Documentário conta a história de Angelita Pérez, nascida no País Basco e enviada pela família, em 1937, quando tinha quatro anos, para a então União Soviética.
A "aventura tão extraordinária" da mãe da artista plástica Ana Pérez-Quiroga, por Espanha, União Soviética e Portugal, chega às salas de cinema nacionais na próxima semana, no filme "¿De qué casa eres?".
O documentário, que já passou por festivais e universidades de vários países, conta a história de Angelita Pérez, nascida no País Basco, no nordeste de Espanha, e enviada pela família, em 1937, quando tinha quatro anos, com a irmã de cinco, para a então União Soviética (URSS), onde viveu até aos 24 anos, depois de passar por diversos locais que são hoje território da Ucrânia e da Rússia.
Angelita Pérez, que pouco depois de regressar a Espanha, licenciada em Medicina em Moscovo, se casou com um médico português, adotou a nacionalidade portuguesa e veio viver para Portugal, onde ainda hoje reside. Foi uma das 30 mil crianças espanholas enviadas, sem os pais, para países estrangeiros para escapar à guerra civil de 1936-1939, que desembocou na ditadura do general Francisco Franco.
Na URSS, Angelita Pérez acabou por viver outra guerra, a II Guerra Mundial, o que a levou a andar de cidade em cidade e de colégio interno em colégio interno, até perto da Sibéria, em episódios que se foram sucedendo e estendendo por milhares e milhares de quilómetros que conta, num diálogo com a filha, no filme "¿De qué casa eres?" ("De que casa és?").
"Toda a minha vida quis tratar deste tema, só que a minha mãe não me deixava", contou Ana Pérez-Quiroga à Lusa, descrevendo Angelita Pérez como um pouco tímida e discreta.
A artista foi convencendo a mãe "aos bocadinhos" e Angelita Pérez "entusiasmou-se" depois de a filha ter ganhado, em 2017, uma bolsa Criatório, dada pela Câmara Municipal do Porto para apoio à criação contemporânea.
Ana Pérez-Qiroga conseguiu essa bolsa com um projeto sobre a história da mãe e com ela viajou à Ucrânia e à Rússia, refazendo passos de Angelita Pérez. Registou e encontrou materiais, como fotografias desse grupo de crianças espanholas em que estavam a mãe e a tia.
O documentário, produzido pela Sopro Filmes e Joana Ferreira, acabou por ser possível e tornar-se realidade com financiamentos do ICA (Instituto do Cinema e do Audiovisual) e da RTP, obtidos em 2022.
"A minha mãe não é absolutamente nada nostálgica, nunca nos passou, a mim e aos meus irmãos, qualquer sentido traumático. Sempre nos contou a sua vida de forma aventurosa, com uma ideia de aventura. E isso passou para mim. Desde que me lembro de ter memória que pensava: mas que aventura tão extraordinária", contou Ana Pérez-Quiroga.
O documentário foca-se nessa "aventura tão extraordinária", sobretudo a dos anos de exílio de Angelita Pérez na ex-URSS, revelada num diálogo entre mãe e filha e onde se cruzam diversas linguagens, entre as das artes plásticas ou as puramente cinematográficas.
"Se por um lado é uma aventura, por outro também é uma grande comoção", acrescentou a artista, que sublinhou como a "aventura tão extraordinária" da mãe a marcou, depois de ter crescido a ouvir a aprender canções em russo, de "toda a vida" ter lido literatura russa e ucraniana e de ter tido contacto com estas duas culturas - assim como com a espanhola - através daquilo que sempre foi e é hoje a mãe.
O documentário é, assim, também sobre "pós-memória", essa espécie de "empatia enorme" pela geração ou gerações seguintes às que viveram um trauma ou um episódio ou acontecimento muito marcante.
E é também sobre identidade: "A quem se pertence depois destes périplos todos?", questionou Ana Pérez-Quiroga.
"A história da minha mãe começou em Espanha, mas foi a União Soviética que foi decisiva na sua vida. Sou portuguesa e espanhola, mas também sou russa e ucraniana. ¿De qué casa eres?", diz a artista num momento do filme.
"¿De qué casa eres?" levou Ana Pérez-Qiroga a vários locais de Portugal, Espanha, Ucrânia e Rússia e o documentário integra também imagens de diversos arquivos históricos.
Pode ser visto a partir do dia 15 em salas de cinema nacionais de pelo menos 13 cidades (Lisboa, Almada, Barreiro, Vila Franca de Xira, Santarém, Porto, Guimarães, Coimbra, Ovar, Sintra, Guarda, Covilhã e Funchal).
No ano passado, esteve em festivais de cinema na Grécia, Portugal, Uruguai, Espanha e Estados Unidos e já passou por várias universidades estrangeiras, em projeções e apresentações pedidas por departamentos de estudos de português e espanhol.
O périplo por festivais e universidades vai continuar e o filme vai passar por uma exposição em Lisboa de Ana Pérez-Quiroga, na Appleton Square, a partir de 21 de maio, e será motivo de um livro que a artista prepara.
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