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Só conheciam as músicas da ‘Floribella’ e dos ‘Morangos com Açúcar’ mas agora aprendem na escola o que de mais tradicional se faz, musicalmente, no Alentejo. Nas aulas extracurriculares de Educação Musical, 115 crianças das freguesias rurais de Almodôvar aprendem as modas e o canto alentejano.
Do programa fazem parte as modas mais tradicionais do cancioneiro nacional, algumas noções teóricas, mas as aulas são essencialmente práticas. E os alunos dizem estar “muito contentes com a disciplina”.
“Eu já tinha ouvido, mas não ligava. Agora gosto muito”, confessou ao CM Débora Guerreiro, de dez anos, aluna da Escola Primária de Gomes Aires, Almodôvar.
Mário Isidro, um pequeno fadista também de Gomes Aires, diz que não vai substituir a sua canção preferida, mas que está a ser bom conhecer a musica tradicional do Alentejo. “Gosto mais de cantar fado, mas esta música também é boa”, referiu.
Para ensinar estas crianças foi destacado Pedro Mestre, um apelido que lhe assenta que nem uma luva: aos 23 anos, este alentejano de Castro Verde é artesão, construtor de viola campaniça, membro e ensaiador de vários grupos corais e de musica tradicional. Já tocou com os Adiafa e participou com um dos seus grupos, Os Ganhões, no disco ‘O primeiro Canto’, de Dulce Pontes. E ainda realiza workshops e investigação para trabalhos académicos.
“Quando comecei a dar as aulas percebi que a grande maioria das crianças desconhecia por completo o estilo de música”, explicou Pedro Mestre, adiantando que o conhecimento musical dos alunos se prendia essencialmente com a “cultura de massas” e com a informação que “entra pela televisão”.
“É importante que os gostos musicais sejam alargados e que essa formação comece pelo que de mais tradicional têm, daí a importância desta disciplina”, rematou, explicando ainda que é “muito gratificante perceber que estas crianças já começam a interiorizar o espírito”.
HERANÇA
A iniciativa das aulas de canto alentejano partiu da Câmara de Almodôvar, no âmbito do programa de actividades extracurriculares do Ministério da Educação. E foi assim que, em Janeiro, a disciplina de Educação Musical entrou nas escolas primárias das freguesias rurais do concelho.
“Esta ideia surge na tradição que não pode ser perdida. O concelho tem um grande legado no que diz respeito à musica tradicional. Ensinar nas escolas desde tenra idade é essencial para assegurar a continuidade”, confirmouAntónio Sebastião, presidente da autarquia.
A receptividade tem sido tão grande que no próximo ano lectivo a Câmara pretende alargar as aulas às escolas primárias da sede do concelho.
CANTARES ESTÃO NO GUINESS
A 20 de Maio de 2006, por iniciativa do INATEL de Beja, cerca de 50 grupos de cantares alentejanos desfilaram pelo centro histórico da capital do Baixo Alentejo. No final, em uníssono, entoaram a moda ‘Alentejo’, uma das mais populares do cancioneiro nacional. A praça da República foi assim palco do maior concerto coral até agora realizado em Portugal.
Cerca de mil vozes colocaram uma das mais genuínas representações da cultura alentejana no Guinness. A inexistência de um recorde de tais características neste livro foi a razão que levou a organização do Dia do Cante a apresentar uma candidatura. Depois, foi só afinar as gargantas. Na altura, os responsáveis admitiam que a visibilidade que o evento poderia dar ao canto alentejano “era muito importante para que este não desaparecesse”.
ORIGEM NÃO É CONSENSUAL
O canto alentejano é uma forma de cantar única do Alentejo e não existe outra que seja, sequer, parecida. Nem mesmo os historiadores de música chegam a um consenso em relação às suas origens e influências. Há quem defenda que a proveniência é árabe, fruto da presença muçulmana durante largos séculos na região; outros dizem que a influência é católica e que é uma derivação do canto gregoriano. Mas ainda há os que asseguram que é uma mistura de ambos desenvolvida nas comunidades rurais do Alentejo ao longo dos anos.
As fontes mais contemporâneas do que conhecemos como canto alentejano podem ser encontradas nas formas de canção como o despique, o canto de ladrão, a gralha, o canto de baldão e o canto de alma, bem como formas populares de poesia do Sul do País. Nem a própria designação do género é pacífica: canto alentejano ou cante Alentejano são as duas formas utilizadas, sem que alguém assegure qual é a mais correcta.
ESTRANGEIRO
Para além da participação em inúmeros trabalhos de artistas nacionais, os cantares alentejanos têm passos dados além-fronteiras. Disso é exemplo o trabalho ‘Terra de Abrigo’ no qual participam a Orquestra Sinfónica de Córdoba (Espanha), coros alentejanos e o grupo Ronda dos Quatro Caminhos.
RÁDIO
A rádio Castrense emite há cerca de vinte anos o programa ‘Património’, de José Francisco Colaço. Às quintas-feiras, entre as 21h00 e a meia-noite, o espaço pertence à musica tradicional alentejana, com especial destaque para o canto.
GRUPOS
Actualmente, existem cerca de 50 grupos corais distribuídos pelo Alentejo, Algarve, região de Lisboa (margem Sul do Tejo e Setúbal) em resultado da diáspora alentejana da segunda metade do séc. XX.
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