiroz e transformou em filme ‘O Crime do Padre Amaro’. <BR>A obra escandalizou a Igreja local, mas convenceu crítica e público e vai já a caminho dos Óscares. A uma semana da sua estreia em Portugal, o CM falou com o realizador,

08 de novembro de 2002 às 00:00
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CM - O seu filme é uma adaptação de um romance do século XIX, de Eça de Queiroz. Leu a obra original?

Carlos Carrera - Claro que sim. Apesar da obra ter sido adaptada ao cinema pelo escritor Vicente Leñero, tive o cuidado de ler a versão original e posso dizer que fiquei impressionado com a visão irónica de Eça de Queiroz, que no século XIX fez uma reflexão bastante actual e impressionante do estado da igreja católica e das suas ligações perigosas com o poder político. Além disso, fiquei fã do espírito irónico e aguçado de Eça.

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- Foi por considerar que é um tema bastante actual, que decidiu que a acção se desenrolaria no século XXI, e não em Portugal, mas no México?

- Para mim, esta história é intemporal, e por isso funciona tão bem no México como em qualquer parte do Mundo. E, como se pode ver pelo filme, pouco ou nada mudou no seio da Igreja. Senão vejamos: o celibato mantém-se e a igreja continua a "perdoar" situações de hipocrisia (como as que são relatadas no livro, e no filme).

- Apesar da polémica que o filme gerou no seio da comunidade católica mexicana – que tentou boicotar a sua divulgação – continua a defender que não se trata de um ataque à Igreja?

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- De maneira nenhuma. Neste contexto, os que transgrediram a regra e tiveram comportamentos pouco dignos da sua actividade foram os padres. Eu só mostro a ‘outra face da Igreja’, nem sempre ao serviço dos fiéis. Mas no filme fiz questão de mostrar que nem todos são maus; nem todos mantém ligações ilícitas com o poder político, ou com os narcotraficantes. Só que nos dias que correm, é inegável que existe um divórcio claro entre o discurso dos sacerdotes e as suas acções. Veja-se o caso do Padre Benito [personagem do filme]. Aos olhos da comunidade, ele defende o celibato, mas depois mantém uma relação secreta com uma mulher só porque não é capaz de aguentar a solidão.

- Numa recente entrevista, afirmou que a sua única intenção foi contar uma história humana, repleta de contradições e dilemas. O problema dessa história é que as personagens principais são sacerdotes, o que torna o 'assunto' mais delicado.

- Mas está na altura de falar abertamente dos problemas, sem tabus. Não é para isso que existe a arte, o cinema ou a música? Desde que os temas mais delicados sejam abordados de forma séria e profissional – como foi o caso - não há razões para a censura. É por isso que fiquei decepcionado com a atitude de alguns conservadores mexicanos, que se manifestaram contra o meu filme. Afinal, vivo num país livre...

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- É católico?

- Sou culturalmente católico. Mas não sou praticante. Faço parte daquela esmagadora maioria de católicos que se sente decepcionada com a forma como a Igreja tem vindo a posicionar-se na sociedade.

- Partilha da opinião do padre Amaro (a personagem principal), que chega a admitir que o celibato é responsável pela maioria dos problemas da igreja?

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- E é verdade. O celibato vai contra os direitos mais elementares dos seres humanos, e por arrasto, dos sacerdotes. Como é que se pode negar aos homens o direito aos afectos e à sensualidade?

- ‘O Crime do Padre Amaro’ foi seleccionado para representar o seu país na candidatura aos Óscares 2002. No México, mais de cinco milhões de espectadores já o viram. Pode-se dizer que uma dose de controvérsia ajuda sempre a "vender"?

- Claro que ajuda. No fundo, os filmes são feitos para serem vistos e para transmitirem mensagens e ideias. Ao contrário do que esperaria, o filme tornou-se num verdadeiro sucesso de bilheteira. E se de início as pessoas iam ao cinema com o único intuito de ver as cenas mais ousadas, ao fim de um tempo renderam-se à história. Para mim, ‘O Crime do Padre Amaro’ é uma belíssima história de amor. E como quase todos os bons romances acaba de uma forma trágica.

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- No final, vence o cinismo...

- É trágico, mas é o final mais próximo da verdade. É por isso que diz: "A verdade incomoda".

- Além de Eça de Queiroz, conhece a obra de mais algum autor português?

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- Conheço bem a obra de Saramago e sei que recentemente um dos seus livros foi adaptado ao cinema. Ainda não vi o filme, mas estou com curiosidade. Quem sabe se para a próxima não vou ao encontro de um autor português contemporâneo? O que não faltam são boas histórias.

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