António Vaz Pinto, padre, lança hoje, às 18h30, a obra ‘A História de Deus Comigo’ (Alêtheia Editores), no Grémio Literário, em Lisboa. Uma obra em que oferece uma perspectiva da sua vida, marcada pelo encontro com Deus.
Correio da Manhã – Como surgiu a ideia de escrever as suas memórias?
P. António Vaz Pinto – Nos últimos dois anos, surgiu a ideia de refazer a minha história com a presença de Deus para a partilhar com pessoas que conheço e não só. Para tentar ajudá-las a encontrarem o rasto de Deus nas suas próprias vidas e dar-lhes uma nota de realismo, optimismo e esperança. Para mim, a vida valeu a pena ser vivida e quero contá-la e partilhá-la com os outros.
– Do título, deduz-se que Deus foi e é uma presença fundamental na sua vida...
– Exactamente. Não se pode compreender a minha vida sem Deus. Neste livro, o ‘actor principal’ é Deus e é o testemunho de uma vida que só pode ser compreendida com Deus. A Sua presença foi tão marcante em mim como na vida dos outros à minha volta.
– Estas memórias, que vão da sua infância até ao ano 2005, são as mais marcantes?
– Os factos mais importantes da minha vida estão aqui descritos, explicados, reconhecidos e partilhados. Julgo que os leitores ficarão com uma ideia de sinceridade pois, apesar de muito variadas, são memórias sinceras.
– Foi aluno de Joseph Ratzinger, actual Papa Bento XVI, na Faculdade de Teologia da Universidade de Regensburg, Alemanha. Que recordações guarda dele?
– A de uma pessoa muito competente e conhecedora, que não se exaltava. Era um bocadinho tímido e muito voltado para os interesses dos alunos. Recordo-me dele como um grande mestre e um grande teólogo. Por uma circunstância curiosa – mudanças de instalações da faculdade –, utilizávamos o mesmo autocarro e, duas ou três vezes por semana, fazíamos o percurso a conversar e a falar sobre todos os assuntos.
– Ajudou a fundar os Leigos para o Desenvolvimento (1986) e o Banco Alimentar contra a Fome (1990). Sente que estas instituições cumpriram os seus objectivos?
– Estive na origem destas duas instituições e elas são obras que nunca acabam. São árvores nascidas de pequeninas sementes, mas que dá gosto ver o seu fruto. Dá muito gosto ver como, ao longo de 20 anos, os Leigos continuam a existir e a crescer. Também o Banco tem vindo a crescer e a aumentar em quantidade e qualidade, de uma maneira extraordinariamente satisfatória. Isso não é mérito meu mas do seu dinamismo próprio.
– Entre 2002 e 2005, foi alto comissário para a Imigração e Minorias Étnicas? De que maneira a associação ajuda os imigrantes a enfrentarem uma vida nova em Portugal?
– O problema da imigração e integração das minorias é, sem dúvida, um dos mais complexos da nossa realidade actual. Após uma madura reflexão, aceitei o cargo porque achei que seria uma oportunidade muito grande para lutar pela promoção da justiça das pessoas que chegam a Portugal sem condições para uma vida digna e justa. Durante os três anos que exerci o cargo, a minha equipa e eu conseguimos fazer um conjunto muito grande de coisas que estavam por fazer. Não está tudo feito, mas julgo que se pode fazer muitíssimo neste campo. Tivemos sempre o apoio político, o que permitiu que, a nível legal e prático, a imigração em Portugal esteja muitíssimo bem cotada, em termos europeus e até mundiais.
– Como gostaria de ser recordado pela pessoa que lê as suas memórias?
– Como um homem de fé, um homem de Deus e um homem que encontrou Deus no seu caminho. Para mim, a fé não foi um entrave, mas, antes pelo contrário, um impulso para o serviço ao próximo e para criar um mundo mais justo e fraterno.
António Vaz Pinto nasceu em Lisboa em 1942 e estudou no Colégio S. João de Brito. Após frequentar o curso de Direito na Universidade Clássica (até ao 4.º ano), entrou para o noviciado da Companhia de Jesus em Soutelo (Braga). Licenciou-se em Filosofia (1970) e em Teologia (1975). Foi ordenado sacerdote em 1974. Lançou várias obras.
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