Sandra Baptista e Mitó Mendes (A Naifa) lançam o projeto Señoritas
Sabendo que a vossa amizade vem de longe, este novo projeto soa quase a uma inevitabilidade do destino! Isto já andava a ser maturado por vocês há muito tempo ou surgiu de repente?
Nem uma coisa nem outra. Na verdade, tudo isto começou por umas brincadeiras (risos). Nunca imaginámos que alguma vez viéssemos a gravar um disco ou a mostrar isto ao grande público
Geralmente, as brincadeiras feitas na música acabam por dar origem a coisas destas!
Sim (risos). Acho que estas brincadeiras vêm desde que nós nos conhecemos. Na verdade, eu e a Sandra divertimo-nos muito a tocar uma com a outra e, muitas vezes ao longo dos anos, em vez de irmos para a praia, encontrávamo-nos para tocar. Digamos que eram assim os nossos encontros de gajas (risos), ou íamos às compras ou nos púnhamos a fazer umas letras e umas linhas de baixo e de voz (risos).
E então como é que a brincadeira começou a ser levada mais a sério?
Foi no verão do ano passado quando nos apercebemos de que tínhamos meia dúzia de canções com cabeça, tronco e membros. Começámos a mostrar as gravações que tínhamos feito no telemóvel a alguns amigos mais chegados e todos eles nos diziam a mesma coisa, que tínhamos de gravar. Foi nessa altura que levámos a coisa um bocadinho mais a sério. A partir desse altura começámos a completar o ramalhete das músicas e no final do ano decidimos então começar a gravar a sério.
Isto quer dizer que este projeto das Señoritas até a vocês vos apanhou de surpresa!
Completamente (risos). Aliás, eu acho que não passava pela cabeça de ninguém que alguma vez eu e a Sandra viéssemos a ter uma banda. Há pessoas que ainda nos perguntam: "Mas são só vocês as duas?". Curiosamente são as mesmas pessoas que hoje se confessam muitos surpreendidas com o resultado final. Quem ouve diz-nos que parece que estão ali mais do que duas pessoas a tocar.
Num momento em que o panorama da música atual é muito dominado pelo fado, pelo hip-hop e pelas sonoridades mais mainstream, este é um projeto completamente contracorrente. As Señoritas são um projeto de resistência ou de rebelião?
De resistência eu acho que não, porque fazemos isto mesmo por gozo, ou seja, não estamos aqui a tentar provar nada a ninguém. Rebelião até é um bocadinho (risos), mas também não sei se essa será a palavra certa. Nós estamos, basicamente, a fazer o que nos dá na gana. Nunca nos sentámos para falar sobre fazer um projeto que fosse assim ou assado, que quebrasse com as regras todas ou fosse contracorrente às tendências atuais. Isto não nasceu de um conceito. No fundo, o que está neste disco é algo que nos sai das entranhas. Basicamente, quem está por detrás das Señoritas são duas cotas de quarenta anos que se lembraram uma de começar a escrever e a outra de começar a tocar guitarra elétrica.
Já que fala num projeto tão casual e lúdico, como é que as coisas foram acontecendo mesmo durante o período da ‘brincadeira’, em termos de composição? Ou será que as coisas foram tão caóticas como querem fazer parecer?
E estas canções falam de quê?
As letras abordam um tipo de universo que a mim me interessa muito explorar, com muito ironia. Assim que olhei para aquelas letras da Sandra deu-me logo vontade de as cantar.
Fala em ironia, mas há letras que vão mais longe do que isso, com crítica declarada, crítica social e até crítica à religião e à fé!
Eu não diria crítica à fé. Há um tema que é uma crítica à hipocrisia de algumas pessoas que dizem ter fé e que se escudam na fé e na religião. A crítica é mais a isso.
Vocês dizem que gostam de usar a música como catarse. O que é que é preciso purgar?
(risos) Todos temos uma resposta diferente para dar a uma pergunta como essa. Todos temos coisas a purgar, mágoas, ressentimentos de relacionamentos passados, falta de amor na infância, tanta coisa. Todos nós guardamos algo. É difícil encontrar alguém que não guarde sentimentos, desilusões, raivas, frustrações etc. E as nossas letras falam também muito nisso. Nós não purgamos todos a mesma coisa, mas todos temos coisas para purgar.
E vocês sentem que o conseguem fazer na música?
Sem dúvida. Para mim, a música ou a arte em geral só é interessante precisamente por isso, por ser uma catarse. A minha maneira pessoal de purgar sentimentos é através da música. Por isso é que as letras da Sandra também me despertaram tanto interesse. Eu acho que ela toca nos pontos importantes.
Vocês abrem este disco com um verso curioso: "Acho que é meu dever não gostar do que é fácil". Soa quase a aviso para as canções que se seguem. Vocês já descobriram quem são aqueles que poderão gostar de vos ouvir?
Não, até porque nós ainda não saímos propriamente para a estrada. O que eu acho é que estas letras são dirigidas a pessoas que já têm uma certa maturidade e alguns anos de vida. As nossas letras não são propriamente juvenis, embora isto não queira dizer que não existam adolescentes que se identifiquem com elas.
E será que este é um disco mais apontado a mulheres?
Não necessariamente, porque este disco é sobre a vida em geral.
Quem ouve as canções das Senõritas facilmente percebe ali umas ambiências ‘negras’, ‘down’, quase depressivas. Como é que vão passar este disco para o palco?
(risos) Bom, ele vai passar assim mesmo. Há ali um bloco no espetáculo, tal como no disco, em que é bom que as pessoas estejam sentadas, porque nós vamos mesmo recriar aquele universo profundo e aquela coisa ‘dark’. Eventualmente, vamos acrescentar mais duas ou três músicas e uma versão de uma canção dos Sitiados, o ‘Amanhã’, de 1992. Mas acho que vai valer a pena ir ver-nos ao vivo. Acho que ninguém vai sair desapontado
CANÇÕES À MÃO ARMADA
Não sendo de todo fácil ouvir estas Señoritas, não é nada difícil gostar delas. Mitó Mendes e Sandra Baptista disparam aqui todas as suas munições. Tudo parece muito verdadeiro, tudo parece ser a cara delas. Não soa a trabalho, soa a prazer. Mitó e Sandra carregam consigo todas as idades, contra o medo, a ciática, as falsas confissões ou os hipócritas arautos da fé. Aos 40 anos, elas recarregam baterias num mundo cheio de deformidades e carências e à mão armada cantam o que lhes vai na alma. Todos terão o direito de não gostar delas, mas ninguém se pode entregar à ignorância de nem sequer as tentar escutar. É crime.
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