Três fechados numa jaula
Jean-Paul Sartre tinha 39 anos quando uma das suas amantes, que era actriz, lhe pediu que escrevesse uma peça para ela. ‘Huis Clos’, em que profere, talvez, aquela que é a sua frase mais conhecida – “O inferno são os outros” – tornou-o famoso como homem de letras, já que até então era sobretudo reconhecido como filósofo.
Quase 70 anos depois, o Teatro de Carnide decidiu levar a peça à cena e encomendou a encenação a Rui Neto, que está a apresentar a sua versão de ‘Inferno’ na sede do grupo, em Carnide, até 1 de Dezembro, com interpretações dos actores Carla Chambel, Sofia Ângelo e Miguel Damião.
O texto, que em sete décadas não perdeu frescura, conta a história de três pessoas que, encerradas contra vontade um espaço exíguo, espécie de jaula claustrofóbica, se vêem obrigadas a ficar juntas... para a eternidade.
Muito hábil na forma como vai doseando a informação sobre as suas criaturas, Sartre coloca o espectador num estado de surpresa permanente, da mesma forma que entermeia magistralmente o discurso racional – em que as personagens tentam perceber a situação em que se encontram e avaliar as suas possibilidades de lidar com ela – com os estados mais emotivos, em que se entregam violentamente aos afectos. Sejam eles o mais básico impulso sexual ou o não menos básico instinto de luta.
Rui Neto assina um espectáculo de grande rigor, desenhado ao pormenor tanto na coreografia física como emocional, em que nada está a mais ou a menos.
Para a perfeição formal deste ‘Inferno’, que nos mantém agarrados à cadeira do princípio ao fim, contribuem também os desempenhos dos actores, que vivem apaixonadamente as suas personagens e os conflitos que as movem.
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